Outubro 30, 2008...10:48 am

A Experiência Religiosa e a Vivência de Felicidade

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Quando recorremos à psicologia para tentarmos explicar a experiência humana como um fenômeno integral – isto é, interpretar a condição humana como uma confluência de eventos subjetivos e objetivos –, é possível pensar que os recursos cognitivos que desenvolvemos para interpretar o mundo externo e a nós mesmos são, em parte, resultado da projeção de conteúdos internos da nossa psiquê. Isto porque, ao projetarmos aspectos internos e inconscientes (basicamente afetivos), no mundo externo, criamos maneiras de elaborarmos as experiências que transcendem a nossa capacidade de análise e compreensão consciente. Essa elaboração, ao expandir a capacidade de assimilação e vivência da experiência, nos possibilita sentir a vida como significativa.

Atribuir significado à vida implica, em certa medida, encontrar formas de lidar  com a ansiedade gerada por nossa dificuldade de enfrentar os desafios oferecidos pelo mundo externo. Tentar entender e explicar a experiência humana tem requerido de nossa espécie um enorme esforço emocional e intelectual. Psicologicamente falando, o desconhecido sempre oferece desafios para a nossa  estabilidade emocional, e, por isso, sempre tentamos desenvolver formas de acesso/entendimento/controle daquilo que não conhecemos. De acordo com o desenvolvimento da capacidade intelectual e dos recursos  técnicos para a  inserção humana no mundo, vamos criando novos e diferentes mecanismos  explicativos da realidade.

A religião, a filosofia, a arte, a ciência seriam, portanto, alguns desses mecanismo explicativos que favorecem a  adaptação humana ao mundo. Assim é porque possibilitam interpretar o desconhecido. A questão é que, as mentes que criam a religião não são as mesmas que criam a ciência. A criação e a adoção de cada um desses mecanismos explicativos da realidade  depende, em grande parte, de um contexto cognitivo específico. Ou seja, de condições objetivas e subjetivas que possibilitem uma interpretação do mundo mais pautada num ou noutro aspecto da experiência. É por isso que podemos dizes que tais mecanismos pertencem ao campo do Imaginário, não por serem  uma fantasia, mas, por expressarem um conjunto de visões – conceitos -  sobre o que é a vida e o mundo.

É claro que tais mecanismos possuem diferenças substanciais quanto a sua estruturação e função.  O que há em comum entre eles é que, os recursos cognitivos utilizados na produção Imaginária pertencem tanto ao campo da abstração intelectual quanto ao da vivência sensorial.  Afinal, a origem de todo o pensamento humano é o mundo  que vivenciamos por meio dos nossos sentidos.  Por mais arrojado  e abstrato que seja um conceito desenvolvido por um ser humano, em algum aspecto ele etrá um referencial na experiência sensorial.

A experiência sensorial pode ser o ponto focal na produção de uma explicação/interpretação do mundo, é o que ocorre, por exemplo, na Arte. A arte, porém, não existe sem a capacidade humana de abstrair formas, sons, etc.  A abstração, o destrinchar lógico e racionalista da experiência sensorial, é a ferramenta da filosofia, e, numa certa medida, também da ciência. A diferença entre a ciência e a filosofia, é que esta fundamenta-se na percepção individual do fênomeno, ao passo que a busca científica do saber procura restringir ao máximo o personalismo. A busca de explicações generalistas, que excluam as interpretações pessoais, também é usada pela religião. Mas, diferentemente da ciência, que recorre ao questionamento da explicação estabelecida e à comprovação dos fatos para encontrar explicações, a religião privilegia a interpretação já instituída.

O privilégio dado às interpretações instituídas pela religião suscita a desconfiança da ciência, e vice-versa. Em razão disso, durante muito tempo a ciência negou-se a estudar os efeitos da experiência religiosa na vida humana.  Mas, se o propósito da ciência é questionar, para compreender/desvendar/iluminar, não faria sentido recusar-se a investigar algo que é tão dominante na cultura humana. Os primeiros cientistas a se interessarem pelo estudo da religião foram os de formação humanística: antropólogos, psicólogos, etc. Mais recentemente, biólogos, físicos, químicos também têm demonstrado interesse nesses estudos. Essa mudança deve-se, principalmente, aos avanços das neurociências que têm ajudado a compreender melhor os efeitos da experiência religiosa sobre a relação mente-corpo.

O que se percebe, até o presente momento, é que a experiência religiosa, como recurso adaptativo, parece desempenhar um papel relevante na manutenção da saúde mental. Não é, exatamente, o papel transcendental defendido pelo religiosos. O que a ciência tem descoberto sobre a importância da experiência religiosa é muito mais da ordem do bem-estar subjetivo, em especial frente aos problemas do mundo concreto que tendem a gerar sentimentos como a impotência, o medo, etc. É o caso do enfrentamento da morte, por exemplo.

As pesquisas na área de Psicologia Positiva e das neurociências têm apontado que o envolvimento com algum tipo de fé, que não inclui necessariamente a vinculação com uma organização religiosa formal, tem aparecido como prognosticador de felicidade, bem-estar subjetivo, relaxamento e gerenciamento adequado do stress, em vários estudos sobre o tema. A análise de dados, obtidos em diversos locais do planeta, aponta para o fato de que:

os sujeitos que se reconhecem como felizes apresentam maior envolvimento com a parcela da vida atribuída à busca de sentido espiritual. Independentemente da vertente religiosa à qual o sujeito se sente afiliado.

Contudo, se por um lado, uma ênfase no aspecto espiritual da vida pode parecer prognosticadora de felicidade, por outro, essa mesma ênfase não garante a uma pessoa uma vida feliz. O que os estudos sobre felicidade têm demonstrado é que ter uma “vida espiritual ativa” – que se expresse nas práticas cotidianas, numa ética positiva , e não apenas nos ritos pré-definidos dogmaticamente – aparece como elemento facilitador da vivência de felicidade. Similarmente, na ausência de felicidade, uma “vida espiritual ativa”, parece funcionar como alívio para uma vida não satisfatória e como fonte de esperança num futuro melhor.  Tanto é que os resultados pesquisados demonstram que pessoas religiosas sofrem menso de depressão, cometem menos suicído, são menos ansiosas e lidam melhor com os momentos de crise como o desemprego, o divórcio, etc. Mas, é importante alertar aos religiosos de plantão – antes que se comece a alegar que a ciência provou que a felicidade depende da religião – que  essa relação vida religiosa-felicidade é mais complexa do que parece, tanto é que:

os resultados encontradas nas pesquisas acabaram por gerar novas indagações – que é como deve ser na ciência!  Melhor dizendo, ainda não está muito claro se é a em si ou se é o fato de sentir-se parte de um grupo coeso – que compartilha os mesmos valores e crenças – que faz com que as pessoas religiosas apresentem essas características. Tanto é que, curiosamente, ateístas e agnósticos engajados em causas coletivas como movimentos ecológicos ou civis, ou envolvidos com um corpo de valores como o humanismo ou o ceticismo científico, usufruem de benefícios similares àqueles das pessoas religiosas. Pessoalmente, acredito que o link com a felicidade diz respeito a fé, no seu sentido mais semântico e menos cultural, e não à religiosidade em si. Fé, no dicionário, também é sinônimo de crença e confiança, ou seja, de acreditar que é possível: seja mudar o mundo, salvar o planeta, construir um futuro melhor ou ser uma pessoa mais digna. E acreditar no melhor, e na própria capacidade de ser parte disso, não é particularidade de nenhuma construção Imaginária humana em especial, mas de um impulso natural da espécie para buscar a melhora.


4 Comentários

  • Olá Angelita

    os sujeitos que se reconhecem como felizes apresentam maior envolvimento com a parcela da vida atribuída à busca de sentido espiritual

    Então sou uma exceção.

    Acho que não temos uma “necessidade inata” de uma “vida espiritual ativa”. Penso que é mais provável que as pessoas sejam sugestionadas a pensar que é assim e para se considerar felizes quando nesse caminho. Em outras palavras, é bem possível que as pessoas sejam levadas a acreditar que têm necessidade de tais coisas.
    Seria interessante a seguinte experiência: será que uma criança que não tivesse qualquer contato com adultos desenvolveria sozinha tais conceitos? Sentiria necessidade de uma “vida espiritual ativa” para se considerar feliz?

    um abraço feliz

  • Olá amigo cretaciano,

    agradeço a visita e o comentário. Mas, não vejo você como uma exceção, não pelo que você diz no seu comentário. Se você voltar ao texto, verá que eu deixo claro que a fé, independentemente, de vinculação dogmática, é o elemento associado à vivência de felicidade. E fé, você há de convir, não é uma premissa exclusiva do comportamento religioso, mas da experiência humana de forma amplificada. Também verá, que a idéia de sentido espiritual não é, por si só, religiosa/dogmática mas diz respeito a um posicionamento ético, a um modus operandi diante dos desafios, físicos e emocionais, da vida. Além disso, a religião no texto é tratada como elemento integrante do Imaginário Humano, junto a Arte, a Ciência, o Mito, etc. Talvez, meu caro reptiliano, a questão seja a visão engessada que temos da experiência humana, buscando separar os nossos feitos em objetivos e subjetivos, concretos e abstratos, físicos e mentais…e por aí vai. Quanto mais avançamos nos estudos científicos sobre a condição humana, mais claro nos parece que a percepção que temos do mundo é uma construção das nossas mentes, e que estas são moldadas pela experiência, não importando se o resultado nos parece mais ou menos racional. Quanto às crianças…bom, a mente mágica é característica inerente ao pensamento infantil, o processo de desenvolvimento cognitivo/emocional/físico leva, naturalmente, à superação da visão “sobrenatural” do mundo pela mente infantil. Contudo, não suprime a capacidade de criar, delirar, etc. E ai de nós, se o fizesse! Se o processo de desenvolvimento humano nos retirasse a capacidade/habilidade de imaginar, estaríamos todos habitando as cavernas ainda hoje. Nesse sentido, o contato com os adultos não seria uma influência determinante na existência ou não de visões “espirituais” pela criança, isso porquê tal condição é constitutiva da mente infantil. Mas, sim, claro, há influência decisiva dos adultos na forma como essas visões são interpretadas e analisadas, aceitas ou rejeitadas. Contudo, até que ponto seria melhor, ou pior, enquadrar uma criança numa visão cética do mundo? A quem isso traria satisfação? provavelmente àqueles que são céticos! Não importa para onde direcionemos a vela do barco, nosso objetivo, no nível individual e coletivo, é fazer prevalecer o caminho que percebemos como melhor. Às crianças, como a todos os filhotes, resta confiar na sabedoria dos adultos. Esse é o daimon dos mamíferos que nascem incapazes de prover a própria subsistência por longos períodos de tempo. Culpe, então, a natureza!

  • Olá!

    o tema religioso sempre é polêmico. De modo a colocar mais lenha na fogueira, sugiro assistirem o seguinte documentario:

    http://video.google.com/videoplay?docid=-2282183016528882906

    Zeitgeist o filme

    reservem 2 horas para assistirem, pois essa é a sua duraçao. Aqueles que são muito religiosos, por favor, sejam tolerantes pois esse documentário apresenta uma interpretação da religião, principalmente a Cristã, que tira um pouco a sua originalidade e que leva você a um pensamento critico profundo que testa as bases da sua fé. Os céticos vão adorar, pois traz vários argumentos que reforçam suas causas.

    Também é recheado de Teoria da conspiração. Vale a pena ver, mesmo se nem 50% do que for apresentado for verdade, acho bom porque desperta muito bem o pensamento crítico. Mas se for, cuidado para nao ficar paranóico.

    Abraços felizes

    Erico e Ana

  • Olá Erico e Ana,

    sim! Religião é sempre um assunto polêmico, e isso porque é, essencialmente, uma questão emocional/afetiva, uma questão de (não)fé. Qualquer posicionamento que tomamos quando o assunto é religião, é um posicionamento pouco racional…Mas, afinal, é isso que faz da religião um assunto tão atraente, não é mesmo?!

    Já vi o Zeitgeist. É interessante mas, é claro, com ressalvas! Como vocês apontam: é para ser visto criticamente. Seja como for, vale à pena vê-lo. No mais, valeu a dica.


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