Grupo Ajuda Mulheres a Lutar Contra o Câncer sem Depressão

Por Carla Nascimento – Jornal A Gazeta/ES – 16/09/2009

Passar por longas sessões de quimioterapia, radioterapia, tratamento hormonal e até chegar ao extremo de perder parte do seio. Nada disso é capaz de abalar um grupo de mulheres que se uniram para trocar experiências de vida. É o que prova uma pesquisa entre as participantes do Programa de Reabilitação para Mulheres Mastectomizadas (Premma): 80% delas não demonstram sinais de depressão.

Esse é apenas um dos vários estudos realizados no programa, que existe há dez anos. A professora do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e coordenadora do programa, Maria Helena Costa Amorim, destaca que o projeto começou tímido – com ela e quatro acadêmicos cuidando de apenas cinco pacientes -, mas aos poucos ganhou a adesão de outros profissionais da área de Saúde, Psicologia e Serviço Social e já atende a 1,5 mil pessoas.

Maria Helena ressalta que o momento de maior ansiedade é quando a paciente recebe a notícia de que está com a doença. Estresse contínuo, esclarece a professora, reduz a imunidade do organismo.

“Desde o diagnóstico, o câncer mexe com profundas emoções. Existe toda uma percepção por parte da sociedade de que câncer é sinônimo de mutilação, de menos inserção no mercado de trabalho. A ideia geral é que a pessoa está condenada à morte. A mama é o símbolo de femininidade, isso sem contar com os efeitos colaterais dos inúmeros tratamentos. Eu observava que, se essa mulher não tivesse um grupo de apoio para compreender melhor todo o processo, entrava em melancolia, muitas vezes, desenvolvia até a depressão”, diz Maria Helena.

O programa funciona como um espaço para troca de informações sobre o tratamento, cuidados que devem ser tomados com o braço do lado da cirurgia e, principalmente, fazer amigos. “A mulher que tem a inserção dela no programa após o diagnóstico tem menos estresse se comparada com aquelas que procuram apoio após a retirada da mama. Ela escuta o depoimento de outras e tem mais informações. Assim, vai para a cirurgia mais tranquila”, afirma a coordenadora.

Elas não perdem uma reunião do programa

A aposentada Iracema Cardoso dos Santos, 64 anos, descobriu o câncer de mama há dois anos e sete meses. Ela sofreu com a queda dos cabelos, a mastectomia e os enjoos causados pelo tratamento. Tudo isso, no entanto, foi amenizado com a presença dos amigos do Programa de Reabilitação para Mulheres Mastectomizadas (Premma), que passou a frequentar por orientação médica, logo após a cirurgia. “Moro em Cariacica e participo dos encontros toda semana.”

A comerciária Célia Carneiro Nunes, 44, também faz questão de frequentar o grupo. Dois anos depois de passar pela cirurgia, ela já voltou a trabalhar, mas não deixa o programa. “Ele me ajudou a saber como agir. A vida dá um salto após o câncer. Aprendi novos valores, me descobri.”

Outra que não perde uma reunião é a professora Maria Luzia Bozi Ferreira, 56. Vaidosa e bem-humorada, não aparenta ter passado por tantas dificuldades. Em outubro de 2007, descobriu o câncer de mama. “Hoje, viajo com as amigas que conheci no programa. Até achamos graça das mulheres que chegam com as mesmas angústias e dúvidas que tínhamos”, frisa.

No dia que não posso ir à reunião do grupo fico triste. Lá fiz muitos amigos, que são como uma nova família. E ainda recebo dicas de cuidados que devo ter após a cirurgiaIracema Cardoso dos Santos , 64 anos, aposentada.

Quando os testes confirmaram o câncer, fiquei sem chão. Eu me apeguei na fé e no grupo de apoio, que foi tudo para mim. Descobri uma nova família. Saí fortalecidaMaria Luzia Bozi Ferreira , 56 anos, professora.

Vejo o grupo como uma sustentação mesmo. Ele me ajudou a saber como agir depois da operação (mastectomia). Faço questão de levar uma palavra amiga a quem passa pela mesma situação. Sei o quanto isso é importanteCélia Carneiro Nunes , 44 anos, comerciária.

Tumor é mais perigoso em idosas

A aposentada Maria Aurea Lisbôa, 74, ficou 22 anos sem fazer uma mamografia. Há 15 dias, quando fez um check-up, ela decidiu verificar se havia algum nódulo no seio. Não havia indícios de doença. Mas nem todas têm a mesma sorte. O câncer de mama é o tumor que mais mata mulheres com mais de 60 anos.

Pesquisas recentes indicam que a mortalidade cresceu 40% em mulheres acima dos 60 anos entre 1980 e 2005. A descoberta precoce do câncer, acima dos 50 anos, pode reduzir a mortalidade em até 45%. Mas um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, constatou que mais da metade das mulheres idosas que não fazem mamografia consideram o exame desnecessário.

Das entrevistadas, 1.287 nunca haviam feito uma mamografia. Mais da metade (53,9%) delas simplesmente não considerava o exame necessário. Entre as razões apresentadas estão: “Nessa idade não é preciso”, “Não tenho marido”, “Já passei pela menopausa”, “Não sinto nada”. A falta de orientação médica ocupa o segundo lugar na lista. Na faixa etária dos 60 aos 69 anos, 39,4% não tinham feito o exame porque o médico não solicitou. Maria Aurea garante que aprendeu a lição e que, a partir de agora, fará a mamografia todos os anos.

Profissionais debatem a doença até amanhã na Ufes

Especialistas de diversas áreas estarão no Teatro da Ufes, em Vitória, até amanhã, para a Jornada Interdisciplinar em Câncer de Mama. O evento inclui apresentações de trabalhos científicos, oficinas de terapias alternativas e cursos, além de mesas-redondas entre os profissionais de todo o país.

Durante a jornada, será lançada a cartilha do Programa de Reabilitação para Mulheres Mastectomizadas (Premma) e o livro do Instituto Nacional do Câncer (Inca) “Ações de Enfermagem em Oncologia”.

Comemoração

O evento marca as comemorações dos dez anos do Premma, que funciona no Ambulatório Ylza Bianco, do Hospital Santa Rita de Cássia, em Maruípe, Vitória. Ele é fruto de uma parceria entre a Universidade Federal do Espírito Santo, o hospital e Associação Feminina de Combate ao Câncer (Afecc).

A coordenadora do programa, a professora do Departamento de Enfermagem da Ufes, Maria Helena Costa Amorim, conta que as mulheres mastectomizadas recebem apoio de uma equipe interdisciplinar com profissionais de Enfermagem, Medicina, Psicologia, Nutrição, Serviço Social e Fisioterapia.

“O câncer, desde o diagnóstico, mexe com profundas emoções da mulher. Se essa mulher não tivesse um grupo de apoio para compreender melhor essa dinâmica de tratamento, ela ficaria num processo de melancolia, muitas vezes, desenvolvendo a depressão”, afirma.

Onde encontrar ajuda

Hospital Santa Rita de Cássia: Avenida Marechal Campos, 1579, Santos Dumont, Vitória. Telefone: 3334-8000

Acolhimento e compreensão

Angelita Corrêa Scardua – Psicóloga, especializada em desenvolvimento adulto e felicidade.

Um estudo clássico da Universidade de Stanford (1989/1991), na Califórnia, realizado com grupos de pacientes de câncer de mama, mostrou que a participação em grupos de apoio contribui para a diminuição das dores do tratamento e para melhorar o estado de ânimo das mulheres. Desde então, estudos similares em todo o mundo têm comprovado os efeitos dos grupos de apoio na recuperação de pacientes de câncer. Mas por que a companhia de pessoas na mesma situação de adoecimento pode ajudar na luta contra uma doença? A resposta para essas perguntas reside no afeto e na empatia. O suporte dado pelos grupos de apoio oferece uma condição emocional na qual a paciente se sente compreendida e acolhida. No grupo, a paciente pode dividir suas experiências – dúvidas, medos e esperanças – com pessoas que realmente compreendem o significado que elas têm. A oportunidade de lidar com os desafios da doença, sem sentir-se isolado ou diferente, atenua os efeitos do estresse que acomete as pessoas em tratamento. Quando vencemos a solidão, criando vínculos afetivos, estabelece-se a sensação de segurança. Ao nos sentirmos seguros, nosso cérebro é inundado pela liberação de endorfinas, substâncias químicas associadas ao bem-estar e à alegria. Portanto ter alguém para compartilhar os pensamentos e os sentimentos alegra a mente, aquece o coração e fortalece o corpo. Melhor dizendo: uma mente sã favorece a saúde do corpo.

Imagem: “Feminilidade” (detalhe) por Ursula I Abresch, em 1x.com

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11 comentários sobre “Grupo Ajuda Mulheres a Lutar Contra o Câncer sem Depressão

  1. Muito bom ter esclarecimentos assim, estou com uma vizinha de 28 anos assim e não sei como agir. Gostaria muito de poder ajudá-la e poder fazer com que essas células parem de se alastrar…

  2. Olá Rose,
    nessas horas, a melhor ajuda é o carinho, o ombro amigo, a escuta atenta, o colo, a alegria, o convite para a vida. Felizmente, hoje, o câncer de mama é uma doença tratável na maioria dos casos. O caminho da cura é desgastante e árduo, mas não tão longo que não possa ser percorrido com amor e amizade. Você pode fazer muito por sua vizinha, mais do que você acredita. Pense nisso!
    Seja bem-vinda, sempre!

  3. Olá, gostaria de fazer parte desse grupo de auto ajuda, mas gostaria de saber se é direcionado ao cancêr de mama? eu tenho linfoma e estou mto mal emocionalmente e gostaria de ajuda para enfrentar com mais força e sem depressão…
    Obrigada
    Priscila K Corre

  4. Olá Priscila, o grupo que aparece nesta reportagem é voltado ao câncer de mama sim. Você não disse de onde você é, mas esse grupo especificamente acontece em Vitória, no Espirito Santo. Para entrar em contato com os coordenadores do grupo e obter maiores informações você precisa ligar para o Hospital Santa Rita, no telefone(27) 3334-8000. Caso você não seja do Espirito Santo, procure se informar em sua cidade/Estado, quase todos os Hospitais, Institutos e Centros com programas de atendimento a pacientes com câncer possuem algum tipo de atendimento terapêutico ou, pelo menos, podem te informar onde há algum. Boa sorte!

  5. Acho muito interessante este trabalho, não tenho cancer e nem ninguém próximo que tenha, mas me preocupo com quem tem e tento ajudar com palavras de motivação. Deixo aqui meus sinceros agradecimentos aos fornecedores de ajuda. Minha mãe já teve, hoje é curada pois teve fé e persistencia, um grande milagre de Deus e acredito que não será diferente com estas mulheres! Parabéns pelo trabalho!

  6. Eu estou proccurando um grupo de apoio pois to com Cancer fiquei sabendo no final de marco to fazendo quimioterapia e os efeitos nao sao nada agradaveis alem do medo de nao saber o que vem pela frente pois tudo e novidade e uma doenca triste
    pois nao estamos preparados para conviver com ela preciso de ajuda …

  7. Olá Rosangela! Você deve procurar por um grupo de apoio na cidade em que você mora. Muito provavelmente, no hospital em que você faz o seu tratamento deve ter um serviço de assistência social ou de psicologia, converse com a pessoa responsável (assistente social ou psicóloga) e peça orientação. Boa sorte e boa recuperação!

  8. Boa tarde Angelita, minha mãe foi diagnosticada hoje com cancêr no colo do útero, então por isso estou buscando ajuda, mais nessas horas é sempre mt difícil achar uma saída e gostaria de conselhos e apoio para que nossa família venha vencer mais essa luta.

  9. Olá Fernanda! O apoio da família é fundamental sim. Você pode conseguir orientação nos locais que têm atendimento expecializado em câncer, tanto no setor privado quanto no público. Hospitais, Centros de Saúde, Postos de Pronto Atendimento, etc., que têm programas específicos para pacientes com câncer, em geral, incluem psicólogos e assistentes sociais treinados para o acompanhamento do paciente e dos familiares. É comum nesses programas haver grupos terapêuticos, o que costuma contribuir muito para o enfrentamento e superação da doença. Busque informações na sua cidade sobre programas específicos para o tratamento do câncer e sobre grupos de ajuda, pois, não enfrentar a doença sozinho é a melhor forma de superá-la.

  10. Angelina,
    Minha irmã, Cláudia Drumond, 50 anos, está fazendo tratamento contra câncer através na Clínica Medquimhio em Vitória com o Dr. Sandro, já tendo sido submetida a uma cirurgia para retirada dos ovários e já fez a 3º seção de quimioterapia. Está sendo acompanhada por uma psicóloga da própria clínica. Fiquei sabendo que é fundamental, para a pessoa em tratamento de câncer participar de Grupos de Ajuda na luta contra o câncer, além de acompanhamento de psicóloga. Seria possível esta participação neste Grupo mesmo que o tratamento esteja sendo feito em outra clinica diferente do Hospital Santa Rita de Cassia? Como podemos fazer contato?
    Atenciosamente
    Maria Regina Drumond Moraes

  11. Olá Maria Regina! Sinto por sua irmã! Quanto à participação no grupo terapêutico do Hospital Santa Rita, infleizmente, eu não sei informar os critérios para ingresso. Acredito que se você entrar em contato com a Afecc obterá maiores informações.

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