Forças do Caráter

Segundo Martin Seligman, a noção de bom caráter pode ser entendida como uma das suposições principais da Psicologia Positiva. Mas, afinal, o que é o “bom caráter”?

Antes de mais nada, é válido ressaltar que a idéia do bom caráter permeou a ideologia social do século XIX. Essa visão contribuiu para que os desvios – qualquer tipo – fossem vistos como defeito e degeneração. Não é à toa que o tratamento moral constituía a principal forma de terapia. Ou seja, o objetivo dos processos terapêuticos era substituir vício (mau caratismo) por virtude. Se, por um lado, essa perspectiva circunscrevia o ideal humano à adequação às regras estabelecidas; por outro, incentivou e colaborou para a alavancada de movimentos que visavam melhorar o ser humano, tais como o abolicionismo, o feminismo, os direitos da infância, etc.

É fato que, inicialmente, a ideologia do “bom Caráter” defendia que a crueldade e a violência – majoritariamente praticada pelas classes menos favorecidas – tinha como explicação óbvia o mau caratismo, essa “doença social” que causava más ações. No entanto, com o decorrer do tempo, percebeu-se que as péssimas condições de vida e de trabalho dos pobres gerava ignorância, fome, exaustão, miséria, subnutrição, baixa escolaridade, adoecimento, baixa expectativa de vida, desencanto, desesperança…consequências indissociáveis do confinamento em um ambiente degradado, cujo controle fugia das mãos daqueles que o habitavam. Então, foi assim que se começou a pensar que, talvez, a explicação para a violência e a degenerescência humana estivesse no ambiente.

Dessa forma, começou a expressar-se a opinião de que talvez o povo não fosse responsável por seu mau comportamento. Sugeriu-se que o objetivo daqueles que educam, cuidam e orientam a massa fosse procurar desvendar os mecanismos responsáveis pelo mau comportamento, ao invés de atribuir toda a responsabilidade àqueles que não se comportavam adequadamente. A partir disso, a ciência social adentrou o século XX com o objetivo de explicar o comportamento dos indivíduos como resultado das forças ambientais que fugiam a seu controle. O entusiasmo com as idéias de pensadores como Marx,  por exemplo, está diretamente associado à essa negação do caráter como fomentador do comportamento humano.

Foi assim que o caráter, bom ou mau, deixou de ser objeto prioritário da Psicologia durante boa parte do século passado. Assim como qualquer noção subjacente de natureza humana, já que apenas as circunstâncias da criação eram tidas como relevantes. Para não dizer que esse abandono da idéia de caráter foi total na primeira metade do século XX, o estudo da personalidade manteve algum interesse na idéia do caráter e da natureza humana, em especial na obra de Gordon Allport e na de Carl Jung. Contudo, apesar do foco no ambiente como origem de tudo – e das inúmeras tentativas de modelar o comportamento humano pela mudança das estruturas ambientais –, os seres humanos continuavam a repetir os mesmos padrões de bom ou mau comportamento, subsistindo a sensação de que algo extrapolasse a simples relação estímulo-resposta que se dá quando o indivíduo reage ao ambiente.

Com os avanços das neurociências, da biologia molecular e da genética no decorrer das últimas décadas, tornou-se praticamente impossível para qualquer ciência que estuda a experiência e o comportamento humano se sustentar integralmente sem se dispor a, pelo menos, considerar a idéia de caráter. É bom que se entenda que reconhecer a importância do caráter não implica postura de ordem moral por parte da ciência. A ciência deve ser descritiva e não prescritiva. Não é função da Psicologia dizer a alguém que seja solidário, otimista ou bem-humorado. A função da Psicologia como ciência é investigar e, a partir dos dados coletados e analisados, descrever as conseqüências dessas características para a vida social e individual. Por exemplo, hoje é possível apresentar resultados de pesquisas – em todos os níveis, do molecular ao social – que demonstram que a predominância de emoções positivas proporciona maior tempo de vida, melhor saúde física, maior capacidade de aprendizagem e melhor interação no nível grupal. Agora, o que alguém fará com essas informações depende unicamente dos seus valores e interesses.

No mais, os mesmos estudos científicos que atestam a existência de traços de personalidade inatos – ou seja que demonstram a existência de predisposições genéticas de caráter -, também apontam para o fato de que podemos aprender a  gerenciar nossas características pessoais de forma positiva apenas mudando  a forma como elas são expressadas e percebidas. Contudo, ao contrário do que se defendia enfaticamente  nos idos do século XX, esse processo de “mudança de caráter” tem muito pouco a ver com fatores externos. É no espaço interno, na forma com que vemos o mundo e a nós mesmos, na maneira como lidamos com as nossas emoções e pensamentos que parece residir a chave para a transformação pessoal. Em alguns casos, parecer ser mesmo possível modificar a própria estrutura cerebral a partir da transformação de nossos padrões emocionais e cognitivos.

Hoje, por exemplo, já há indícios científicos de que apenas 10%  da nossa felicidade se deve a fatores externos/ambientais, às circunstâncias de vida como renda, lugar de moradia, escolaridade, beleza, etc. Dos 90% restantes da nossa felicidade possível, 40% estariam inteiramente nas nossas mãos. Ou seja, uma parte considerável da nossa felicidade tem a ver com as escolhas que fazemos, com os eventos nos quais nos engajamos, com o que definimos como meta de vida e com o que pensamos. No entanto, os 50% majoritários da nossa vivência de felicidade parecem estar relacionados a fatores genéticos, predisposições inatas que constituem àquilo que podemos definir como caráter.

Assim, é que, baseando-se em resultados empíricos, os mais recentes e avançados estudos sobre o comportamento e a personalidade humana têm reconhecido o caráter como um conceito central. E mais, o conceito de caráter nos traz a necessidade de tentar compreender a função de traços comportamentais – crenças, atitudes e valores – associados à idéia de virtude, que seria a fundamentação de um bom caráter. Entretanto, já que a virtude, constitui aspecto essencial do bom caratismo, não seria válido definir tais conceitos a partir de uma perspectiva local e temporal. Para que a nossa compreensão da virtude seja útil ao entendimento do caráter humano, se faz necessário compreendermos como esse conceito é encarado pelo conjunto da espécie humana. Entender quais virtudes são valorizadas nas mais diversas culturas humanas é essencial para chegarmos a um entendimento do papel do caráter no comportamento individual e social.

A Psicologia Positiva dedica-se, fundamentalmente, ao estudo da felicidade. Ora, se há indícios claros de que as virtudes estão associadas  à busca de experiências de vida positivas – experiências que promovem bem-estar individual e coletivo, e que  essas estão associadas a um bom caráter -, nada  mais natural do que a Psicologia Positiva dedicar-se também à investigação das virtudes e de seu veículo na personalidade humana: o caráter. Logo, a Ciência da Felicidade tem se dedicado a investigar as virtudes humanas numa perspectiva “universal”, e os resultados são surpreendentes! Descobriu-se que existem seis virtudes endossadas por praticamente todas as culturas e tradições religiosas conhecidas. São elas:

• Saber e conhecimento
• Coragem
• Amor e humanidade
• Justiça
• Moderação
• Espiritualidade e transcendência

É claro que essa compilação “universal” de virtudes é generalista. Os detalhes diferem em função de cada realidade sociocultural e histórica. Além do que, cada tradição cultural possui seu próprio elenco de virtudes como a hospitalidade para os islâmicos, a caridade para os cristãos, a parcimônia para Aristóteles, etc. Ainda assim, o relativismo ético, tão cultuado em nossa época, não resiste à confontação da recorrência dessas seis virtudes elencadas acima nas várias culturas humanas. Isso aponta para o fato de que os seres humanos possuem, sim, um sentido de moralidade que é inerente a tudo àquilo que consideramos ser essencial a um bom caráter.

Infelizmente, saber, coragem, humanidade, justiça, moderação e transcendência são conceitos abstratos demais para o trabalho psicológico. Desenvolver mecanismos para estudar e medir essas virtudes – sendo que, para cada uma delas pode-se pensar em várias maneiras de alcançá-las – exige um enfoque nos caminhos específicos que cada indivíduo e cada grupo utiliza para expressá-las. Essa categorização dos caminhos possíveis para a virtude humana tem demandado da Psicologia Positiva o exercício de compreender as forças do caráter pelas quais alcançamos as virtudes.

Assim, atendendo a sugestão dos leitores Erico e Ana, a partir de hoje, farei uma série de posts sobre as forças do Caráter aqui no blog. Como são 24 forças ligadas às 6 virtudes universais, os posts serão disponibilizados gradualmente. Sempre que possível, incluirei um artigo específico sobre uma das forças. Tentarei não apenas decrevê-las, mas também situá-las no contexto da nossa vida diária, ilustrando por meio de exemplos práticos como elas podem ser experienciadas no nosso cotidiano e mesmo desenvolvidas por meio de atitudes e comportamentos.

Imagem: Vernon Trent, em 1x.com

2 comentários sobre “Forças do Caráter

  1. Olá,

    Adoro esse assunto.Vou fundo nele junto com minha longev”idade”.
    Estou saindo de um treinamento onde constatei minha limitação pelo esforço que exerci e pela nota que me dei…E tudo,tudo tem a ver com esse assunto.”Casualmente” vejo-me aqui:campo mórfico parece que vigia a gente,rsrsrsr
    Obrigada e sucesso!!!!

  2. Prezada Angelita,
    Voce já explicou e definiu a força virtude.

    Poderia me enviar.
    Muito obrigada.
    Tania Vellasco

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