Tato

O sentido que costumávamos chamar de tato é, na verdade, constituído por cinco sistemas dérmicos – ou somatossensoriais – distintos: contato físico, pressão, calor, frio e dor. Logo, o tato é constituído por cinco sensações cutâneas diferentes.

A pele é o primeiro sistema sensorial a tornar-se funcional em todas as espécies: humanos, animais e aves. Essa condição da pele, de sua função sensória ainda na fase mais inicial do desenvolvimento do organismo, indica a importância do tato em nossas vidas, já que: segundo a lei embriológica geral, quanto mais cedo se desenvolve uma função fisiológica, mais fundamental provavelmente ela será. Tanto a pele quanto o sistema nervoso originam-se da mais extensa das três camadas de células embriônicas, a ectoderme de onde deriva a epiderme, os fâneros cutâneos e o sistema nervoso periférico e central. A pele é constituída por duas camadas distintas de células, firmemente unidas entre si, a epiderme e a derme:

- a primeira, a epiderme, é constituída por tecido epitelial estratificado e é formada por células mortas na camada mais externa. Essa camada é a que, no senso comum, chamamos de pele, sendo a parte externa, a que protege o corpo.

- a segunda, a derme, é formada por tecido fibrilar, o que favorece a elasticidade característica da pele. Na derme, células novas estão sendo continuamente produzidas para substituir as mortas, encontradas na epiderme e que são rotineiramente eliminadas.

Uma vez que toda a superfície cutânea é provida de terminações nervosas capazes de captar estímulos térmicos, mecânicos ou dolorosos, a pele também é o maior órgão sensorial que possuímos. Cada receptor somatossensorial localizado na derme tem um axônio e, com exceção das terminações nervosas livres, todos eles estão associados a tecidos não-neurais. Muitos receptores parecem especializados em responder principalmente a estímulos que representam uma das cinco sensações cutâneas. Certas células, porém, respondem a estímulos que produzem algumas ou até as cinco sensações.

A localização dos receptores dentro da pele tem uma implicação importante. O tecido circundante absorve parte da estimulação. Se alguém aperta seu braço, por exemplo, somente uma fração da força chega até um receptor. O mesmo se aplica ao contato, ao frio, ao calor e à dor. Os receptores cutâneos enviam mensagens sensoriais à medula espinhal. De lá, os sinais trafegam por complicadas vias até as regiões somatos-sensoriais do cérebro – nos lobos parietais – para processamento. Cabe lembrar que uma quantidade considerável do córtex é responsável pela decifração das mensagens destas regiões.

Na espécie humana, a participação cortical no processamento das informações captadas pelos sentidos é única. Assim, a experiência sensorial depende da integração mente-corpo, tornando-se viável à medida que as vivências do mundo objetivo são percebidas pelo organismo. Ou seja, para que o cérebro identifique um determinado sabor é necessário que haja antes uma boca, na qual os alimentos são triturados e transformados, originando moléculas de sabor. Com o tato não é diferente. Ainda bem cedo, as primeiras percepções do bebê sobre a realidade externa se dão através da pele. É por meio das sensações de frio, calor, aconchego, conforto, dor, etc., que o bebê atribui valor negativo ou positivo às experiências. Como o corpo é totalmente recoberto pela pele, conseqüentemente, entramos em contato com o meio externo através dela: a pele é, assim, uma das principais mediadoras entre o “ser” e o mundo.

A pele, como órgão sensorial primário, não protege apenas os órgãos internos, músculos, ossos e nervos do corpo; podemos pensar que a pele protege também a individualidade. Ao mesmo tempo que a pele é um veículo de troca entre o organismo e o meio, ela ajuda o indivíduo a estabelecer a separação psíquica entre ele e o outro, entre ele e o ambiente. Dessa forma é por meio do toque, do contato da pele com o meio, que verificamos e confirmamos a realidade concretamente. O tato, por meio do toque, atesta a existência de uma realidade objetiva, no sentido de que é alguma coisa fora de mim, do meu corpo, do meu eu.

Assim, o ato de tocar é um comportamento que pode conter alguns elementos fundamentais para o desenvolvimento do ser humano, proporcionando bem estar físico, emocional e social. As experiências sensórias táteis proporcionam um elo entre as pessoas, sendo a base das relações humanas. O contato físico entre os indivíduos é tão significativo porque ao tocarmos alguém podemos exprimir toda a gama de emoções conhecida: ódio, amor, prazer, insegurança, medo, ansiedade, alegria…todo o afeto que sentimos, seja positivo ou negativo, pode ser transmitido pelo tato.

Com a pele nos protegemos, nos reconhecemos uns aos outros e nos comunicamos. Por meio da pele, queirendo ou não, expressamos nossos afetos. As sensações táteis: contato físico, pressão, calor, frio e dor, são os instrumentos por meio dos quais nossa pele fala com o mundo, e o mundo fala conosco. Nessa linguagem, as mãos tem função importantíssima, pois, no momento em que com elas tocamos um objeto externo, ou uma pessoa, as fronteiras visuais e táteis ficam praticamente idênticas, sendo o limite entre o objeto/pessoa e o nosso corpo muito tênue. Apesar disto, só nós mesmos podemos sentir a distinção entre o mundo interno – aquilo que sentimos e pensamos – e o mundo externo que é visível para todos. A partir desta distinção nos colocamos no mundo como algo diferente dele.

De fato, a pele participa na construção da nossa organização e integração psíquica, favorecendo uma relação dialética com o mundo. Talvez, por isso, um abraço, um aperto de mão, um tapa espalmado, um roçar de pernas, possam expressar muito mais do que simples palavras. Racionalmente, podemos usar palavras para falar de sentimentos, mesmo quando eles não são verdadeiros. Mas é a nossa pele que dirá o que realmente sentimos. Querendo ou não, pensando ou não, nossos pêlos se arrepiam, seja de raiva ou de desejo!…Podemos construir um discurso racional sobre qualquer coisa, mas é por meio do tato que nossas verdadeiras intenções, sensações e sentimentos chegam à flor da pele…

…a pele, essa nossa roupa animal, essa vestimenta contínua e flexível que nos envolve por completo, que nos coloca em sintonia com o mundo natural, o mundo das emoções, onde a razão não exerce controle.

Imagem: “O Banho do Monge” por Lasiate, em 1x.com

14 comentários sobre “Tato

  1. Olá Angelita, meu nome é Micaelle,sou estudante de Design de Produto pela UFC. Esse texto do seu blog é muito interessante e sinceramente pelas informações nele contidas, pude absorver muitas coisas que servirão na minha pesquisa de projeto de conclusão de curso. É claro que lhe farei as devidas referências em meu trabalho, se você não se incomodar. Se não for incoveniente, gostaria de manter contato por email para trocar algumas ideias! Abraço…

  2. Olá Micaelle! Sinta-se à vontade para utilizar as informações que lhe parecerem relevantes. Pode deixar, entrarei em contato com você via Email.

  3. ola Angelita? adorei seu texto vou usa-lo na minha apresentação na faculdade, algumas partes…obrigada

  4. OLA Angelita bem,queria que vc me ajuda-se a dar ideias de objetos a uma experiencia do sentido tato .Vou apresentar um trabalho sobre o sentido tato e quero fazer uma experiencia de vendar a pessoa e pegar o objeto e descreve-lo mas nao tenho ideias poderia me ajudar e para amanha e preciso hj da sua resposta …OBRIGADA e estou aguardando .

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s