“Nem pão-duro nem gastador: equilíbrio é o que traz bem-estar”

Por Abdo Filho

Jornal A Gazeta/ES – 08/06/2008

Dinheiro traz ou não traz felicidade? O assunto, controverso, é tema recorrente de debates entre especialistas. Alguns estudos mostram que sim, o dinheiro traz felicidade. Já outros dizem que não. É bom que se diga que nas duas pontas da discussão estão estudos feitos e divulgados por instituições e publicações respeitadas. Para os pesquisadores da University of British Columbia (UBC) e da Harvard Business School, por exemplo, o dinheiro pode não comprar amor, mas pode comprar felicidade. O segredo é: você tem de gastá-lo com outra pessoa. De acordo com o estudo, pessoas que gastam bastante com presentes para outros e fazendo ações para caridade são mais felizes.

Como parte do estudo, os psicólogos da UBC deram uma bolada de dinheiro para os voluntários gastarem; metade deles foi instruída a gastar consigo mesmo e a outra a gastar com outras pessoas. Os que gastaram com outros avaliaram a si mesmos como sendo mais felizes do que os que gastaram com eles próprios.

As descobertas combinam com as de uma pesquisa feita com 16 pessoas da Harvard School. Elas tiveram que medir sua felicidade antes e depois de receberem bonificações em dinheiro. Mais uma vez, aqueles que gastaram com outros avaliaram a si mesmos como mais felizes do que os colegas que não dividiram a riqueza.

Não compra

Já para outros renomados economistas e psicólogos, dinheiro não é sinônimo de felicidade. O grupo coordenado pelo ganhador do Nobel Daniel Kahneman fez a seguinte pergunta na revista “Science”: “Você seria mais feliz se fosse mais rico?”.

A resposta dada pela maioria dos leitores da revista foi não. Para eles, é apenas uma ilusão a de que riqueza traz a felicidade. Segundo os autores, os aumentos na renda têm um efeito relativamente breve na satisfação de vida. Os estudos psicológicos mostram também que, quanto mais ricas as pessoas são mais intensas as emoções negativas que elas sofrem.

Além disso, quando uma pessoa passa a ganhar mais, geralmente, passa a gastar mais e a ter menos tempo de lazer. Para os pesquisadores, acreditar na ilusão de que o dinheiro o faz feliz pode levar a um efeito colateral inesperado: sua vida piorar.

Na opinião do especialista em finanças pessoais Marcos Crivelaro, o ideal é manter o equilíbrio entre o consumismo e a economia. “Para você ter uma relação boa e duradoura com o dinheiro é necessário buscar um meio-termo, nem ser muito pão-duro nem muito gastador. As pessoas têm que ter em mente que só o dinheiro não traz felicidade, mas ele pode ajudar. Por isso, é preciso usá-lo de forma que você construa, principalmente, boas amizades”.

Gasto menor melhora humor e relações

Antes eu era completamente desorganizado em relação a dinheiro. Chegava a gastar 30% a mais do que ganhava. Depois das aulas estou conseguindo economizar 40% do meu salário. Meu humor está melhor, meu relacionamento com as pessoas também, minha produtividade no trabalho é maior, e a agora durmo tranqüilo todas as noites. Sem dúvida sou mais feliz”. É o que revela o especialista de crédito Cristiano Correia. Ele participou de um curso de educação financeira promovido pela Dacasa, empresa onde trabalha. De acordo com a financeira, depois das aulas, 90%dos empregados sanaram suas dívidas.

Análise
Equilíbrio entre o Ser e o Ter é o caminho
Angelita Corrêa Scardua – Psicóloga especialista em felicidade

Em2006, a ONG inglesa The New Economics Foundation divulgou uma pesquisa com o ranking das nações mais felizes. O resultado foi surpreendente. Os americanos ocuparam um modestíssimo 150º lugar na classificação. Os brasileiros apareceram no 63º posto. Vanuatu, um pequeno arquipélago do Pacífico Sul, foi agraciado com o primeiro lugar na lista!

Vanuatu é um país pobre, que depende basicamente da agricultura de subsistência. Entretanto, seria precipitado defender a idéia de que a pobreza de seus habitantes favorece a felicidade. Pesquisas mostram que onde há grande desigualdade social, como no Brasil e nos EUA, a expectativa de vida dos mais pobres, comparada com a dos mais ricos, é menor.

Com isso, do ponto de vista psicológico, a confiança dos mais carentes no futuro torna-se frágil e o desamparo se instala, abrindo caminho para o estresse e inibindo a experiência de felicidade.

Tanto é que, nos países altamente desenvolvidos – onde a maioria das pessoas já têm suas necessidades materiais atendidas – um pequeno aumento do bem-estar econômico não eleva o nível de bem-estar subjetivo. Ao contrário, em países menos desenvolvidos, onde falta o básico, qualquer ínfimo aumento na renda pode significar maior satisfação com a vida.

Contudo, qualquer relação entre dinheiro e felicidade é temporária, já que as pessoas se adaptam muito rapidamente às melhoras financeiras. A posse de bens materiais pode gerar conforto, contentamento e prazer momentâneo e, em casos mais sólidos, sensação de segurança e estabilidade. Tudo isso faria de qualquer animal um ser plenamente satisfeito, mas ser um humano feliz exige bem mais.

Planeje-se

1 Padrão de vida

As pessoas acostumam-se rápido com a aquisição de novos bens. Depois de alguns meses, a casa nova já perdeu a graça e o carro novo parece velho. Isso gera uma profunda angústia, que só será sanada se novas aquisições forem feitas. Quanto mais se tem, mais se quer. Mudar essa situação é difícil porque o processo de adaptação é inerente ao ser humano. Tentar retardar isso também não é uma das coisas mais simples.Uma possível solução é não gastar tanto dinheiro em bens de valor tão alto. Por isso, você deve mudar o padrão de vida e calcular o efeito da adaptação ao longo do tempo.

2 Comparação social

Não há como negar: as pessoas têm uma tendência a se comparar com os vizinhos,principalmente com os mais ricos. Alguém que mudou de bairro quer se comparar com as pessoas que estão melhor socialmente. E, normalmente,essas comparações são feitas com quem tem mais dinheiro, o que pode gerar insatisfação e angústia. Os professores ensinam que neste caso é preciso mudar o foco da comparação. Por que não comparar outros aspectos? Por exemplo, com alguém que entenda mais de vinhos ou de filmes. Por que comparar apenas o seu padrão de consumo?

3 Supérfluos

Quando as forças da adaptação e da comparação social se unem, elas podem dar lugar a uma profunda insatisfação social. Esse fenômeno é observado no mundo todo por meio de estudos de medição da felicidade. Os habitantes dos países ricos são, na média, mais felizes do que os de países pobres. A ascensão econômica deles já foi realizada e o padrão de vida das pessoas é muito semelhante. Já nos países em desenvolvimento o progresso é necessário para solucionar a fome, a doença e os problemas de adaptação social. E as diferenças sociais estimulam o consumo e abusca por mais dinheiro.

4 Aumento de salário

Estudos mostram que nos países ricos, como Japão e Estados Unidos, o aumento de renda por si só não garante mais felicidade. A partir de um certo nível de renda, por exemplo, 15.000 dólares por mês, mesmo que se ganhe mais dinheiro, isso não trará mais felicidade. Essa tendência é explicada porque a sensação de felicidade depende também da estrutura genética,das relações familiares, da comunidade, dos amigos, da saúde, do trabalho, da religião e espiritualidade. Para sermos felizes,deveríamos dar valor aos bens básicos. Não desejar apenas ganhar mais.

Imagem: “Abundância” (detalhe) por Dawn Sutherland, em 1x.com


3 comentários sobre ““Nem pão-duro nem gastador: equilíbrio é o que traz bem-estar”

  1. Bom, depende do que você vai fazer com ele…Rs! Particularmente, Franci, eu adoro dinheiro e, realmente, acho que quanto mais, melhor! Mas parto do princípio que a função do dinheiro é promover conforto, agilidade nos deslocamentos e na satisfação de necessidades materiais, e alguma segurança quanto à nossa sobrevivência na manhã seguinte. Ou seja, dinheiro é igual a bem-estar objetivo(leia-se material), e só!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s