A Experiência Religiosa e a Vivência de Felicidade

Quando recorremos à psicologia para tentarmos explicar a experiência humana como um fenômeno integral – isto é, interpretar a condição humana como uma confluência de eventos subjetivos e objetivos –, é possível pensar que os recursos cognitivos que desenvolvemos para interpretar o mundo externo e a nós mesmos são, em parte, resultado da projeção de conteúdos internos da nossa psiquê. Isto porque, ao projetarmos aspectos internos e inconscientes (basicamente afetivos), no mundo externo, criamos maneiras de elaborarmos as experiências que transcendem a nossa capacidade de análise e compreensão consciente. Essa elaboração, ao expandir a capacidade de assimilação e vivência da experiência, nos possibilita sentir a vida como significativa.

Atribuir significado à vida implica, em certa medida, encontrar formas de lidar com a ansiedade gerada por nossa dificuldade de enfrentar os desafios oferecidos pelo mundo externo. Tentar entender e explicar a experiência humana tem requerido de nossa espécie um enorme esforço emocional e intelectual. Psicologicamente falando, o desconhecido sempre oferece desafios para a nossa estabilidade emocional, e, por isso, sempre tentamos desenvolver formas de acesso/entendimento/controle daquilo que não conhecemos. De acordo com o desenvolvimento da capacidade intelectual e dos recursos técnicos para a inserção humana no mundo, vamos criando novos e diferentes mecanismos explicativos da realidade.

A religião, a filosofia, a arte, a ciência seriam, portanto, alguns desses mecanismo explicativos que favorecem a adaptação humana ao mundo. Assim é porque possibilitam interpretar o desconhecido. A questão é que, as mentes que criam a religião não são as mesmas que criam a ciência. A criação e a adoção de cada um desses mecanismos explicativos da realidade depende, em grande parte, de um contexto cognitivo específico. Ou seja, de condições objetivas e subjetivas que possibilitem uma interpretação do mundo mais pautada num ou noutro aspecto da experiência. É por isso que podemos dizes que tais mecanismos pertencem ao campo do Imaginário, não por ser uma fantasia, mas, por expressarem um conjunto de visões – conceitos – sobre o que é a vida e o mundo.

É claro que tais mecanismos possuem diferenças substanciais quanto a sua estruturação e função. O que há em comum entre eles é que, os recursos cognitivos utilizados na produção Imaginária pertencem tanto ao campo da abstração intelectual quanto ao da vivência sensorial. Afinal, a origem de todo o pensamento humano é o mundo que vivenciamos por meio dos nossos sentidos. Por mais arrojado e abstrato que seja um conceito desenvolvido por um ser humano, em algum aspecto ele etrá um referencial na experiência sensorial.

A experiência sensorial pode ser o ponto focal na produção de uma explicação/interpretação do mundo, é o que ocorre, por exemplo, na Arte. A arte, porém, não existe sem a capacidade humana de abstrair formas, sons, etc. A abstração, o destrinchar lógico e racionalista da experiência sensorial, é a ferramenta da filosofia, e, numa certa medida, também da ciência. A diferença entre a ciência e a filosofia, é que esta se fundamenta na percepção individual do fenômeno, ao passo que a busca científica do saber procura restringir ao máximo o personalismo. A busca de explicações generalistas, que excluam as interpretações pessoais, também é usada pela religião. Mas, diferentemente da ciência, que recorre ao questionamento da explicação estabelecida e à comprovação dos fatos para encontrar explicações, a religião privilegia a interpretação já instituída.

O privilégio dado às interpretações instituídas pela religião suscita a desconfiança da ciência, e vice-versa. Em razão disso, durante muito tempo a ciência negou-se a estudar os efeitos da experiência religiosa na vida humana. Mas, se o propósito da ciência é questionar, para compreender/desvendar/iluminar, não faria sentido recusar-se a investigar algo que é tão dominante na cultura humana. Os primeiros cientistas a se interessarem pelo estudo da religião foram os de formação humanística: antropólogos, psicólogos, etc. Mais recentemente, biólogos, físicos, químicos também têm demonstrado interesse nesses estudos. Essa mudança deve-se, principalmente, aos avanços das neurociências que têm ajudado a compreender melhor os efeitos da experiência religiosa sobre a relação mente-corpo.

O que se percebe, até o presente momento, é que a experiência religiosa, como recurso adaptativo, parece desempenhar um papel relevante na manutenção da saúde mental. Não é, exatamente, o papel transcendental defendido pelos religiosos. O que a ciência tem descoberto sobre a importância da experiência religiosa é muito mais da ordem do bem-estar subjetivo, em especial frente aos problemas do mundo concreto que tendem a gerar sentimentos como a impotência, o medo, etc. É o caso do enfrentamento da morte, por exemplo.

As pesquisas na área de Psicologia Positiva e das neurociências têm apontado que o envolvimento com algum tipo de fé, que não inclui necessariamente a vinculação com uma organização religiosa formal, tem aparecido como prognosticador de felicidade, bem-estar subjetivo, relaxamento e gerenciamento adequado do stress, em vários estudos sobre o tema. A análise de dados, obtidos em diversos locais do planeta, aponta para o fato de que os sujeitos que se reconhecem como felizes apresentam maior envolvimento com a parcela da vida atribuída à busca de sentido espiritual. Independentemente da vertente religiosa à qual o sujeito se sente afiliado.

Contudo, se por um lado, uma ênfase no aspecto espiritual da vida pode parecer prognosticadora de felicidade, por outro, essa mesma ênfase não garante a uma pessoa uma vida feliz. O que os estudos sobre felicidade têm demonstrado é que ter uma “vida espiritual ativa” – que se expresse nas práticas cotidianas, numa ética positiva, e não apenas nos ritos pré-definidos dogmaticamente – aparece como elemento facilitador da vivência de felicidade. Similarmente, na ausência de felicidade, uma “vida espiritual ativa”, parece funcionar como alívio para uma vida não satisfatória e como fonte de esperança num futuro melhor. Tanto é que os resultados pesquisados demonstram que pessoas religiosas sofrem menos de depressão, cometem menos suicido, são menos ansiosas e lidam melhor com os momentos de crise como o desemprego, o divórcio, etc…

… Mas, é importante alertar aos religiosos de plantão – antes que se comece a alegar que a ciência provou que a felicidade depende da religião – que a correlação vida religiosa-felicidade é mais complexa do que parece. Os resultados encontrados nas pesquisas acabaram por gerar novas indagações – que é como deve ser na ciência: melhor dizendo, ainda não está muito claro se é a fé em si ou se é o fato de sentir-se parte de um grupo coeso – que compartilha os mesmos valores e crenças – que faz com que as pessoas religiosas apresentem essas características. Tanto é que, curiosamente, ateístas e agnósticos engajados em causas coletivas como movimentos ecológicos ou civis, ou envolvidos com um corpo de valores como o humanismo ou o ceticismo científico, usufruem de benefícios similares àqueles das pessoas religiosas. Pessoalmente, acredito que o link com a felicidade diz respeito à fé, no seu sentido mais semântico e menos cultural, e não à religiosidade em si.

Fé, no dicionário, também é sinônimo de crença e confiança, ou seja, de acreditar que é possível: seja mudar o mundo, salvar o planeta, construir um futuro melhor ou ser uma pessoa mais digna. E acreditar no melhor, e na própria capacidade de ser parte disso, não é particularidade de nenhuma construção Imaginária humana em especial, mas de um impulso natural da espécie para buscar a melhora.

Imagem: Nikola Banicevic, em 1x.com


4 comentários sobre “A Experiência Religiosa e a Vivência de Felicidade

  1. Olá Angelita

    os sujeitos que se reconhecem como felizes apresentam maior envolvimento com a parcela da vida atribuída à busca de sentido espiritual

    Então sou uma exceção.

    Acho que não temos uma “necessidade inata” de uma “vida espiritual ativa”. Penso que é mais provável que as pessoas sejam sugestionadas a pensar que é assim e para se considerar felizes quando nesse caminho. Em outras palavras, é bem possível que as pessoas sejam levadas a acreditar que têm necessidade de tais coisas.
    Seria interessante a seguinte experiência: será que uma criança que não tivesse qualquer contato com adultos desenvolveria sozinha tais conceitos? Sentiria necessidade de uma “vida espiritual ativa” para se considerar feliz?

    um abraço feliz

  2. Olá amigo cretaciano,

    agradeço a visita e o comentário. Mas, não vejo você como uma exceção, não pelo que você diz no seu comentário. Se você voltar ao texto, verá que eu deixo claro que a fé, independentemente, de vinculação dogmática, é o elemento associado à vivência de felicidade. E fé, você há de convir, não é uma premissa exclusiva do comportamento religioso, mas da experiência humana de forma amplificada. Também verá, que a idéia de sentido espiritual não é, por si só, religiosa/dogmática mas diz respeito a um posicionamento ético, a um modus operandi diante dos desafios, físicos e emocionais, da vida. Além disso, a religião no texto é tratada como elemento integrante do Imaginário Humano, junto a Arte, a Ciência, o Mito, etc. Talvez, meu caro reptiliano, a questão seja a visão engessada que temos da experiência humana, buscando separar os nossos feitos em objetivos e subjetivos, concretos e abstratos, físicos e mentais…e por aí vai. Quanto mais avançamos nos estudos científicos sobre a condição humana, mais claro nos parece que a percepção que temos do mundo é uma construção das nossas mentes, e que estas são moldadas pela experiência, não importando se o resultado nos parece mais ou menos racional. Quanto às crianças…bom, a mente mágica é característica inerente ao pensamento infantil, o processo de desenvolvimento cognitivo/emocional/físico leva, naturalmente, à superação da visão “sobrenatural” do mundo pela mente infantil. Contudo, não suprime a capacidade de criar, delirar, etc. E ai de nós, se o fizesse! Se o processo de desenvolvimento humano nos retirasse a capacidade/habilidade de imaginar, estaríamos todos habitando as cavernas ainda hoje. Nesse sentido, o contato com os adultos não seria uma influência determinante na existência ou não de visões “espirituais” pela criança, isso porquê tal condição é constitutiva da mente infantil. Mas, sim, claro, há influência decisiva dos adultos na forma como essas visões são interpretadas e analisadas, aceitas ou rejeitadas. Contudo, até que ponto seria melhor, ou pior, enquadrar uma criança numa visão cética do mundo? A quem isso traria satisfação? provavelmente àqueles que são céticos! Não importa para onde direcionemos a vela do barco, nosso objetivo, no nível individual e coletivo, é fazer prevalecer o caminho que percebemos como melhor. Às crianças, como a todos os filhotes, resta confiar na sabedoria dos adultos. Esse é o daimon dos mamíferos que nascem incapazes de prover a própria subsistência por longos períodos de tempo. Culpe, então, a natureza!

  3. Olá!

    o tema religioso sempre é polêmico. De modo a colocar mais lenha na fogueira, sugiro assistirem o seguinte documentario:

    http://video.google.com/videoplay?docid=-2282183016528882906

    Zeitgeist o filme

    reservem 2 horas para assistirem, pois essa é a sua duraçao. Aqueles que são muito religiosos, por favor, sejam tolerantes pois esse documentário apresenta uma interpretação da religião, principalmente a Cristã, que tira um pouco a sua originalidade e que leva você a um pensamento critico profundo que testa as bases da sua fé. Os céticos vão adorar, pois traz vários argumentos que reforçam suas causas.

    Também é recheado de Teoria da conspiração. Vale a pena ver, mesmo se nem 50% do que for apresentado for verdade, acho bom porque desperta muito bem o pensamento crítico. Mas se for, cuidado para nao ficar paranóico.

    Abraços felizes

    Erico e Ana

  4. Olá Erico e Ana,

    sim! Religião é sempre um assunto polêmico, e isso porque é, essencialmente, uma questão emocional/afetiva, uma questão de (não)fé. Qualquer posicionamento que tomamos quando o assunto é religião, é um posicionamento pouco racional…Mas, afinal, é isso que faz da religião um assunto tão atraente, não é mesmo?!

    Já vi o Zeitgeist. É interessante mas, é claro, com ressalvas! Como vocês apontam: é para ser visto criticamente. Seja como for, vale à pena vê-lo. No mais, valeu a dica.

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