Cada um no seu lugar: pai tem que ser pai e não o melhor amigo do filho

Por Cida Alves

Jornal A Gazeta/ES – 12/08/2007

Semanas antes do Dia dos Pais, as lojas colocam nas ruas as propagandas que apelam para a figura do paizão amigo. Ele veste as mesmas roupas do filho, ouve as mesmas música, sai para os mesmo lugares. Mas, na realidade, para ser um bom pai, é preciso fugir desse exemplo do mundo da fantasia.

“Pai é pai, amigo é amigo. Amigos a gente encontra fora de casa. Pai não. E se a gente não tem um pai dentro de casa, onde mais vamos ter?”, analisa a psicóloga e mestre em Psicologia Social pela USP, Angelita Corrêa Scárdua.

O problema está nos pais que querem ser modernos e ficam perdidos na hora de fazer valer a autoridade paterna. “O amigo não cobra, não exige. O pai precisa fazer isso”, explica Angelita. “O pai que bebe com o filho no bar e sai com ele de carro, como um amigo, está sendo um péssimo exemplo”.

Tentar forçar uma relação de cumplicidade igual à que os filhos têm com os melhores amigos é outro escorregão. Segundo a psicóloga, se tornar adulto é ter um universo particular. “Esse universo nos desafia emocionalmente e precisamos aprender a gerenciá-lo sozinhos”. Claro que os pais devem ter um diálogo aberto com os filhos e orientá-los, mas sem fazer de cada conversa um confessionário.

“Há quem se sinta inseguro com estas exigências e se pergunte qual pai deve ser, afinal. Ser um ‘pai durão’ parece incompatível com o ‘paizão amigo’, mas não é”, tranqüiliza a terapeuta familiar Maria Aparecida Crepaldi, que estudou a participação do pai nas famílias modernas.

Segundo ela, ambos os tipos de pai são necessários e muito bem-vindos para os filhos. O “pai durão” não precisa ser autoritário, mas deve preservar sua autoridade, porque as crianças precisam de limites para aprender a conviver socialmente.

“Não precisa ser um limite coercitivo e violento, mas consistente. Mesmos as crianças muito pequenas estão abertas e são capazes de, à sua maneira, ter uma boa conversa”.

O “paizão amigo” é aquele que brinca e que está presente nas horas que o filho precisa de apoio e incentivo. Estudos mostram que a brincadeira com o pai ajuda na modulação da agressividade da criança e na abertura do filho para o mundo, diz Aparecida.

Homem cada vez mais participativo na vida da família

As mudanças no universo feminino foram o ponto de partida para uma maior participação dos homens na vida dos filhos. Antes empenhados em colocar dinheiro dentro de casa e econômicos no carinho com os herdeiros, eles agora têm se mostrado atuantes na educação das crianças.

“Ao longo da história os homens não foram incluídos nos cuidados dos filhos. Aliás, isto era muito mal-visto pela sociedade em geral, que chamava de ‘maricas’ aquele pai mais participativo”, explica a psicóloga Maria Aparecida Crepaldi, terapeuta familiar do Instituto de Terapia Familiar de São Paulo (ITF) e professora doutora da Universidade Federal de Santa Catarina.

Mas a inclusão das mulheres no mercado de trabalho tem mudado essa situação. Segundo a psicóloga, os pais passaram a ser requisitados para dividir a tarefa de cuidar dos filhos. Isso porque a participação das mulheres no sustento da casa se tornou imprescindível, e ela agora tem que trabalhar.

A figura masculina que sempre foi cobrada pelo sustento da casa, dos filhos e da esposa, além de ser lembrado como o protagonista da disciplina, ainda permanece no imaginário social, mas na prática, as coisas têm mudado, afirma Maria Aparecida.

“Temos observado que o homem começa a reivindicar maior contato direto com os filhos, pois se beneficia com isto recebendo carinho e reconhecimento”, disse a psicóloga. Segundo a especialista, o famoso “espera o seu pai chegar…”, como forma de amedrontar os filhos mais sapecas, tem perdido a função.

Mesmo que forçado pela necessidade, o homem está aprendendo a compartilhar, e tem se mostrado disponível a assumir a responsabilidade tanto pelos cuidados dos filhos quanto pelos afazeres domésticos. “Não deve haver uma inversão dos papéis do homem e da mulher. Mas a tendência é que tudo seja dividido entre o casal nas famílias do futuro”, aposta a psicóloga Adriana Pessoa.

Fala, pai!

Durão na medida certa
Orlando Francisco do Nascimento Filho
57 anos, terapeuta oriental

Tive um pai muito durão e não queria repetir esse tipo de educação com os meus filhos. Quando faziam algo errado eu não batia, mas explicava porque o que eles haviam feito era errado. Tanto que um dia cheguei em casa e eles estavam sentadinhos no sofá. Perguntei o que eles estavam fazendo, e disseram que tinham se colocado de castigo porque haviam quebrado um objeto da casa. Tornei-me uma referência para eles, que hoje estão crescidos e tocando suas vidas.

Psicologia para entender os filhos

Preparação. Funcionário da Caixa Econômica, Carlos Laranja, 40 anos, acaba de se formar em Psicologia. A opção por mais um curso universitário não foi por vocação, mas uma preparação para quando os filhos Vitor, 14 anos, e Arthur, 10, chegarem à adolescência. “Estudar psicologia devia ser pré-requisito para os pais. Mesmo assim ainda tenho algumas dúvidas”. Uma delas é se deve limitar o tempo dos filhos no computador. Paizão assumido, Carlos também ajuda na criação da sobrinha Narjara, de 18 anos.

Decisões conversadas em família

Firmeza. O empresário Carlos Humberto de Matos, 47 anos, garante que nunca houve situação em que não soube como agir com os filhos. O segredo está em tomar uma decisão em família. “Converso sempre com a minha mulher e também com os meus filhos. Numa decisão em conjunto as chances de errar são menores”, ensina. O diálogo, que é a base da educação na família de Carlos Humberto, é mais constante com a filha caçula, Thaiza, 17 anos. “Como ela me enfrenta, a gente acaba tendo que conversar mais”, conta o empresário. Ele afirma que é amigo dos filhos, mas que isso não o impede de dosar bem as liberdades e responsabilidades de cada um. “Antes os pais só davam ordens. Hoje os filhos têm muita informação, o que facilita a comunicação”.

6 dicas para ser um bom pai

1 Pai é pai, amigo é amigo. Não adianta querer vestir as mesmas roupas, ouvir as mesmas músicas e freqüentar os mesmo lugares que seu filho. Pai deve ser companheiro, mas precisa dar exemplo, saber orientar os filhos e apontar os erros deles

2 Saiba dizer “não” quando necessário. O jovem que não tem limites não sabe as conseqüências dos atos que comete. E também não aprende a tomar decisões sozinho

3 Não faça proibições gratuitas. Também não vale disparar um “não” a cada pedido do seu filho. Quando proibir algo, explique as suas razões

4 Ouça os filhos. Muito pais reclamam que não entendem os filhos, mas nunca pararam para ouvir os que as crianças e jovens têm a dizer

5 Consiga tempo para os filhos. E dedique esse tempo só para eles, por maior que seja a correria. Não tente compensar a falta de tempo com bens materiais

6 Não force cumplicidades. Todo mundo que já passou pela adolescência sabe que há coisas que só contamos para os amigos. O que faz a pessoa amadurecer é ter um mundo particular e privado. O diálogo entre pais e filhos deve ser aberto, mas não precisa ser um confessionário

Fonte:Angelita Corrêa Scárdua, psicóloga e mestre em Psicologia Social pela USP

Imagem: “Recém-nascido” por Christopher Scott, em 1x.com

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