Eles fazem a diferença atuando pelo bem comum

Por Claudia Feliz

Jornal A Gazeta/ES – 21/09/2008

Muita gente, diante de tanta violência, numa sociedade que estimula o individualismo, só pensa em salvar a própria pele. Mas, felizmente, há quem fuja a essa regra. Gente que se coloca a serviço dos outros, atuando em projetos de organizações não-governamentais ou, até mesmo, em órgãos públicos, mas indo além do que a função determina.

É o caso, por exemplo, do policial federal Expedito Jorge Tavares, que depois da aposentadoria voltou para a PF, onde atua na prevenção ao uso e ao abuso das drogas.

Morador de um dos bairros mais carentes da Serra, Vila Nova de Colares, Evander Venturin também partiu para uma luta cidadã, criando uma ONG que ajuda crianças, jovens e adultos a mudarem suas histórias de vida.

Há sete ano, certo de que também precisava agir, Vilson Venturi criou o Movimento Paz Espírito Santo, que realiza a Feira da Paz em Vitória.

Com apenas 18 anos, Samira Cerqueira também integra o grupo dos que se negam a pensar só em si mesmos. É voluntária do Projeto Vida Urgente, que trabalha para evitar que jovens, principalmente, morram em acidentes de trânsito.

Felicidade

A psicóloga Angelita Corrêa Scardua afirma que o trabalho voluntário é característico de pessoas felizes. “De certa maneira, quem atua no voluntariado é alguém que abre mão de levar vantagem, que percebe que sua ação pode promover a diferença, gerando uma reação em cadeia”, diz a psicóloga.

Para Angelita Scardua, a violência cotidiana é a base de todas as violências. E ela ressalta o fato de, em geral, as pessoas enxergarem e criticarem o mundo violento, mas não se sentirem parte desse mundo. “A violência no trânsito, nas filas, a falta de cordialidade, de gentileza, são fruto de nossas ações cotidianas, e minam os recursos internos que dispomos para enfrentar a grande violência”, diz Angelita Scardua.

Ela garante que os países que despontam no mundo como os mais bem-posicionados em qualidade de vida são aqueles onde as pessoas confiam nas leis, e as cumprem, sentindo-se também responsáveis pelo funcionamento da sociedade em que vivem.

“A gente tem que olhar em volta”

Ela tem apenas 18 anos. Na sua idade, a maioria das garotas estão muito mais preocupada consigo mesmas, muito mais ligadas nos prazeres da vida. Mas Samira Medeiros Cerqueira é diferente. Não que a garota deixe de se divertir, mas, estudante de Direito, desde fevereiro ela integra o grupo de voluntários do Projeto Vida Urgente, uma parceria do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) com a ONG Thiago Gonzaga, do Rio Grande do Sul, que desenvolve um conjunto de ações que objetivam reduzir os acidentes de trânsito, principalmente os que envolvem jovens. Samira Cerqueira faz abordagens nas baladas e nas praias, conscientizando os freqüentadores, jovens como ela, que álcool e direção, por exemplo, não combinam, e que excesso de velocidade põe em risco a vida das pessoas. “Nunca fui alienada, sempre me preocupei com o outro. Já participei como voluntária, à noite, na alfabetização de jovens e adultos, quando ainda estava no ensino médio. A gente tem que olhar em volta, e ver como pode contribuir para mudar a realidade. Sabe, me conforta saber que faço um trabalho pela valorização da vida”, diz ela.

“Também somos responsáveis”

Diante de um quadro de crescimento da violência, e de descontrole social, o capitão-tenente aposentado da Marinha do Brasil, Vilson Venturi, 57 anos, decidiu que não ficaria naquela zona de conforto na qual muita permanece. Tinha que fazer algo em favor do coletivo. Foi assim que, junto com mais três pessoas, Venturi criou o Movimento Paz Espírito Santo. Neste ano, realizou a quinta edição da Feira da Paz, em Vitória, que reuniu quase 30 ONGs, todas empenhadas em contribuir para melhorar a sociedade em que vivemos. A estratégia, inicialmente, foi mobilizar a comunidade com caminhadas, seminários e debates. O Movimento Paz Espírito Santo é hoje uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). Venturi diz que o trabalho visa a garantir às novas gerações um espaço social diferente, a partir do resgate da dignidade de uma parcela da população. “O enfrentamento à violência não é algo que possa ser limitado apenas ao poder público. Como cidadãos, também temos responsabilidade de construir um mundo melhor”, diz o presidente do Movimento Paz.

“Nós não podemos nos conformar”

Não é por acaso que o bairro Vila Nova de Colares, na Serra, está inserido no Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci). Foi ali, onde a violência faz parte do cotidiano dos moradores, que Evander Costa Venturin, 54 anos, decidiu implantar o Projeto Vila Viva. Com a ajuda de outros voluntários, Venturin, que há sete anos foi membro do Exército da Salvação, nos Estados Unidos, assumiu o compromisso de ajudar a mudar o destino de moradores do lugar, com uma ONG que atende a cerca de 250 pessoas, a maioria crianças e adolescentes. Aulas de balé, caratê e futebol, encaminhamento para estágios e cursos profissionalizantes, são as armas que o Vila Viva utiliza, com ajuda de parceiros como a ArcellorMital. Venturim, que mora em Vila Nova de Colares há 20 anos, está certo de que é possível alterar a realidade social agindo em favor do próximo. “Nosso lugar é muito carente, falta escolaridade a muita gente, mas não podemos nos conformar, achar que não há solução para os problemas”, diz ele.

Agente federal que é anjo da guarda

Imagine a cena: um servidor público federal trabalha por 35 anos, se aposenta, e, pouco tempo depois, é convidado a voltar para o mesmo órgão. A proposta: realizar, formalmente, um trabalho que ao longo de anos ele realizou de maneira voluntária.

É essa a história de Expedito Jorge Tavares, 54 anos. Atual coordenador do Núcleo de Prevenção de Uso e Abuso de Drogas da Polícia Federal, Tavares, com freqüência, é procurado por mães aflitas e até mesmo usuários de drogas que querem se livrar do vício. Também faz palestras em escolas e condomínios. Espírita kardecista, ele trabalha como voluntário no Complexo Educacional Cristão, e está sempre pronto a ajudar. A solidariedade é um traço que carrega desde os 18 anos, quando já aconselhava colegas que abusavam da bebida a buscar o AA. “Eles me chamavam de Amigo dos AAs”, conta, sorrindo, Tavares, que estuda Psicanálise para entender melhor a dependência química.

Imagem: Ahmet Orhan, em 1x.com

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