Filhos e Orçamento: Meninas custam mais do que meninos

Por Fernanda Zandonadi

Jornal A Gazeta/ES – 25/01/2009

A diferença de gasto chega a ser 10% maior para as meninas e é crescente, a ponto de, na adolescência, os gastos com as meninas já chegarem ao dobro.

Tudo começa com um vestidinho cor-de-rosa. Depois vem o sapatinho, pulseirinha, brinquinho, um lacinho na cabeça para combinar. No caso dos meninos, na maioria das vezes, o gasto é com uma camisa, uma bermuda e pronto, acabou. Na adolescência, os agravantes: maquiagem, depilação, salão de beleza, roupas da moda para elas. Eles, na maior parte dos casos, se contentam com o famoso trio camiseta, tênis e jeans.

Segundo a consultora financeira Eliana Bussinger, os mimos a mais dispensados às meninas podem render uma conta bem salgada. “A diferença de gasto chega a ser 10% maior para as meninas e é crescente, a ponto de, na adolescência, os gastos com as meninas já chegarem ao dobro”, completa.

Uma pesquisa elaborada pela Valor Investimentos comprova a disparidade. Considerando homens e mulheres entre 12 e 24 anos, o estudo apontou que os homens gastam, em média, 63% a menos do que as mulheres.

“Elas consomem mais, embora ganhem menos no futuro. Quando chegam ao mercado de trabalho, têm salários menores do que o dos homens”, explica o sócio-diretor da Valor Investimentos, o economista Paulo Henrique da Costa Corrêa.

Para a psicóloga Angelita Corrêa Scardua, o gasto a mais com elas pode ter ligação com a forma de educar financeiramente meninos e meninas. Scardua explica que sobre os meninos cai a cobrança de sucesso financeiro. Por outro lado, das meninas é exigido sucesso emocional, casamento e filhos.

“Nossa cultura não condena, na maioria das vezes, uma mulher de 30 anos que ainda depende financeiramente dos pais. Um quadro desses com um homem é visto negativamente pela sociedade. Isso faz com que os pais incentivem nos meninos uma relação mais próxima ao dinheiro, porque é isso que o mundo espera dele”.

Outros tempos

Muitos podem pensar: os tempos mudaram. Hoje, as mulheres representam quase metade da força de trabalho e muitas delas são provedoras do lar. A psicóloga, no entanto, oferece um exemplo de que ainda há preconceito enraizado.

“Conte para seus amigos a história de um homem que é sustentado pela esposa e de uma mulher sustentada pelo marido. Na maioria das vezes a primeira história vai gerar piadinhas bem mais numerosas. Claro que nosso meio aplaude mulheres independentes, que têm um lugar no mercado. Mas em relação aos homens, isso não é visto como uma conquista, mas como uma obrigação”.

A psicóloga enfatiza ainda que o consumo de forma exagerada é incentivado nas mulheres desde muito cedo. “Desde pequenas, as meninas são bombardeadas com a ideia de que gastar dinheiro é um privilégio feminino. É uma cultura insistente, segundo a qual as mulheres devem ser presenteadas e mimadas pelos pais e maridos”.

O mercado de consumo também tem nas mulheres um alvo fácil, segundo Scardua. “Pelo menos 80% dos comerciais é dirigido ao público feminino”.

Para mudar esse quadro é preciso que os pais ensinem os filhos (e filhas) a lidar com dinheiro de forma responsável.

“Os pais precisam acreditar no que ensinam às crianças. A medida da diferença da educação de meninos e de meninas estará relacionada ao que os pais acreditam ser o papel do homem e da mulher. Se eles acham que bancar a casa é uma posição masculina, as meninas vão crescer com a concepção de que o papel dela é apenas consumir”.

Falar de finanças faz parte da rotina da família

A arquiteta Sara Moreira Ramos e o engenheiro civil André Luiz Dan Ramos são pais de Pedro, de 15 anos e Ana Luiza, 13 anos. Sara afirma que utiliza situações da rotina para ensinar aos dois filhos conceitos de educação financeira. “Demos um violão para o Pedro. Depois que ele fez as aulas, queria uma guitarra. Conversamos e o incentivamos a economizar a fim de comprar o que queria. Ele guardou o dinheiro que ganhou de tios e avós no aniversário e conseguiu comprar a guitarra”.

Entenda quanto elas custam a mais nos cálculos feitos pela Valor Investimentos

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63% a menos do que as mulheres
A pesquisa desenvolvida pela Valor Investimentos mostrou que os homens gastam 63% a menos do que as mulheres. Para chegar a esse número, foi levado em conta o consumo de homens e mulheres compreendendo idades entre 12 e 24 anos, portanto, é uma média do intervalo de 11 anos. O público enfocado foi o de classe média e média alta.

83% cosméticos
Elas gastam R$ 600,00 anuais; eles, R$ 100,00 – homens gastam 83% a menos

62,5%higiene
Elas gastam R$ 960,00 anuais; eles, R$ 360,00 ? homens gastam 62,5% a menos

100% tênis
Elas gastam R$ 150,00 anuais; eles, R$ 300,00, o dobro.

R$ 350 de salão de beleza
Um exemplo é o custo do salão de beleza. Foram considerados casos em que as mulheres procuram o serviço todas as semanas. O valor mensal ficaria em torno de R$ 350,00. São R$ 4,2 mil anuais para elas. O gasto dos homens, na maior parte dos casos, é mínimo

33% jóias
Elas gastam R$ 720,00 anuais; eles, R$ 480,00, 33% a menos do que mulheres

20% eletrônicos
No caso dos eletrônicos, elas gastam R$ 800,00 anuais; eles, R$ 1 mil (20% a mais)

70% vestuário
Elas gastam R$ 2,4 mil anuais; eles, R$ 720,00, exatos 70% a menos do que mulheres

42% óculos
Elas gastam R$ 700,00 anuais; eles, R$ 400,00 ? gastam 42% a menos do que mulheres

91% calçados em geral
Elas gastam R$ 1,2 mil anuais; eles, R$ 100,00 ? homens gastam 91% a menos

No fim das contas…
Mulheres consomem R$ 13.080 anuais com os itens citados. Os homens, R$ 4.760.

Imagem: “Boneca” por Bonita, em 1x.com

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