Mãe, me dá uma plástica de presente?

Por Paula Stange

Jornal A Gazeta/ES – 03/08/2008

Roupa, mochila, laptop, quem sabe uma viagem? Nada disso. A estudante B. pediu aos pais próteses de silicone. “Sempre achei meus seios pequenos demais. Fiquei um ano insistindo para eles me deixarem operar”, conta a jovem, que adquiriu o decote turbinado há seis meses, quando ainda tinha 17 anos.

Não se assuste se sua filha disser que pretende trocar a festa de debutante por uma lipo. Cada vez mais adolescentes querem ganhar uma plástica de presente. Eles representaram, em 2006, 15% das cerca de 700 mil cirurgias desse tipo realizadas no país.

O presentinho não sai barato. Um implante do silicone, por exemplo, não custa menos de R$ 5 mil. Mas os pais parecem pagar sem a menor dor no bolso e na consciência. Para os psicólogos, no entanto, eles deveriam resistir a esses apelos da moçada.

Em nome da vaidade

“É preciso sustentar o não”, defende a psicóloga e psicanalista Darlene Viana Gaudio. Ela não se refere às cirurgias reparadoras, mas sim àquelas feitas apenas em nome da vaidade. A culpa, diz, não é dos adolescentes, para quem uma espinha na testa vira motivo de crise existencial. Às voltas com as confusões típicas da idade, eles são alvo fácil da pressão da sociedade por um padrão estético severo.

“A ênfase nos estereótipos, nos modelos de beleza pré-definidos pela sociedade, alimenta a insegurança emocional que define esse momento da vida de todo adolescente”, completa a psicóloga Angelita Correa Scardua.

No entanto, é tarefa dos pais mostrar que, embora a moda dite seios grandes e barriga lisinha, entrar no bisturi não é a solução. E avaliar até que ponto o desejo de mudar o próprio corpo de forma tão radical pode esconder outros problemas do filho, sobretudo emocionais.

“O adolescente precisa entender que uma plástica nunca o deixará plenamente satisfeito. Os pais devem ser firmes e não permitir as chantagens e seduções”, reitera a hebiatra Ana Maria Ramos.

Darlene Gaudio acredita que o comportamento dos pais, que muitas vezes não suportam o próprio envelhecimento, faça com que acabem cedendo. “Eles próprios não se aceitam”, analisa.

O ideal, aponta, é ensinar os filhos a lidar com a insegurança e com a diferença e a suportar as possíveis rejeições que eles possam vir a sofrer na sociedade. “É importante aceitar a possibilidade de a sua imagem não agradar a todo mundo, porque, de fato, isso nunca é unânime”.

“Ser capaz de aceitar as próprias limitações é um sinal de auto-estima positiva e condição essencial para a transformação”

Angelita Scardua Psicóloga

Mais confiantes com novo decote

Quando completou 17 anos, B. ganhou aquele que sempre foi seu maior sonho de consumo: um belo par de seios. Ela passou praticamente toda a adolescência convencendo os pais a deixarem-na colocar um implante de silicone.

“Sempre quis ter seios maiores. Não era complexada. Fiz por vaidade mesmo”, diz a moça, que acaba de atingir a maioridade. B. garante que a cirurgia mudou não só o volume do decote, mas também sua vida. “As pessoas me elogiam mais. Estou mais confiante”.

A mãe dela também está satisfeita com o resultado da plástica na filha e não acha que o desejo de aumentar os seios seja por modismo. “Ela pedia para colocar silicone desde os 13 anos. Conseguimos adiar por um tempo, mas depois achamos por bem satisfazer a vontade dela. A gente se cercou de cuidados. Achei que ficou ótimo, bem natural”, comenta.

Já a amiga de B., a estudante J., “entrou na faca” ainda mais nova, aos 16 anos. É recém-operada. “Eu tinha um seio maior do que o outro. Aquilo me incomodava”, justifica a adolescente. A mãe também não se opôs.

“Se fosse por modismo, não permitiria. Foi assim com o piercing no umbigo, que proibi. No caso dos seios, vi que havia necessidade mesmo. Procuramos um bom médico, sentimos confiança e decidimos autorizar”, afirma a auxiliar de biblioteca que admite já ter feito uma lipo.

Aumento

15% É o percentual de cirurgias realizadas em jovens de 14 a 18 anos, entre as 700 mil plásticas feitas no Brasil em 2006. Dez anos atrás, esse percentual era de 5%, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP)

Perfil

70% Dos adolescentes que se submetem a uma plástica são meninas. As cirurgias mais procuradas pelos jovens são: rinoplastia (plástica de nariz), mamoplastia redutora (diminuição das mamas), mamoplastia de aumento (prótese de silicone), lipoaspiração, correção de orelhas em abano e a ginecomastia (correção do volume das mamas masculinas)

Alerta: operação só por necessidade

Os médicos garantem que a cirurgia plástica não oferece riscos à saúde dos adolescentes. Mas qualquer intervenção desse tipo, ponderam os especialistas, só deve ser feita se há, de fato, necessidade. “A recuperação tende a ser mais rápida porque eles geralmente fazem procedimentos mais simples e têm menos chances de sofrer complicações em função de doenças e maus hábitos de vida, como álcool e cigarro”, observa o cirurgião plástico Fábio Zamprogno.

Seu colega de profissão Davi Molo ressalta que cada caso deve ser analisado individualmente, para verificar se há indicação cirúrgica. O presidente regional da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP-ES), José Renato Harb, reforça a importância da avaliação clínica com um profissional habilitado.

“Um profissional sério não vai operar uma adolescente só por uma questão de vaidade”, afirma. Davi Mollo, por exemplo, já fez uma lipoaspiração em uma paciente de 16 anos. “Ela já havia feito dieta e emagrecido muito, mas estava com um ‘pneu’ acentuado no abdômen. Era o caso de intervir”, relata.

O silicone, dizem, é indicado para meninas que têm a mama muito pequena, mesmo com o corpo já formado. “É preciso comprovar, com exames ginecológicos, que os seios não vão mais se desenvolver”, explica Davi Mollo.

A presença do pai ou da mãe na consulta é fundamental. “A adolescente não tem noção do que é uma cirurgia, se ela vai ficar com marcas. Tudo tem que ser bem esclarecido”, ressalta o cirurgião plástico José Renato Harb.

As idades mínimas

Nariz: a partir dos 15 anos

Orelha de abano: a partir dos 6 ou 7 anos

Lipoaspiração: a partir de 17 ou 18 anos

Aumento de mamas: depende de quando ocorrer a primeira menstruação, requer avaliação do crescimento ósseo e de fatores genéticos

Redução de mamas: a partir dos 16 anos

Fonte: Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP)

Cirurgia é parcelada em até 36 vezes

Hoje em dia, é possível comprar uma plástica como se compra uma geladeira ou um carro. O cliente escolhe o tipo de cirurgia e a forma de pagamento, que pode ser dividida em 12, 24 e até 36 vezes. A propaganda é explícita na internet, em sites de clínicas especializadas.

São ofertas tentadoras. Como a de uma clínica em São Paulo que garante uma operação para implante de próteses de silicone nas mamas por R$ 4,1 mil, pagos em até 36 parcelas fixas, por exemplo.

Mas a comercialização da cirurgia plástica não é bem vista pela própria classe médica. “Não se trata de uma mercadoria, que pode ser comprada e financiada”, critica o presidente atual da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP-ES), José Renato Harb.

Segundo ele, geralmente, clínicas que parcelam o procedimento em várias vezes têm convênios com financeiras. “Elas lucram em cima do médico e do paciente. O profissional que se submete a isso é antiético”, alerta ele.

O pagamento da cirurgia pode até ser negociado com o médico. “Ele pode fazer um acordo com o paciente, dividir em duas vezes. Mas isso não é rotineiro”, afirma José Renato Harb.

Na ânsia de ganhar um par de seios novos ou enxugar as gordurinhas, muita gente acaba atraído por facilidades de pagamento e caindo em mãos erradas. “Um profissional sério deve ser associado à entidade. Ele só opera se há necessidade, e não só por questão de vaidade”, ressalta o médico.

Análise

Auto-estima no lugar da cirurgia

Angelita Corrêa Scardua Psicóloga Clínica e Mestre em Psicologia Social pela USP/SP

A adolescência é uma fase caracterizada pela busca de identidade e de aceitação grupal. Portanto, mais suscetível à pressão social. Adolescentes são muito imaturos para fazer transformações corporais definitivas. Ainda não sabem quem realmente são ou podem vir a ser. Uma menina pode atribuir todas as mazelas da sua vida ao nariz que tem e achar que mudá-lo vai torná-la mais feliz. É uma expectativa muito grande em relação a uma cirurgia. Afinal, nossa felicidade depende muito mais da nossa capacidade de amarmos a nós mesmos do que da nossa aparência.

Além disso, vale lembrar que os padrões estéticos são temporais, eles mudam. Há 20 anos, o bonito era ter seios pequenos. Hoje, o feio é não ter seios grandes. As meninas que hoje imploram por uma barriga “tanquinho”, serão as mulheres que amanhã se sacrificarão por outras formas, caso o padrão de beleza mude?

Portanto, se o filho pede uma plástica, cabe aos pais questionar por que isso é tão importante para ele. Os pais devem trabalhar a auto-estima dos filhos desde a infância. Uma garota com baixa auto-estima buscará identificar-se com padrões físicos que, geralmente, não têm nada a ver com o biotipo dela. É válido lembrar que fortalecer a auto-estima de uma jovem não é fingir que está tudo bem e criar falsas expectativas. Se a filha é gordinha, pouco ajuda dizer que ela está ótima e, ao mesmo tempo, ficar elogiando o corpo da Carolina Ferraz! Tem que ser sincero e realista, sem menosprezar os sentimentos e potencialidades do seu filho.

Imagem: “Máscara” por Jennifer, em 1x.com

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