Os meninos da Rua 8 contam a história de Jardim da Penha

Por Elaine Vieira

Jornal A Gazeta/ES – 13/10/2007

 

Eles passaram a infância e a adolescência em um bairro bucólico e cheio de espaços livres para brincar, que hoje, quase 20 anos depois, não se parece em nada com o atual Jardim da Penha, em Vitória, cercado de prédios e das principais avenidas da cidade. Agora, resolveram se junta para escrever um livro, que, por meio de histórias pessoais, vai relatar o desenvolvimento de um bairro inteiro.

O grupo, que reunia cerca de 30 jovens no final da década de 1980, ficou conhecido como a Turma da Rua 8, hoje Rua Francisco Eugênio Mussielo. Em busca de aventuras, namoro e diversão, a turma andava pelas ruas com uma camisa preta onde se lia “Nepaile Oice – Rua 8”, que significa “Fiéis à 8” em tupi- guarani.

As bagunças e a atitude do grupo fechado foram suficientes para criar a fama de baderneiros, cujas histórias normalmente envolvem viaturas policiais. “Era impossível falar em Jardim da Penha sem tocar no nome de nossa rua”, destaca um dos mais entusiastas do grupo, o supervisor de atendimento Fábio Barros, mais conhecido como Piu.

Ele será o responsável por compilar as histórias, memórias individuais que irão rechear o livro, que vai destacar também a importância de se manter vínculos de amizade, mesmo que a vida leve todos para caminhos diferentes.

O tempo passou, os amigos cresceram e se mudaram até de país, mas a amizade continua regada a muito saudosismo e a novas histórias em comum que estão sendo escritas com a convivência.

Enterros . “A necessidade de voltar a reunir todo mundo surgiu quando a gente começou a se encontrar só em enterros de pessoas da turma”, lembra o cirurgião plástico José Armando, o Nainha.

Até agora, eles conseguiram juntar 25 pessoas da antiga turma, que no auge contou com mais de 50 integrantes. Nos encontros, sempre surgem histórias daquele tempo, que cada um ajuda a reconstruir de acordo com o que viveu. No fim do dia, as lembranças vão parar no e-mail de quem não pôde participar do encontro, para que todos possam dar sua contribuição.

As ruas de lama e os poucos prédios…

Caldeirão cultural. Jardim da Penha surgiu no final da década de 1960 e início de 1970, com origem em um loteamento em uma propriedade particular. Logo depois, surgiram os primeiros conjuntos habitacionais de apartamentos, como o Edifício Gemini (na foto em preto e branco), destinados à classe média baixa. A proximidade com o mar, o fácil acesso ao Centro e as melhorias na infra-estrutura do bairro atraíram mais empreendimentos imobiliários. Algumas áreas são conhecidas até por quem nunca morou lá, como a Rua da Lama, que era mesmo um lamaçal e hoje congrega o núcleo boêmio do bairro, com vários bares, restaurantes e lanchonetes. Atualmente, Jardim da Penha está quase todo ocupado por funcionários públicos, estudantes universitários e profissionais liberais, caracterizando uma população jovem e um comércio auto-suficiente.

…dão lugar ao bairro urbanizado

Casamento X amizade

Casar e ter filhos não é desculpa para abandonar os antigos amigos que continuam solteiros, destaca a psicóloga especialista em felicidade Angelita Corrêa Scárdua. Caso contrário, você corre o risco de ter seus bate-papos reduzidos aos assuntos sobre casa, relacionamento sexual e educação infantil.

“Em geral, jovens e solteiros têm mais facilidade para fazer novos amigos e de cuidar das antigas amizades. Quando casam, as pessoas tendem a valorizar somente a família e a afastar-se dos amigos”, avalia Scárdua. Para ela, esse distanciamento ocorre principalmente por causa dos ciúmes do parceiro. “Muitas mulheres, e homens também, proíbem o companheiro de sair com os amigos solteiros, porque acham que só vai rolar paquera. Mas é preciso entender que o compromisso afetivo é individual e não vai mudar quando o parceiro estiver em turma”, destaca.

A psicóloga adverte que os casais devem ser mais tolerantes com os amigos solteiros dos cônjuges. “Essa convivência com o diferente vai enriquecer ainda mais a relação a dois, além de trazer uma leveza para a relação, que terá outras válvulas de escape para o estresse do dia-a-dia.”

Reencontro via Orkut

Já pensou em procurar aquele amigo com quem você trocava confidências no ensino fundamental? A partir de um nome, sites de relacionamento, como o Orkut e o Gazzag, vêm servindo como ferramentas para que antigos amigos se reencontrem. Há inúmeras comunidades de quem estudou em tal escola ou em tal faculdade. A popularidade é tanta que cada nova turma cria a sua própria comunidade para garantir os contatos. Outra ferramenta muito utilizada nas escolas, e que serve para manter contatos posteriores, são as listas de discussão por e-mail.

Lembranças
“Tínhamos muito mais espaço para brincar naquela época. O bairro inteiro era nosso playground; e a pracinha, nosso ponto de encontro. Pelo menos nesse segundo aspecto, os jovens de hoje têm as mesmas oportunidades”

Tadeu Corrêa, vendedor de carros, 38 anos, um dos poucos da turma que não tinham apelido

“Falavam que não tínhamos futuro por causa das bagunças, mas hoje estamos todos bem e com famílias formadas. Assim como o bairro, que antes tinha um areal e lama de verdade na Rua da Lama, hoje é um dos mais urbanizados”

Rodrigo Rabello, o Cará, administrador, 36 anos

“Na nossa época, havia toque de recolher para menor de idade. Não podíamos ficar na rua depois das 23 horas, mas sempre dávamos um jeito de burlar as regras. Mas nem sempre dava certo e, de vez em quando, éramos flagrados”

Bruno Rabello, o Jacaré, publicitário, 34 anos

“Quem tem amigos é mais saudável”

Manter e reencontrar velhos amigos, como faz a Turma da Rua Oito, além de garantir boas risadas das histórias da juventude, nos dá sensação de segurança, e de que não estamos “sozinhos no mundo”. Especialista em felicidade, a psicóloga clínica e mestre em psicologia social pela Universidade de São Paulo (USP) Angelita Corrêa Scárdua destaca a importância de se manter velhos laços e também de fazer novas amizades. Além da garantia de ter alguém para conversar nos momentos difíceis, atesta ela, os amigos fazem bem à saúde e à memória.

Qual a importância de se manter velhas amizades?

Cada laço de amizade nos oferece elementos diferentes. Os amigos antigos nos dão suporte social. São aquelas pessoas em quem a gente pode confiar nos momentos difíceis. A certeza de que não estamos sozinho no mundo e de que nossa história influi na vida de alguém.

Como essas amizades influenciam nossas vidas?

Quanto mais variadas as nossas amizades, mais enriquecedor, tanto no sentido biológico como no psicológico. As amizades antigas nos dão suporte social. Por nos conhecer há muito tempo, essa pessoa vai nos deixar à vontade para desabafar. Amigos que sobrevivem ao tempo já conhecem nossos pontos positivos e negativos, não precisamos nos esforçar para agradá-los.

Mas isso pode criar uma situação cansativa…

Ao mesmo tempo em que nos aceita do que jeito que somos, esse amigo de longa data também acaba não fazendo com que mudemos alguma atitude negativa, pois ele não nos julga. Normalmente ele compartilha nossos valores e interesses, se indigna com as mesmas coisas que nós. E isso pode fazer com que não olhemos sob outro ângulo.

É aí que entram os novos amigos?

Exatamente. Amigos recentes nos oferecem a possibilidade de aprender coisas novas, de mudar velhos hábitos e formas de pensar. É como quando você, carnívoro assumido, faz um novo amigo e descobre que ele é vegetariano. Como gosta muito dele, seus preconceitos caem por terra, e você acaba até experimentando aquela comida diferente, aquela nova cultura. Os novos amigos nos propiciam experiências pelas quais nunca passaríamos sozinhos. Com a desvantagem de que não podemos contar com eles para tudo, mas para isso há as antigas amizades.

O equilíbrio é a receita, então?

O ideal é ter um monte de amigos. E estar sempre fazendo novos. A amizade está entre os fatores de que depende a nossa felicidade. Mas para garantir esse vínculo, é preciso investir nas relações. Os amigos nos colocam em contato com a diversidade. Através deles saímos do território conhecido da família para explorar outras possibilidades, outras culturas. Ao mesmo tempo, eles nos dão a confiança e o apoio necessários para essas aventuras.

E como amigos podem fazer bem à saúde?

Há várias pesquisas no exterior que destacam a influência dos amigos na saúde e na memória das pessoas. Na Universidade de Yale, constatou-se que os executivos que tinham amigos tinham 50% menos doenças do que os solitários. Em Harvard, as enfermeiras que mantinham amizades estavam bem menos propensas a adoecer.

Por que isso ocorre?

As emoções que vivemos com os amigos estimulam a produção de um hormônio chamado ocitocina, responsável por atenuar o estresse e suas complicações, como a queda na imunidade. Nas mulheres, esse efeito é ainda mais profundo – produzimos mais ocitocina, pois a testosterona dos homens inibe essa produção. Assim, ficamos mais tranqüilos e relaxados, portanto, mais saudáveis e mais bem humorados, o que favorece ainda mais a conquista de novos amigos, que vão nos ajudar a produzir mais ocitocina…

E como a amizade influi na memória?

O convívio favorece a renovação dos neurônios. Cada vez que interagimos com outra pessoa forçamos nosso cérebro a criar novas conexões e fortalecemos nossa capacidade de reflexão sobre temas diversos e até desconhecidos.

O que acontece com quem se isola?

Quem se isola tem mais tendência à depressão, que leva a um isolamento ainda maior, o que impede de construir novas amizades. Chegamos aí a um novo círculo vicioso, mas dessa vez negativo. Já foi comprovado que mulheres que têm amigas de longa data apresentam menos tendência a doenças como o Mal de Parkinson e o Alzheimer.

Angelita Corrêa Scárdua Psicóloga clínica e mestre em psicologia social pela Universidade de São Paulo (USP)

Para preservar as amizades por toda a vida

Invista

Assim como as relações entre casais, a amizade também esfria se não for cuidada com energia, dedicação e, principalmente, tempo

Fale com ele

Comece expressando seus sentimentos, diga o que lhe agrada. Assim seu amigo não vai ter que adivinhar como lidar com você, o que vai economizar várias mágoas

Perdão

Por falar em mágoa, quando o amigo faz alguma coisa que te incomoda, seja franco. Da mesma forma, não se esqueça de pedir desculpas quando perceber que pisou na bola

Clima

Se tiver algo importante e delicado para falar com seu amigo, prepare antes o terreno e veja se é um bom dia para tanta sinceridade ou se ele já não tem problemas demais

Ditado

Aquela regra que te ensinaram continua valendo, mesmo entre os amigos mais íntimos: Não faça com alguém aquilo que não gostaria que fizessem com você

Entenda

Você mudou e seus amigos também. Por isso não fique cobrando dele as mesmas atitudes do passado. Agora a realidade, e as prioridades, são outras

Imagem: “Vizinhos” por Adam Dobrovits, em 1x.com

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8 comentários sobre “Os meninos da Rua 8 contam a história de Jardim da Penha

  1. Olá, estou ajudando uma amiga a produzir um documentário sobre a rua da lama. Precisamos de fotos da referida rua e de qualquer parte do bairro Jardim da Penha.

    Caso tenha interesse em ajudar é só entrar em contato pelo email: diegoperuch@yahoo.com.br

    Desde já, muito obrigado.

    Diego Herzog Peruch

  2. Morei na rua Francisco Eugênio Mussielo até por volta do final de 1982 ou 83, quando eu tinha 8 anos de idade. Bons tempos de Jardim da Penha. Tenho várias lembranças daquele lugar! Hoje estou em Jardim Camburi.

  3. Estou fazendo um trabalho sobre os PRU’s, porém disponho de pouquíssimas informações. Caso tenham, se possivel me disponibilizem!

  4. Eu sou ruth morei na rua oito por varios anos e o mais interessante disso tudo é que tudo que fazíamos era juntos furavamo muita festas era muito bom tinhamos respeito e admiração um pelo outro até hoje nos encontros é assim se existe respeito e admiração

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