Investindo na Felicidade a Dois: Criar uma zona de segurança para conversas francas e abertas

Relações abusivas nada têm em comum com a felicidade conjugal. Uma das características mais marcantes das relações infelizes é que os parceiros – ambos ou um deles – sentem-se inseguros e/ou amedrontados demais para expressar os próprios sentimentos e opiniões. Todos nós quando ingressamos numa relação, o fazemos com diversas expectativas sobre como as coisas devem ser conduzidas. O que as pesquisas sobre felicidade conjugal têm demonstrado é que a superação de expectativas irreais sobre o casamento, e sobre o parceiro, é fundamental para uma relação mais feliz. A questão é que um casal sem habilidades para a comunicação e a negociação tende a potencializar os pontos de atrito. Assim, aquilo que poderia ser apenas um choque de realidade entre duas perspectivas diferentes, acaba por tornar-se a alavanca para uma série de desapontamentos e decepções consumadas.

Quando falamos em comunicação e negociação é comum que cada indivíduo entenda isso como: “que eu possa falar o que penso e sinto”; “que eu consiga convencer o outro do meu ponto de vista”; “que eu obtenha o que me interessa”. Resumindo, “que eu vença!”. Aí mora o perigo! Os casais felizes parecem compreender que o casamento não pode ser encarado como uma batalha na qual um perde e o outro ganha. Para aqueles que vivenciam a satisfação conjugal, o casamento parece assemelhar-se muito mais a um acordo diplomático, no qual procura-se um ponto de equilíbrio que possa, ao máximo, contentar o interesse de ambas as partes. Mas, sem ilusões ou ingenuidade. Acordos diplomáticos não são sempre suaves apenas por não serem uma solução de guerra. Discutir – defender um ponto de vista, brigar pelo que se considera importante –, é essencial numa negociação, tanto quanto numa guerra. A diferença entre a diplomacia e a guerra não são os interesses em jogo mas a forma de negociá-los. Na ausência de comunicação só resta o recurso da força bruta, que tanto pode ser física quanto psicológica. Muitos casais aprendem isso da pior forma.

A comunicação eficiente entre um casal pode levar à soluções simples e brilhantes, que contentam a ambos e cria um sentimento de cumplicidade e de responsabilidade pelo andamento da relação. Os casais felizes têm uma boa comunicação, e para consegui-la costumam seguir algumas orientações, são elas:

  1. conseguir falar/ouvir sobre o que incomoda sem deixar-se tomar pela raiva. Afinal, comunicar-se implica ser hábil para partilhar tanto as coisas ruins quanto as boas.
  2. não dizer tudo de negativo que vem a cabeça durante uma discussão. Na maioria das vezes, os casais quando discutem tendem a “despejar” todas as frustrações e insatisfações do relacionamento a um só tempo. O ideal é conseguirmos separar as coisas: somente os eventos, sentimentos, fatos, etc., que dizem respeito ao tópico que está sendo discutido devem ser tratados. Uma coisa de cada vez! Essa estratégia tão simples evita ressentimentos e, fundamentalmente, permite que o problema que gerou a discussão seja solucionado. Se um casal se habitua a resolver cada problema que surge isoladamente, as chances de que os problemas produzam mágoas acumuladas diminui consideravelmente.

Mágoas acumuladas podem, em grande parte, ser superadas com o perdão. Em qualquer relação, o exercício do perdão cria uma zona de conforto e tolerância, na qual os parceiros se sentem seguros para exprimir seus pensamentos e sentimentos. Isso porque ao sermos perdoados, e ao perdoarmos, eliminamos da nossa lista de requisitos conjugais uma qualidade improvável de ser encontrada num ser humano, a perfeição. O que, no longo prazo, pode evitar muita frustração para ambos os lados. Contudo, a idéia do perdão deve estar associada a de esquecimento. Uma vez que uma atitude tenha sido perdoada, ela deve ser esquecida. Nada é mais corrosivo num relacionamento do que o péssimo costume de trazer erros passados à tona.

Algumas pessoas podem confundir perdão com negação, mas não é a mesma coisa. Negar é fazer de conta que o erro/limitação/falha do outro não existe, esse é o caminho que muitas relações abusivas percorrem. Perdoar, ao contrário, implica reconhecer o erro/limitação/falha do outro, discuti-la e chegar a um consenso sobre os danos que ele causou. Uma vez que isso é feito, o casal decide se vale à pena continuar investindo na relação e como isso pode ser feito para evitar que o erro se repita. Assim, deve-se estabelecer um compromisso mútuo que inclua a evitação do erro, a correção das atitudes que o produziram e, por fim, a previsão de conseqüências/sanções possíveis para o caso de persistência no erro.

Pode-se perceber que perdoar não é fácil, exige uma disposição do casal para melhorar as atitudes individuais e comprometer-se com o bem-estar físico e psicológico um do outro. Contudo, essa disposição é essencial em qualquer tentativa de criação de uma zona de segurança para conversas francas e abertas entre um casal.

Imagem: “Houve uma vez” por Stefano Longhi, em 1x.com


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