Uma Casa Para a Felicidade

A Moda é Ser Feliz

Alcançar o bem-estar em casa envolve perceber valores que ultrapassam tendências de decoração. É disso que trata o seminário lançado por Casa e Jardim, que vai debater as transformações pelas quais passam um lar e a liberdade de decorá-lo com humor, histórias de família e, sobretudo, estilo próprio.

*Texto Carol Scolforo.

Revista Casa e Jardim – Setembro de 2009

Se a casa tem papel fundamental na alegria de viver, qual é o sentido de buscar na vitrine da loja o pacote completo do contentamento? Mais sensato é recorrer à alma do lar, e de quem vive nele, para decorá-lo com legitimidade. Em A felicidade mora aqui, seminário que Casa e Jardim realiza no dia 30 de setembro, no hotel Grand Hyatt, em São Paulo, convidados nacionais e internacionais se reúnem em torno dos temas A casa em transformação e Decorar com liberdade. O evento é voltado para arquitetos, decoradores, designers e paisagistas.

Às vezes teimamos em levar para casa o sonho que se vende na loja – seja o móvel, o objeto decorativo, a cor da parede, a TV para lá de moderna ou um determinado piso. No entanto, devidamente instaladas, as aquisições podem não fazer sentido nenhum. A sensação é estranha, de que algo não vai bem. Inconscientemente, nos sentimos mal em um lugar que deveria nos atrair e revigorar nosso humor. Pois é. Adotar o que está na moda simplesmente porque é moda ou a tendência do momento sem que caia bem ao seu estilo é quase atropelar a personalidade dos moradores. Por fim, nos sentimos mais em casa fora dela do que entre suas paredes.

Mais do que local de abrigo e proteção, a casa é nossa terceira pele, nossa esfera de reconhecimento. Como diz o filósofo suíço-britânico Alain de Botton, em seu livro A arquiteturada felicidade, “um lar é um espaço que consegue tornar consistentemente disponíveis para nós as verdades importantes que o mundo amplo ignora, ou que nosso eu distraído tem dificuldade em manter”. Botton é um dos estudiosos que buscam mudar o foco do assunto para o indivíduo, sem deixar de lado a estética ou a funcionalidade. Ele está interessado em mostrar os valores, sonhos e memórias que dificilmente estão impressos nos catálogos de decoração.

Um lar é um espaço que consegue tornar consistentemente disponíveis para nós as verdades importantes que o mundo amplo ignora, ou que nosso eu distraído tem dificuldade em manterAlain de Botton, em A arquitetura da felicidade.

Ninguém está ofendendo nenhuma tendência, é claro. Afinal, a maioria delas sai de estudos importantes para facilitar a rotina, levando em conta o estilo de vida de cada um. Mas fazer uma triagem que tenha a ver comas próprias verdades é essencial para morar bem. Quer um exemplo? Quando se espalhou pelo mundo a ideia americana de morar em loft, muita gente adotou esse estilo de vida. No entanto, a derrubada de paredes se choca como desejo de privacidade. “Os moradores de uma casa têm necessidades diferentes e se refugiam em cantos distintos. A privacidade garante que cada um expresse seu desejo”, diz a psicóloga capixaba Angelita Corrêa Scardua, mestre em psicologia social e especialista em neurociências e comportamento. Mesmo que haja na casa um morador único, a banalização visual dos ambientes pode se tornar um fator estressante, cansativo.

Falta de funcionalidade é outro aspecto que irrita. “A estética precisa ser funcional”, frisa Angelita, citando cubas de lavabo muito rasas, outra tendência amplamente utilizada nos últimos tempos. “Algumas aplicações ficam só de enfeite, as pessoas acabam deixando-as de lado. E gera estresse um investimento inutilizado. ” Também irrita e incomoda ver reparos por fazer, segundo Alain de de Botton: a falta de iniciativa se escancara.

A mesma sensação estática se aplica a uma casa que pouco se renova, que tem uma decoração definitiva. “É preciso criar espaço para o novo entrar e estimular o cérebro. Um lugar onde nada muda há anos sinaliza uma espécie de inércia emocional”, aponta Angelita Scardua. Ao mesmo tempo, incluir muita tecnologia no espaço doméstico também pode estagnar a atividade dos moradores. Equipamentos eletrônicos em excesso no quarto, por exemplo, interferem na energia entre essas quatro paredes. “Claro que as tecnologias são necessárias, mas pelo menos o quarto, que é um lugar de descanso, deve evitar concentrá-las”, detalha a bioarquiteta capixaba Kelly Guariento Marques.

A casa é o lugar onde se abrigam vontades, desejos, sonhos. Por isso não pode ser um produto descartávelMaria Elvira Rofete, arquiteta

Facilidades como essas tornam mais fácil a correria da rotina. No entanto, escanteiam a profundidade de uma moradia. “As pessoas acabam passando pela casa. Vivem correndo e deixam de lado os sentidos, a percepção desse lugar. Por isso adotam a moda. Falta profundidade em morar, falta alma nos ambientes”, observa a designer de interiores paulistana Maristela Gorayeb. Essa história ainda pode ser revertida, se forem privilegiados aspectos emocionais como memórias de família, boas histórias, aromas, sons, texturas e suavidade visual (simplicidade, não monotonia). Assim, a casa se torna verdadeiramente revigorante.

Afinal de contas, a moda é o que queremos que os outros percebam, como diz a arquiteta, urbanista e professora do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, Maria Elvira Rofete. “Já o estilo, dentro de casa, é o que somos. E não o sonho que se vende na loja ou na mostra de decoração.

Mais felicidade em casa com…

Uso de cores
Ao adotar cores em casa, pense antes no que o tom escolhido representa para você. Uma dica da designer de interiores Maristela Gorayeb é investir em cores ousadas em elementos que possam ser renovados facilmente, como capas de almofadas, mantas para sofá, quadros… Assim, a casa muda sempre que você quiser. Tons mais calmos e sóbrios e menos sujeitos às tendências podem ficar em superfícies maiores e mais duradouras.

A mescla do novo com o antigo
Renove sua casa sempre, com memórias e objetos que mostrem uma faceta da personalidade dos moradores. Livros preferidos, uma xícara quebrada que tenha uma história interessante, fotos de bons momentos… Tudo isso é válido, mas na medida certa. Lembre-se: os valores herdados são apenas uma parte da sua vida, portanto, crie espaço para algo novo entrar. Inclua essa parte de memórias como se fossem apenas um capítulo do seu livro.

A luz certa
A iluminação é o clima do ambiente. Além disso, ela afeta o ritmo biológico dos moradores. De manhã, encha a casa de luminosidade natural. A luz vai caindo conforme a tarde e a noite se aproximam, por isso, inspire-se nesse sinal da natureza e tente trazer para dentro de casa uma iluminação, mesmo que artificial, mais quente e baixa. Uma pesquisa da Philips mostra que esse respeito ao ritmo de luminosidade do dia agrega bem-estar aos ambientes. Tanto que a marca lançou uma novidade: luzes flexíveis, que podem ser ajustadas pelo próprio morador de acordo com suas emoções. O nome desse sistema é Living Colors, no qual a cor e a intensidade da luz se adaptam para criar sensações.

A proximidade da família
Se você preserva vínculos afetivos, sua casa deve refletir esse desejo. Não separe as atividades da família na hora das refeições, por exemplo. A cozinha americana acaba estimulando lanches rápidos, enquanto a mesa de jantar favorece a união. Se você gosta de cozinhar, dê destaque a esse ambiente em casa. Se aprecia filmes, aposte na sala de TV.

Sensação de amplitude
Uma decoração agradável aposta também em amplitude. Rebaixar o teto é uma alternativa cada vez menos recomendada por especialistas, que afirmam: a sensação de um pé-direito amplo traz, naturalmente, bem-estar.

A calma da simetria
Harmonia visual (equilíbrio) faz bem. O cérebro naturalmente mapeia territórios e interpreta assimetria demais como um cenário estressante, porque tem desgaste para decodificar o excesso de informações ao mesmo tempo. “Em termos genéticos, a simetria é interpretada como saúde”, afirma a psicóloga Angelita Corrêa Scardua. Na prática, um exemplo: mesinhas laterais ao sofá devem ser da mesma cor no caso de terem materiais diferentes; ou do mesmo material ou design se estiverem em cores desiguais.

Atenção maior aos ambientes internos
Se for adquirir um imóvel novo, não se entusiasme mais com a área de lazer oferecida do que com o espaço interno onde irá morar. É moda as construtoras oferecerem espaços nobres fora de casa, para atrair compradores. No entanto, é mais rentável investir nas áreas de privacidade, que serão realmente usadas.

Imagem: “Simetria e Contraste” por Stefan Nielsen, em 1x.com

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