Você é o que você veste? – Todo deslize ao se vestir será castigado

Por Elaine Vieira – Jornal A GAZETA/ES – 22/11/2009

Um deslize apenas, e pronto. Aquela entrevista para o emprego que você queria tanto, ou a boa impressão que esperava causar no primeiro jantar com os pais do namorado vão por água abaixo. Você pode ter conteúdo, ser inteligente, o mais preparado: mas, se não souber responder com bom senso à pergunta “com que roupa eu vou”, corre o risco de não conseguir mostrar quem você realmente é.

A “embalagem” nunca foi tão importante, apesar de vivermos em tempos tão liberais. Que o diga a estudante Geisy Arruda, que virou notícia no Brasil ao ser hostilizada por uma multidão na faculdade em que estuda, por estar com um vestido curto.

Quem entende do assunto explica: não se trata de ter estilo ou andar na moda, mas sim de se vestir adequadamente, de acordo com o local e a ocasião, além da sua idade e tipo físico. “A intenção é que nossas roupas falem sobre o que pensamos ser. Mas, essencialmente, elas tendem a revelar mais sobre o que queremos que os outros pensem que somos. Com essa “máscara” social queremos ser aceitos, valorizados dentro de um grupo”, explica a psicóloga Angelita Scardua.

Personalidade X regras
Por mais que você queira expressar sua personalidade por meio das roupas, deve seguir algumas regras para ser aceito nesse grupo, sem correr o risco de ser mal interpretado ao apostar num único personagem. “As mulheres tendem a se vestir de forma sexy, pois veem que as bem-sucedidas sempre aparecem assim. Mas esse é só um lado, e o fato de elas estarem em evidência não significa que sejam amadas ou respeitadas”, adverte a especialista.

Angelita lembra que as regras sociais têm a função de estabelecer limites entre interesses individuais e coletivos. “Nosso cérebro precisa de referências claras para processar as informações. Imagina você chegar num hospital, passando mal, e não conseguir identificar quem é o médico/enfermeiro e quem é o paciente ou o faxineiro?”.

Imagem pessoal
Para a consultora de etiqueta e autora do livro “Sem Noção”, Lígia Marques, roupas definem relações sociais. “Elas fazem com que sejamos identificados como pertencentes a determinado grupo e faz com que as outras pessoas queiram, ou não, manter um relacionamento conosco”, ressalta.

Mesmo que você seja contra, não há como fugir. “Somos parte de uma sociedade eminentemente visual. Quando chegamos a qualquer lugar, antes de termos chance de falar ou até mesmo de sorrir, já fomos avaliados pela nossa indumentária. Essa primeira impressão permanece no subconsciente da outra pessoa. É ela que determinará a qualidade do conceito e do prestígio que agregaremos à nossa “marca pessoal” e, se for o caso, também à marca de empresa que representamos”, destaca a consultora de comportamento profissional Maria Aparecida Araújo.

Para ela, qualquer tipo de excesso pode provocar desastres irremediáveis à reputação e à imagem das pessoas. “Na maioria dos casos, a exposição excessiva de partes do corpo comunica vulgaridade, mesmo que não haja intenção”, alerta.

Igrejas e escolas tentam evitar os exageros
Quando o assunto é roupa, até os locais mais tradicionais sofrem com a falta de noção das pessoas para se vestir. No Convento da Penha, principal ponto turístico do Estado, não é raro ver visitantes sendo repreendidos pelos fiéis.

“Há uma placa, logo na subida do santuário, que informa a proibição de se entrar de biquíni ou sem camisa. Muita gente vem direto da praia, mas só pode ir até o campinho”, destaca o guardião do Convento, frei Bertolino Tholl. Como a subida é longa e o calor constante, fiéis estão liberados para usar bermudas e chinelos, garante o frei.

Nas igrejas evangélicas, também não é diferente. “Mesmo quando a igreja não impõe restrições, como é o nosso caso, é preciso bom senso. Da mesma forma que ninguém vai à praia de vestido longo, não dá para ir à igreja com decotes”, frisa o pastor da Igreja Batista da Restauração e presidente da Associação de Pastores de Vitória, Abílio Rodrigues.

O controle das roupas, que começa com o uniforme nas escolas, chega até a faculdade. Na Emescam, há três anos, é realizada a “Campanha do Traje Adequado”. O objetivo é fazer com que futuros médicos e enfermeiros se vistam apropriadamente dentro da faculdade e do hospital escola. Sapato fechado, cabelo preso, calça comprida e blusa sem decotes estão entre as orientações.

Organize seu guarda-roupa e fuja do mico
Mesmo com bom senso você não está imune a pequenos deslizes no visual. Afinal, na pressa, quem nunca pegou qualquer roupa e acabou no trabalho com um decote indecoroso? Para evitar situações assim, a consultora organizacional Romilce Colombo dá a dica: “Reorganize seu guarda-roupa. Peças mais sérias, combinando entre si, de um lado; mais ousadas, do outro. Assim, na pressa de sair para trabalhar, é só recorrer ao lado certo, com a certeza de que ficará bem vestida”, ensina.

Sensualidade e samba no pé sem se expor demais
O samba está sempre associado a belas mulatas, em biquínis mínimos. Mas até nesse universo, em que a nudez é supervalorizada, há quem prefira se preservar. É o caso da rainha de bateria da escola Independetes de Boa Vista, Christina Mendes Victório, 30 anos.

Ela comprou uma briga para não usar biquínis durante os ensaios da escola. “Na quadra, a gente fica muito em contato com as pessoas, e os homens não sabem separar as coisas”, destaca. Na avenida, entretanto, é tudo diferente. “Na hora do desfile, o que conta é a fantasia, o tema que a escola está defendendo, além disso, não há contato”, aponta Christina, que já desfilou apenas de tapa-sexo.

Para ficar mais à vontade nos ensaios, ela optou pelos vestidinhos, sempre curtos, para deixar as pernas torneadas à mostra. “Também tive que ceder um pouco no decote, mas uso um só de cada vez, ou no busto ou nas costas”, ensina. Parte da preocupação dela tem a ver com o fato de ser pedagoga. “Trabalho com crianças e adolescentes, dentro e fora das quadras. As meninas se espelham na gente, não dá para exagerar”, destaca.

Reação ao vestido revela machismo
A universitária Geisy Arruda e seu polêmico vestido curto foram notícia nas últimas semanas em todo o país, após a baderna criada por seus colegas de universidade. Para os especialistas, pode até não ser elegante, mas o minivestido rosa está longe de ser o verdadeiro pivô da confusão provocada na Universidade Bandeirante.

Para o sociólogo e professor da Ufes Thimoteo Camacho, a reação dos alunos é reflexo da sociedade, machista e patriarcal. “O corpo das mulheres é visto como objeto a ser controlado”, destaca.

Ele aponta que, ao valorizar a erotização do corpo feminino, reproduzimos esse preconceito. “A forma mais sutil de violência contra o feminino é a pornografia, até chegar ao estupro”, alerta. E o fato de Geisy ter sido expulsa da faculdade – que logo depois voltou atrás na decisão-, mostra o moralismo da situação. “O mero uso da minissaia foi motivo para catalogar a moça como puta e para destituí-la da faculdade”, critica Camacho.

A psicóloga Angelita Scardua aponta o paradoxo entre a erotização e o conservadorismo. “A imagem sexual da mulher brasileira diz que nem todas as mulheres podem se expor da mesma forma. Isso vem desde a época da colonização, quando as diferenças étnicas e de origem social estabelecia uma separação, até mesmo legal, entre as mulheres adequadas para o casamento e as que estavam disponíveis para o sexo”, explica.

Para ela, o problema é que Geisy foge do padrão de beleza, mas não se furta de usar roupas sensuais. Aparentemente, “ela parecia acessível mas não era”. Na percepção característica do Imaginário social brasileiro, isso é percebido com estranhamento, em especial se tratando de uma moça como ela: mestiça e de família humilde. É comum em nossa história social a idéia de que as moças ricas e brancas sejam mais “difíceis” e inacessíveis do que as outras, aponta.

E, para quem se surpreendeu com a reação das mulheres, que também atacavam Geisy, Angelita explica: “Na nossa cultura, nos sentimos muito confortáveis em poder apontar “a puta”. Toda vez que alguma mulher é colocada nesse lugar, as outras podem se sentir seguras, com seus próprios deslizes protegidos, já que a atenção negativa fica concentrada naquela que está sendo apontada como desviante, critica.

Confira abaixo o que Geisy disse a A GAZETA:

“Deve ter sido inveja”

Como você avalia o que aconteceu?
O que aconteceu na faculdade foi tão absurdo que até agora eu paro e me pergunto se ocorreu mesmo. Ainda mais num país como o Brasil.

Você nunca tinha sido repreendida pelo modo como se veste?
Nunca. Esse é o meu jeito. Sempre tive facilidade de me comunicar, sempre fui pra frente, e bem resolvida, tanto na forma de vestir como de me expressar. E nunca tive problemas em relação a isso.

Usava o mesmo tipo de roupa para trabalhar ?
Não. Eu trabalhava num mercadinho, perto de casa, então não precisava ir arrumada. Naquele dia (22 de outubro), como todas as quintas e sextas, eu tinha ido para a faculdade pronta para ir para a balada depois.

Esperava essa reação na faculdade?
Fiquei surpresa. Até porque isso aconteceu no intervalo. As pessoas deviam ter outras coisas para fazer. Andei de ônibus, na rua, e ninguém reagiu mal.

A reação das mulheres também surpreendeu?
Não esperava que elas me tratassem daquela forma. Deve ter sido ciúmes, inveja, porque eu estava chamando mais atenção que elas. As meninas costumavam olhar meio torto, mas eu nem dava bola para ninguém na faculdade, só para o pessoal da minha sala.

Você se sente bem com a cantadas dos homens?
Desde que seja respeitoso, um elogio, eu gosto. Sou vaidosa e elogio nunca é demais. Mas, se é agressivo ou o homem fica encostando, eu já não gosto.

Mudou algum hábito?
Continuo do mesmo jeito. Hoje estou de short e blusa. Só evito usar o vestido, porque ficou muito batido

Imagem: “Liberdade” por Dmitry Laudin, em 1x.com

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