“A Vida é o Que a Gente Faz”

Por Vilmara Fernandes – Jornal A Gazeta/ES – 27/12/2009

Uma funcionária pública, uma professora e um jovem de muitas profissões. À primeira vista pode até parecer que eles não têm nada em comum, mas os três puseram em prática o sonho de muitos: o de ser diferente no próximo ano. Além de promoverem grandes mudanças em suas vidas, hoje eles ajudam outras pessoas a transformarem suas realidades.

As histórias de Maria Aparecida Giori, Luciane Sampaio Frizzera e Emerson Custódio Wu só se tornaram reais porque eles não se intimidaram diante do medo de fazer e ser diferente. Esse, aliás, é o primeiro diferencial de quem deseja transformação: agir, romper barreiras, derrubar obstáculos. Os três foram corajosos ao abrir mão de valores, comportamentos, crenças e até de bens materiais.

Tudo o que é pré-requisito para a mudança. “Para viver uma nova vida é preciso quebrar estruturas, se desfazer do que considerava importante”, destaca a psicóloga Angelita Corrêa Scardua – especialista em felicidade. E quem consegue romper com hábitos antigos acaba se surpreendendo. Como Aparecida, que superou os preconceitos da classe média para viver a simplicidade do Morro de São Benedito, “onde as dificuldades diárias nos transformam”, diz ela.

Liberte-se

Mas se a simples ameaça de abandonar o conhecido assusta você, lembre-se de que o mundo como conhecemos hoje é fruto de experiências bem e mal sucedidas. Como as vividas por Emerson, que se libertou após anos de imersão no crack e hoje ajuda outros a abandonarem o vício. Agora se prepara para uma faculdade de Direito. Pôs em prática outra lição: estabelecer metas. É assim que define sua nova rota.

E, nesses momentos, é importante não limitar sua espontaneidade e criatividade. É a oportunidade de dar asas à imaginação. Foi com essas características que a professora Luciane descobriu o caminho para ajudar dezenas de alunos e famílias carentes a encontrarem um novo modo de viver, com mais dignidade.

São exemplos de que, além de saudável, a mudança também se propaga. Além de oxigenar nossas ações e o nosso olhar sobre o mundo, um novo modo de agir fortalece quem está ao nosso redor, servindo como estímulo. Então pode ser uma boa oportunidade aproveitar o momento – o fim de ano -, quando se faz um balanço, para traçar novas metas. O importante é ter em mente que a vida é o que a gente faz.

Alegria conquistada na simplicidade do morro

Não se pode ter medo de ser feliz.” Foi com essa certeza que a funcionária pública Maria Aparecida Giori juntou suas roupas e foi viver com o amor de sua vida, no alto do Morro de São Benedito, em Vitória. Em meio a gargalhadas que revelam uma total ausência de arrependimento, conta que trocou um confortável apartamento de 120 m2, símbolo da sua vida de classe média na Mata da Praia, também na Capital, por uma casinha de dois quartos, sala e um banheiro. “E da sogra”, brinca.

Cida admite que não foi uma decisão fácil. Há três anos, havia enfrentado o fim de seu casamento, de 21 anos. Agora, estava em jogo o futuro do seu novo relacionamento. “Meu marido não se acostumava com a vida individualista da parte baixa da cidade.” Foi quando aceitou o convite para “conhecer o mundo dele”.

O carinho com que foi recebida pela comunidade de São Benedito tocou seu coração. Famílias simples, de trabalhadores, cujas dificuldades diárias a fizeram agir. “Cansei da falta de creches, de saneamento, das condições de moradia”, conta Cida. Depois de ver seu carro virar uma ambulância e de ajudar a bater muitas lajes, resolveu assumir a associação de moradores.

Agora, Cida quer levar seus amigos da Mata da Praia para visitarem o morro. “Precisam ver a vida de outro ângulo.” Ela não tem dúvidas de que o Morro de São Benedito mudou sua vida. “Para melhor”, acrescenta. E é taxativa ao dizer que o que nos faz melhor é viver com dignidade, com desejo de transformar a vida do outro.

As dificuldades são a base da mudança

Quando chegou ao Estado, aos 2 anos, a vida da carioca Luciane Rosário Sampaio Frizzera era só conforto. A família contava até com motorista particular. Mas, numa dessas rasteiras da vida, tudo se foi. Tiveram que trocar o conforto de um bairro de classe média de Vila Velha, pela periferia, em Alto Caratoíra, Vitória.

As muitas dificuldades e a luta dos pais para se reerguerem incentivaram Luciane a estudar. Aos 20 anos, ela já era professora de Ciências Físicas e Biológicas. E foi lecionando nos bairros carentes da Grande Vitória que voltou a rever sua infância, marcada pela presença de crianças pobres. “Foi um resgate do meu passado, com o agravante das drogas, da violência, da prostituição” pontua Luciane.

Foi nessas escolas que ela deu início a diversos projetos, não só com os alunos, mas com suas famílias e com a comunidade. Nas aulas de Ciências, aprenderam a importância do reaproveitamento, da reciclagem, e de como isso poderia mudar suas vidas. “A eles ensino uma forma de produção que os permita ganhar a vida, com dignidade”, conta.

Projetos que deram à professora inúmeros prêmios, inclusive nacionais. “Nessa trajetória aprendi que a vida é uma eterna construção, em que todos contribuem e em que as dificuldades são a base.” Por isso conta aos alunos sobre sua infância carente. “Para mostrar que sempre é possível mudar”, frisa.

Decisão radical: abandonar o crack para viver

Aos 16 anos, Emerson Custódio Wu já tinha perdido os pais, os tios, o padrinho, os avós. A ele só restou uma pensão do pai e os amigos de rua. Os mesmos que o levavam a muitas festas para esquecer a solidão. Foi numa delas que deu início à sua vida de vícios, do qual levaria 13 anos para se libertar.

Começamos com álcool. Depois veio a maconha e a cocaína. Um dia, fumei o fristo (maconha com crack), o primeiro passo para o crack”, lembra Custódio. Para manter o vício foi vendedor de marmitex, de churros, trabalhou em fábricas, em escritórios, lavou carros. Vivia para fumar. Até o dia em que viu um amigo morrer com muitos tiros. “Ali percebi que precisava mudar”, lembra.

Era o início de 2009. Decidiu viver e foi radical. Abandonou o crack. E, com a droga, foram os antigos empregos, os amigos. Afastou-se do que podia levá-lo ao vício. Quando ficou limpo, decidiu que a melhor forma de vencer era ajudar outros a se libertarem. E é assim, nas mesmas ruas onde um dia se drogou, que atua como agente da Associação Capixaba de Redução de Danos.

Hoje, aos 29 anos, é taxativo: “Nenhum vício é mais forte do que o desejo de mudar”. Agora traça metas para sua nova vida. “Quero uma bolsa para voltar a estudar Direito”. Mas não pretende deixar as ruas. “É onde posso mostrar que o maior inimigo são as nossas escolhas”.

A sociedade evoluiu graças ao espírito inquieto do homem. Nosso DNA tem o desejo de mudança, da busca pelo novo, da atração pelo desconhecidoAngelita Corrêa Scardua , psicóloga especialista em felicidade

A tendência é de que as mudanças sejam maiores nos próximos anos, a ponto de nem sequer percebermos as novidades quando elas acontecerem. As previsões mais otimistas dão conta de que em 50 anos a humanidade já terá apreendido todo o conhecimento, até o da morte” Alberto Ferreira , Coordenador do Laboratório de Computação de Alto Desempenho da Ufes

Mude também

Busque apoio. Pessoas acolhedoras, que oferecem coragem e estímulo, sempre nos ajudam nas mudanças. Mas lembre-se de que suas mudanças são feitas por você. A melhor saída é sempre aquela que você encontra.

Fatalismo e vitimação. Evite frases como: “Nada dá certo para mim”; “Tudo é difícil”, “Não consigo mudar de rumo”. Os que se saem fortalecidos da mudança são os que arregaçaram as mangas para buscar soluções.

Estabeleça metas. Não aguarde uma solução mágica para a vida. Ninguém fica famoso num lance de sorte. As situações difíceis devem ser combatidas com a ação, o que requer um planejamento objetivo, concreto e realizável.

Projeto. Um projeto é elaborado a partir dos recursos que se tem para realizá-lo. Dê o passo do tamanho das suas pernas. Um projeto concretizado, mesmo pequeno, abre espaço para a elaboração de um outro, e assim sucessivamente.

Perdas não são definitivas. A vida é feita de altos e baixos. Aceitar a impermanência das coisas, boas e más, nos fortalece, porque nos ensina a não supervalorizar os problemas. Assim como nutrir as pequenas vitórias conquistadas nos dá a sensação de que nossos objetivos estão se realizando.

Faça do limão uma limonada. Mudar implica entender que nas dificuldades também reside a oportunidade de crescimento. Quando enfrentamos os problemas aprendemos quais são os nossos limites, os nossos potenciais. Quem quer mudar precisa começar a fazê-lo com os recursos que tem e não ficar esperando um momento ideal para a mudança.

Pesar prós e contras. Definir o que realmente importa, o que merece os esforços, leva a otimizar o tempo, a energia e o afeto que podemos e queremos empregar para mudar algo. Dessa forma, conseguimos diminuir a ansiedade, pois não nos sentimos obrigados a resolver tudo. Priorizamos aquilo que tem mais significado para nós.

Inspire-se nos modelos positivos. Deixar-se inspirar por aquilo que é bom e nos fortalece. E lembre-se: você pode ser esse modelo positivo. Não pense só nos benefícios que pode obter com a mudança, mas no impacto que as suas ações podem ter sobre os outros.

Fonte: Angelita Corrêa Scardua, Psicóloga

Imagem: “Limões” por Antonio Diaz, em 1x.com

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