A Árvore e os Sentidos do Natal

Se parássemos um só minuto e prestássemos atenção à flexa inexorável do tempo, veríamos que independentemente da nossa vontade as cidades se transformam, as árvores dão lugar a prédios e ruas, os amigos se mudam, as crianças crescem, nós envelhecemos, e a vida segue seu curso. A vida se renova, mas esquecemos disso.

Em tempos muito remotos nossos antepassados celebravam a dinâmica da vida comemorando a alternância do tempo. À semeadura e à colheita, à sobrevivência, enfim, se associava a mudança das estações, porque dela dependiam os recursos que nossa espécie precisava para nutrir os sentidos. Comer, abrigar-se, curar os males do corpo, reproduzir… A essência da vida humana dependia no passado, como hoje, do uso dos sentidos: as ferramentas que utilizamos para mapear o mundo e fazer escolhas.

A bússola da realidade vivida pelos nossos ancestrais – a que eles utilizavam para traçar o mapa do mundo conhecido – era a alternância temporal, a variação de luz e temperatura que caracteriza as estações do ano. Por meio da visão, do olfato e do tato nossos ancestrais podiam identificar o inverno, o verão, podiam organizar-se para enfrentar cada época e cada necessidade: guardar alimento, preparar vestimentas, arranjar abrigo, sair, caçar, exibir-se, resguardar-se. Nesse mundo, guiado inteiramente pelos sentidos, um elemento tornou-se símbolo da passagem das estações: a árvore!

A árvore sempre foi um símbolo de fertilidade, um sinalizador desse fluir temporal, perfeitamente ajustado ao ritmo cíclico da natureza. Com sua capacidade de sobreviver à alternância das estações, ao frio ou ao calor, perdendo folhas, renovando-se, florescendo e dando frutos ciclicamente, a árvore se adapta e oferece à humanidade recursos de sobrevivência em todas as épocas. Madeira para o fogo e para as construções; seiva, raízes, frutos, casca e folhas para o alimento, a medicação e as vestimentas; flores e sementes para enfeitar, perfumar. Numa só árvore pode haver quase tudo o que precisamos para viver! Por isso é praticamente universal na psicologia humana a associação simbólica entre a árvore e o ciclo vital.

A tamareira, por exemplo, era considerada a árvore da vida pelos egípicios que a enfeitavam com doces e frutas para as crianças. Na China, o pinheiro simboliza a longa vida, e no Japão a imortalidade. Na Antiga Grécia as árvores eram utilizadas para reverenciar os deuses. Tanto na mitologia grega quanto na religião judaica, e também na tradição budista, as árvores representam as possibilidades de evolução e elevação do homem e são consideradas intermediárias entre o céu e a terra.

Na Roma Antiga as pessoas penduravam máscaras de Dionísio – o deus do vinho que resuscitara da morte – em pinheiros para comemorar a “Saturnália”. Os romanos acreditavam que as divindades do mundo subterrâneo saíam em cortejo por todo o período invernal, quando a terra repousava e era incultivável por causa das condições climáticas. Durante a “Saturnália”, acreditavam eles, tais divindades poderiam ser aplacadas com a oferta de presentes e de festas em sua honra. Dessa forma, elas retornariam ao além, onde favoreceriam as colheitas da próxima estação.

O frio também ajudou a construir o simbolismo de outra árvore no imaginário humano, o carvalho. Ele foi em muitos casos considerado a mais poderosa das árvores. No inverno, quando suas folhas caíam, os povos pré-cristãos do ocidente europeu, especialmente os germânicos, costumavam colocar diferentes enfeites nessa árvore para atrair o espírito da natureza, que se pensava ter fugido em decorrência da infertilidade da terra invernal. Dentre esses enfeites haviam pequenos archotes de fogo, já que a luz – a vida – poderia espantar a escuridão – a morte – representada pelos meses sem sol.

Nossa árvore de Natal não é diferente. Para os recém-convertidos cristãos da velha Europa o pinheiro sinalizava a capacidade da natureza de resistir às intempéries, a força desafiadora da vida frente às dificuldades da existência. No auge do inverno, sob a neve, o pinheiro é a única árvore que se mantém verde. É por isso que escolheram o pinheiro para celebrar o nascimento daquele que os seguidores do Cristo no mundo inteiro consideram a renovação da vida e a luz do mundo.

Pense sobre todas essas coisas quando celebrar o seu Natal. Pense que mesmo as religiões e os povos sendo diferentes, toda a humanidade ao longo de sua história buscou ardentemente cultuar a plenitude da existência, aceitando suas alternâncias e procurando entender o significado do fluxo temporal que nos ensina a fluir com a vida. Talvez, por isso, quando corremos demais nos esquecemos de viver.

A pressa embota os sentidos, nos impede de aproveitar os estímulos do ambiente adequadamente, sobrecarrega nosso cérebro e mente com informações desnecessárias. Quando não dispendemos tempo suficiente para degustar, cheirar, tocar, olhar, mover e ouvir nos tornamos um pouco menos humanos. Em nossa época, em muitos momentos, corremos o risco de nos automatizarmos, de nos assemelharmos às máquinas, fazendo e cumprindo tarefas sem verdadeiramente atribuir-lhes um significado emocional. Situações como as que tipicamente ocorrem no fim de ano – encontros sociais obrigatórios, comida e bebida em exagero, compras compulsórias, etc. – imprimem um ritmo acelerado à vida. Tudo isso pode nos cegar. Nos cegar para o verdadeiro sentido dos sentidos que é o de usufruir do presente impagável que a natureza nos deu: ver, ouvir, cheirar, tocar, mover-se, viver…

Neste Natal, corra menos, dimínua o ritmo, contemple! Seja você mesmo a árvore da sua vida, enraíze-se no solo daquilo que pode nutrir seu corpo e mente, aguce os sentidos e  utilize-os para fazer as escolhas que  o ajudarão a sobreviver às intempéries. Procure no seu dia-a-dia por onde anda a luz da sua vida, ao encontrá-la, alimente-se dela para que te ilumine e aqueça nos dias de escuridão e frio. Renove-se!

Imagens: “Radiante” por Tim Allen em 1x.com

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3 comentários sobre “A Árvore e os Sentidos do Natal

  1. Que MARAVILHA é poder LER e MEDITAR sobre suas pérolas, minha cara Angelita. Muito obrigado por compartilhar tão lindos trabalhos conosco, caminhantes que somos da estrada do saber, peregrinos a amealhar porções do grande mosaico da VERDADE. Abraços Ternos – Fraternos & Eternos

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