Branca de Neve

Contos de Fadas…Quem conta um conto aumenta um ponto!

No clipe da música “Sonne”, da banda alemã Rammstein, temos uma releitura audaciosa da Branca de Neve. É como se a menina tivesse se tornado a epítome da Madrasta, em todos os sentidos: mais manipuladora, mais egoísta, mais perversa, mais egocêntrica, mais sexy… mais bela(?)! Jung, acho eu, teria adorado essa inusitada emergência do aspecto sombrio da Branca de Neve.

Carl Gustav Jung foi um dos mais queridos discípulos de Freud. Divergências teóricas e práticas, contudo, promoveram uma ruptura entre os dois pensadores. Jung, por sua vez, desenvolveu uma teoria psicológica própria, que abrange uma série extraordinariamente extensa de comportamentos e pensamentos humanos. Um dos primeiros pontos nos quais Jung discordou de Freud foi quanto à natureza da libido. Jung não concordava que a libido era basicamente uma energia sexual, mas sim uma energia de vida ampla e indiferenciada. Assim, uma das funções da libido seria alimentar o trabalho da personalidade, a qual Jung chamou de psique. Jung usou idéias da física para explicar o funcionamento da energia psíquica e propôs três princípios básicos: opostos, equivalência e entropia.

O princípio dos opostos é encontrado em todo o sistema junguiano e, a grosso modo, significa que todo desejo ou sensação tem o seu oposto. Essa oposição ou antítese – o conflito entre polaridades – é o principal motivador do comportamento. É a partir dessa idéia de oposição que Jung elaborou vários conceitos sobre a personalidade humana. Um dos conceitos mais interessantes propostos por Jung é o de Sombra.

Para Jung, a sombra seria uma parte inferior da personalidade, o somatório de todos os elementos psíquicos pessoais e coletivos, das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal. Os seus elementos seriam incompatíveis com a forma de vida escolhida, por isso uniriam-se ao inconsciente formando uma personalidade parcial e relativamente autônoma que possuiria tendências opostas às do consciente. Segundo Jung, “a sombra é todo o inconsciente“.

Como a sombra está próxima do mundo dos instintos é indispensável levá-la continuamente em consideração. A sombra inclui aquelas tendências, desejos, memórias e experiências que são rejeitadas pelo indivíduo como incompatíveis com a (auto)imagem que ele quer transmitir ao mundo. A sombra seria, então, constituída por elementos sentidos e percebidos como inadequados para os padrões e ideais sociais. Ela representa aquilo que consideramos inferior em nossa personalidade e também aquilo que negligenciamos e nunca desenvolvemos em nós mesmos. Se o material da sombra for trazido à consciência ele perde muito de sua natureza amedrontadora e escura. A sombra é mais perigosa quando não é reconhecida. Neste caso, o indivíduo tende a projetar suas qualidades indesejáveis em outras pessoas, ou é dominado pela sombra sem o perceber. Quanto mais o material da sombra tornar-se consciente menos ele pode dominar o comportamento da pessoa.

Uma pessoa sem sombra não é um indivíduo completo, mas uma caricatura bidimensional que rejeita a mescla do bom e do mal e a ambivalência presentes em todos nós. Cada porção reprimida da sombra representa uma parte de nós mesmos. Nós nos limitamos na mesma proporção que mantemos este material inconsciente. À medida que a sombra se faz mais consciente recuperamos partes de nós mesmos previamente reprimidas. Além disso, a sombra não é apenas uma força negativa na psique, ela é um depósito de considerável energia instintiva, espontaneidade e vitalidade, e é a fonte principal de nossa criatividade.

É por isso que na ficção, em geral, os personagens tendem a ser essencialmente bons ou maus, porque na ficção as personalidades são apresentadas em estado puro, sem a ambigüidade emocional que caracteriza a experiência afetiva humana. No Conto de Fadas da Branca de Neve, por exemplo, a Rainha Má seria a projeção da Sombra da Princesa. Como personagens, e não pessoas reais, nenhuma das duas apresenta os embates característicos de uma personalidade real, ou seja, o conflito natural entre sentimentos/pensamentos/ações antagônicos. Tanto a Branca de Neve quanto a Madrasta são estereótipos de personalidades, aspectos polarizados e fragmentados de uma personalidade total/integral.

Ao mesmo tempo, os vilões retratados pela ficção nos permitem experienciar os aspectos negativos da personalidade de um forma lúdica, sem que eles nos causem desconforto emocional. Tanto é que os personagens que são apenas bonzinhos tendem a nos parecer enjoados. Com muito mais freqüência tendemos a nos sentir realmente entusiasmados com os vilões. Afinal, é um alívio podermos projetar no vilão da estória nosso próprio lado sombrio!… Não é a toa que Dexter faz tanto sucesso. Dexter é um bom vilão, é o mau com propósitos “nobres”, ou seja, ele nos oferece um álibi para a maldade, e sem culpa!

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