Diga-me como é a sua silhueta e, quem sabe, poderei te dizer quem és!

Uma das contribuições de Wilhelm Reich para os estudos da personalidade humana foi sua teoria sobre o caráter, na qual ele propõe uma correlação entre a estrutura do corpo humano e a vivência das emoções. Isso é bem interessante! Estudos recentes no campo das neurociências têm demonstrado que há uma relação intrínseca entre corpo e mente, de forma que as experiências de um afetam ao outro. De certa maneira, essas descobertas recentes podem lançar alguma luz sobre as proposições de Reich, nos ajudando a entender melhor a extensão com que nossa forma física e nossa personalidade estão associadas.

A busca de entendimento dessa associação tem motivado alguns seguidores de Reich, pessoas que se debruçaram, ampliaram e aprofundaram a teoria reichiana do caráter. O mais difundido desses trabalhos é o de Alexander Lowen, que correlaciona a anatomia humana com o caráter tendo por base a Psicanálise. A partir da concepção reichiana de que as vicissitudes e fixações ocorridas ao longo das fases de desenvolvimento da libido (oral, anal, fálica, genital) gerariam um tipo específico de caráter, Lowen avança afirmando que: “Os diversos tipos de estrutura de caráter são classificados em cinco tipos básicos. Cada um deles tem um padrão peculiar de defesas tanto ao nível psicológico quanto muscular. Os cinco tipos são: esquizóide, oral, psicopático, masoquista e rígido“. Assim, na visão de Lowen, para cada um destes carateres corresponderia um biotipo específico, ou seja uma estrutura corporal, um modelo de corpo próprio.

Por sua vez, Stanley Keleman segue uma linha de raciocínio totalmente diferente da de Lowen para tentar explicar a formação do caráter. Para Keleman, existe um “reflexo de susto (startle reflex)” que serve aos animais superiores como um recurso para lidarem com emergências. Caso não consiga deter a ameaça que a originou, essa reação vai se aprofundando e passando por várias fases. Do alerta à luta, depois a fuga, o encolher, o render-se e o colapso final. Tais alterações são normalmente temporárias, mas em determinadas condições pode haver uma continuidade, uma imobilização em determinada fase da resposta e esse padrão passa a fazer parte da estrutura física/emocional do indivíduo.

Dentre os tipos definidos por Keleman estariam os de estruturas rígidas e densas, relacionadas à primeira parte do ‘”continuum do stress” e constituindo o padrão overbound (excesso de limites ou barreiras). Nos casos mais comprometidos, onde a estratégia anterior não deu conta do problema, desenvolvem-se as estruturas inchadas e colapsadas, relacionadas à segunda parte do continuum e dentro do padrão underbound (falta de limites ou barreiras).

Existem pontos de contato entre as idéias de Lowen e Keleman, mas também há muitas divergências. Por exemplo, há muitas semelhanças entre os tipos rígidos como descritos pelos dois autores. O denso parece-se com o masoquista, o inchado com o oral, e o colapsado com o esquizóide. Mas quando nos voltamos para o caráter histérico proposto por Lowen, não encontramos um tipo correspondente em Keleman. O caráter esquizóide, descrito por Lowen, tem músculos contraídos e fibrosos, e o colapsado identificado por Keleman apresenta musculatura flácida. O caráter oral é esguio e fino, enquanto que o inchado tende a uma forma de pêra.

Seja como for, é instigante a tentação de encontrar uma correspondente emocional para a forma dos nossos corpos, até mesmo porque a maioria das pessoas gasta tempo demais tentando ter um corpo que, a princípio, não corresponderia à sua estrutura física geneticamente pré-definida. Então, a possibilidade de que o corpo que temos seja, também, um produto das nossas experiências emocionais, torna o desafio da mudança física muito mais rico e desafiador. Principalmente porque, talvez, a solução para o corpo ideal não seja copiar as formas de uma outra pessoa, mas entender e harmonizar as nossas próprias. Partindo do pressuposto de que o nosso corpo reflete o que sentimos e pensamos, “ouvir” o que cada parte dele tem a dizer pode nos ajudar a nos conhecermos melhor.

Imagem: “Dança Colorida” por Leitmotiv em http://1x.com

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