Dormir e Sonhar! Nossa Saúde Mental Depende Disso

Você já se imaginou vivendo para sempre em vigília, ininterruptamente? Provavelmente você sentiu até certo cansaço ao pensar numa resposta para essa pergunta. É óbvio, se não provável, que a resposta razoável a tal pergunta é não! Talvez você até goste de imaginar a possibilidade de ampliar o tempo disponível para as suas atividades, o que é bastante compreensível. Mas é difícil imaginar que você ou qualquer outra pessoa pense em fazê-lo sem descanso.

O sono é um dos traços comportamentais mais característicos dos seres humanos, e não sem razão. Pesquisas desenvolvidas ao longo das últimas cinco décadas têm demonstrado que a privação de sono implica em inúmeros danos físicos e emocionais, de problemas gástricos ao aumento da irritabilidade, de déficit de atenção ao aparecimento de humores depressivos, de envelhecimento precoce à disfunções sexuais. Resumindo: dormir é bom, necessário e indispensável. Mas o que poucos de nós sabemos é que o sono tem hora certa para acontecer. Pelo menos do ponto de vista biológico e, também, psicológico podemos dizer que o sono deve ser usufruído preferencialmente à noite.

E porque devemos dormir à noite? Em primeiro lugar porque estamos biologicamente adaptados para isso. Digamos que ao longo da evolução o corpo humano foi desenvolvendo um mecanismo de auto-regulação, esse mecanismo é conhecido como ‘relógio biológico’. Uma espécie de ‘marcador de tempo’ neuronal que organiza o nosso meio interno e nos coloca em sintonia com o meio externo. Aparentemente, esse relógio localiza-se no núcleo supraquiasmático do cérebro, e é sincronizado pela alternância entre claro/escuro que ocorre no meio ambiente. Podemos pensar mais ou menos assim: nos primórdios da vida humana, na terra sobreviveram – se reproduziram e passaram os genes adiante – os grupos hominídeos que desenvolveram mecanismos de exposição ao meio, e de recolhimento, que puderam oferecer mais vantagens no aproveitamento dos recursos disponíveis.

Imagine-se como um homem/mulher primitivo: você não possui uma constituição física das mais exuberantes, seus filhotes são muito frágeis e precisam de acompanhamento constante, sua dieta alimentar é maioritariamente raízes e outros frutos de coleta. Lá fora, no mundo à sua volta, há uma dezena de predadores muito mais robustos que você e suas armas são um pedaço de osso e a sua coragem. Venhamos e convenhamos, é muito sábio exercer suas atividades na generosa luz do dia e se recolher à noite quando a escuridão torna-se um disfarce propício para os seus inimigos naturais. Admita, a natureza é sábia dando a todos os seres a chance de sobreviver, e para outros animais a sobrevivência pode depender de se alimentar de humanos.

Você é um tipo matutino, vespertino ou indiferente? Tenha você embarcado ou não na minha fantasia pré-histórica, o fato é que o seu organismo começa a se preparar para o repouso tão logo o sol se põe, o seu cérebro reage ao anoitecer liberando hormônios que te induzem ao sono. Da mesma forma, quando o sol desponta no horizonte o seu ‘relógio biológico’ faz com que seu cérebro passe a liberar hormônios que o enchem de vigor físico e o preparem para a atividade. Para algumas pessoas esses processos e seus efeitos ocorrem um pouco mais cedo e para outras um pouco mais tarde. Ou seja, é natural que algumas pessoas tendam a dormir e a acordar mais cedo e outras mais tarde e, ainda, há outras que alternam entre uma coisa e outra sem muito esforço. É o que os pesquisadores designam respectivamente como indivíduos matutinos, vespertinos e indiferentes.

É possível que você nunca tenha pensado na importância do sono em sua vida, ou sobre qual perfil de ‘dormidor’ é o seu, mas tente imaginar-se trabalhando durante a noite, ou em turnos alternantes. Imagine-se perdendo noites e noites de sono durante anos, seguidamente. Você pode ter em mente que a sua função é relevante para a sociedade, você pode ser um profissional de transporte, segurança, energia, saúde… Ou você pode ser um profissional da área de supermercado, siderurgia, entretenimento. Enfim, você pode ser alguém que precisa trabalhar e, obra da sociedade humana, o trabalho que você precisa, sabe e/ou deseja fazer é noturno! Justamente quando o seu corpo está pedindo por cama.

Você conseguiria trocar a noite pelo dia? Provavelmente não. Além de adoecer fisicamente, o seu corpo iria chiar e muito, pode ter certeza disso. Você também adoeceria psicologicamente. Por mais noctívago (vespertino) que você seja provavelmente não conseguiria reunir um grupo social – abrangente o suficiente para atender todas as suas demandas afetivas e sociais – que quisesse ou conseguisse viver exclusivamente à noite. Por conta de nossa história evolutiva, somos essencialmente seres diurnos e organizamos nossa vida social assim: atividades durante o dia e repouso à noite. Quase que a totalidade das escolas, do comércio, consultórios médicos, o resto da sua família, o cinema e uma parte considerável dos seus amigos e da vida social ‘funciona’ durante o dia. Esse é o aspecto problemático, do ponto de vista psicológico, da vida em 24 horas. Para que a sociedade contemporânea ofereça serviços ininterruptos é necessário que uma camada respeitável da população seja privada de sono e de vida social.

Quem trabalha à noite sofre com o horário social padrão da sociedade humana, além de sofrer com os problemas físicos advindos da inversão temporal que é trabalhar à noite e repousar de dia. Hoje se sabe que parte dos problemas de saúde apresentados por trabalhadores noturnos, ou em turnos alternantes, são desencadeados e/ou agravados por fatores psicológicos. Quando se trabalha à noite ocorre um descompasso entre a vida pessoal e a vida coletiva e, felizmente ou infelizmente, o ser humano é um animal gregário. Ou seja, o ser humano não sabe viver sem a companhia de seus iguais, o convívio social é parte fundamental da nossa saúde psíquica.

À noite sonhamos? Sonhamos! Sonhamos e, também, trabalhamos. Hoje cerca de 20% da população mundial trabalha em alguma atividade noturna. A sociedade de consumo demanda cada vez mais e mais serviços de 24 horas. É o preço que pagamos pelo conforto, pelo entretenimento, pela velocidade da informação e pelo acúmulo de trabalho. Não devemos nos esquecer de que a necessidade de mais e mais pessoas trabalhando à noite está relacionada, em parte, ao fato de que mais e mais pessoas precisam estender o seu dia em função do excesso de trabalho que empurra as atividades de manutenção da vida, doméstica e de lazer, para horários cada vez mais tardios. Nós, seres humanos, não estamos programados para viver dias/noites tão longos.

Se podemos mudar isso? É possível que sim, mas a um custo muito grande. Talvez não possamos mais voltar a um tempo em que as noites eram somente para sonhar, mas talvez possamos impedir que as noites se tornem tão somente um tempo a mais para trabalhar.

Imagem: “Quarto” por Mario Tarello em http://1x.com

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