Era Uma Vez…

Você já desejou alguma vez viver sem sofrimento, dor, frustração, medo…? A maioria de nós, em algum momento da vida, já pensou em como seria bom “passar por aqui” sem ter que vivenciar experiências que geram angustia, tristeza e/ou ansiedade, ou seja, viver um Conto de Fadas! Ou, ainda melhor, o final de um! Isso ocorre principalmente quando atravessamos um período difícil.

Há dois problemas aqui: O primeiro é que uma vida sem experiências negativas é uma impossibilidade; e segundo, é uma ilusão ou um mal entendido acreditar que Contos de Fadas não falam de sofrimento.

O primeiro problema diz respeito a nossa condição como seres humanos. Ser um ‘humano’ implica expectativas e necessidades que demandam afeto, aceitação, socialização, aprendizado, etc. Tudo isso depende da interação social, ou seja, são exigências da vida que nos obriga a interagir com outras pessoas que, por sua vez, também têm suas próprias expectativas.

Acontece que ao interagirmos com outras pessoas nos deparamos com sentimentos, atitudes e entendimentos do mundo que nem sempre correspondem aos nossos. Logo, nos vemos tomados por sentimentos como a frustração, a rejeição, o desapontamento, a dúvida, a insegurança, etc. Bom, mas isso faz parte da vida, ou não?

Quanto ao segundo problema: os Contos de Fadas, de forma alguma estes falam de paraísos livres do mal ou da vitória incontestável do bem. O príncipe para encontrar sua Bela Donzela tem que enfrentar dragões, sua própria feiúra e outros bichos. Os porquinhos simpáticos e a menininha bondosa para morar em segurança e desfrutar da companhia de seus familiares precisam encarar o Lobo mau, perder alguns irmãos, a vovó, o lanche e algumas casas. A mocinha desprotegida para ser amada precisa enfrentar a dureza do trabalho, a madrasta má, a velha bruxa e o cárcere. Bom, de fácil a vida nos Contos de Fadas nada tem!

Em geral gostamos de proteger nossas crianças da dura realidade da vida, do sofrimento, da desigualdade, da perda. Sendo assim, algumas vezes usamos os Contos de Fadas para colorir o dia a dia de nossos “filhotes” e, para tanto, amenizamos o enredo as vezes trágico das “historinhas”

– “O lobo não comeu os porquinhos não…”

– “A vovó não morreu…”

… E por aí vai. Mas, afinal, do que nos falam essas tragédias fabulosas? Quando Cinderela é rejeitada por suas irmãs estamos falando do conflito gerado pelo ciúme fraterno. Quem nunca foi comparado com o irmão?… Ah! Você é filho único né?! Quando o Lobo mau come os dois primeiros porquinhos por não estarem protegidos em suas casas estamos falando de imprudência, de imaturidade e teimosia. Quando a sereiazinha troca seu rabo de peixe por pernas falamos de lutar pelos próprios objetivos e de assumir as consequências dessa luta.

O nosso tempo tem primado em deturpar alguns clássicos Contos de Fadas, adequando-os à necessidade da sociedade contemporânea de “escapar” do sofrimento. Uma tendência que tanto pode valer-se do Politicamente Correto quanto do alívio oferecido pelas drogas, lícitas ou ilícitas, que embotam nossa visão do mundo. Se entendemos que o ingresso pleno na vida,  o tornar-se humano, é aprender a lidar com sentimentos antagônicos, oposição de idéias, rejeição, etc., como pretendemos ajudar nossas crianças a amadurecerem defendendo-as daquilo que pode ajudá-las a vivenciar o que é menos agradável na vida?

Além do que, alguns bons estudiosos do comportamento infantil já nos mostraram que as crianças não são anjinhos destituídos de sentimentos contraditórios. Quem já observou um grupo de crianças “massacrando” um amiguinho no pátio da escola sabe que crianças podem ser criaturinhas bem perversas!

Crianças, assim como todos nós, precisam aprender a encarar esses sentimentos destrutivos que nos habitam, precisam aprender a negociar com eles, administrá-los. É assim que nos tornamos pessoas mais equilibradas, mais preparadas para nos relacionarmos com o mundo à nossa volta e com nossos próprios anseios e, por conseqüência, mais felizes.

Contos de Fadas são ótimos roteiros para introduzirmos nossas crianças no mundo como ele é. Não nos enganemos com o cenário fantasioso das histórias infantis, eles estão carregados de símbolos e significados que fazem de nós seres humanos o que somos e o que queremos ser. Por essa razão, os Contos de fadas possuem um sentido profundo de verdade.

Sendo assim, devemos evitar as deturpações que amputam o final trágico da trama e oferecem como desfecho único dos conflitos a felicidade eterna baseada na anulação do mal. Esse tipo de amputação afetiva de um Conto de Fadas nada mais é do que uma tentativa primária de alterar o sentido transformador da vida, reduzindo-a ao sentido maniqueísta do filtro cor-de-rosa daqueles para quem o mal pertence exclusivamente ao outro e não a si próprio.

Imagem: Dos Contos de Fadas” por Mihnea Turcu em http://1x.com

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