O Que Você Pode Querer…

Abraham Maslow, o criador da Psicologia Humanista e da Hierarquia das Necessidades, que era esperto e também humano, entendeu as particularidades próprias da nossa espécie. Àquelas que nos ajudam a entender o que é que nos motiva. Ele percebeu que as nossas necessidades íam além do substrato fisiológico. Tanto é que ele acreditava que nossa visão de futuro é dependente das necessidades que ainda não conseguimos satisfazer. Ou seja, uma pessoa que tenha sofrido privações econômicas por um longo período de tempo, ou que tenha sido abandonada quando criança, pode “fixar-se” nas Necessidades de Segurança por boa parte da vida e, assim, condicionar todos os seus planos de vida à busca de uma condição segura. É por essa perspectiva que Maslow compreende a neurose. Uma criança negligenciada emocionalmente pode tornar-se um adulto doentiamente ciumento, por exemplo!

A partir do ponto de vista de Maslow, se, teoricamente, os humanos são mais pretensiosos do que os outros animais quanto ao propósito de suas vidas, como alguém que tem comida, amor, saúde, etc., sente-se motivado para continuar se desenvolvendo? Para explicar isso, Maslow apostou numa nova categoria de necessidades humanas, as B-Needs, ou Necessidades de Ser. Essa categoria de necessidades é também conhecida como “motivação para o crescimento” ou “auto-realização”. As pessoas que atingem esse nível foram chamadas por Maslow de “auto-realizadoras”. Especificando:

1- Necessidades de auto-realização: se referem ao contínuo desejo de desenvolver potencialidades, de “ser tudo que podemos ser”. São os desejos, sonhos, fantasias, planos que nos impelem a nos tornarmos tudo aquilo que, efetivamente, podemos ser. Daí o termo auto-realização. Para ser auto-realizador, um ser humano precisa já ter dado conta, minimamente, das outras quatro categorias de necessidades. Caso contrário, não é possível dedicar-se ao desenvolvimento dos potenciais. Com fome, não dá para pensar em “sentido da vida”; sentindo-se solitário – que não é o mesmo que estar sozinho – fica difícil dedicar-se à busca de significado. Para Maslow, numa sociedade tão demandante, materialista e consumista como a que vivemos, poucas pessoas são capazes de sentirem-se satisfeitas em suas necessidades…sempre há uma necessidade para satisfazer! Além disso, como os recursos são limitados sempre haverá alguém que, por mais que se empenhe, não logrará satisfazê-las. É por isso que ele defendia que apenas 2% da população mundial seria auto-realizadora.

Maslow – assim como você está se perguntando agora – também se perguntou o que poderia caracterizar as pessoas auto-realizadoras? Para responder a essa pergunta, ele realizou uma extensa investigação psicológica a partir da biografia de pessoas já mortas e da análise de entrevistas com alguns vivos que, na sua visão, pareciam ter superado a motivação unicamente voltada para a satisfação das necessidades voltadas apenas à sobrevivência. O que Maslow concluiu disso nos ajuda, hoje, a ver que as pessoas auto-realizadoras:

– São “Centradas na realidade”: capazes de distinguir o que é falso e enganoso do que é real e genuíno.

– São “Centradas em problemas”: tratam as dificuldades da vida como problemas que precisam de soluções, e não como frustrações pessoais com as quais devessem se irritar e se conformar.

– Possuem “percepção diferente de meios e fins”: sentem que os fins não necessariamente justificam os meios, mas que os meios podem ser fins em si mesmos. Ou seja, que a jornada pode ser muito mais importante que o destino.

– Apreciam a solidão: sentem-se confortáveis em estar sozinhas.

– Apreciam relações pessoais profundas: poucos amigos próximos e sinceros são preferidos a relações superficiais com muitas pessoas.

– Apreciam a autonomia: gozam, e necessitam, de uma relativa independência das necessidades físicas e sociais.

– Resistem à aculturação: não são suscetíveis à pressão social de serem “bem ajustados” ou de se adequarem ao padrão.

– Têm senso de humor: conseguem fazer piada de si próprios ou da condição humana, sem que isso dependa de divertir-se às custas de alguém.

– Aceitam a si-mesmo e aos outros: o que as predispõem a aceitar o outro como ele é, ao invés de tentar mudá-lo. O mesmo se aplica as próprias atitudes. Se alguma característica pessoal não é prejudicial, elas a aceitam e a reconhecem como uma peculiaridade pessoal. Por outro lado, elas são fortemente motivadas a mudar características negativas próprias que podem ser mudadas.

– Possuem espontaneidade e simplicidade: preferindo ser elas mesmas a serem pretensiosas ou artificiais.

– Têm senso de humildade e respeito: algo que Maslow também chamou de “valores democráticos”, caracterizado pela abertura à diversidade.

– Têm “human kinship“: o que denota um sentimento de fraternidade para com a raça humana, significando interesse social, compaixão e empatia.

– Têm forte senso ético: conotando uma certa dose de espiritualidade sem, necessariamente, estar associado a religiões convencionais.

– Têm admiração: habilidade de ver as coisas, até mesmo as coisas comuns, com entusiasmo e encantamento.

– São criativas: recorrem mais freqüentemente a soluções e visões inventivas e originais.

– Vivem experiências culminantes: as peak experiences são experiências que podem ocorrer a todas as pessoas, mas tendem a ser mais comuns para os auto-realizadores. Nessas experiências, nos percebemos muito pequenos ou muito grandes. Saímos de nós-mesmos e nos sentimos unos com a vida, ou com a natureza, ou com Deus. São experiências que tendem a deixar marcas profundas na nossa vida, conferindo propósito e significado à experiência e, em geral, transformando-nos para melhor. São as chamadas de “experiências místicas”, familiares a muitas tradições religiosas e filosóficas.

Não se iluda! Os auto-realizadores não são perfeitos. Maslow identificou muitas falhas e problemas nessas pessoas ao longo de suas pesquisas. Culpa e ansiedade, perder-se nos próprios pensamentos, bondade excessiva e episódios de crueldade, frieza e mau humor podem ocorrer com certa freqüência entre os auto-realizadores. O diferencial otimizador desse tipo de pessoa é que os seus valores fluem sem esforço, as qualidades aparecem como traços de personalidade, são espontâneas e naturais. Talvez, por isso, parece fácil para eles transcender muitas das dicotomias que são inerentes à percepção da maioria como, por exemplo, as diferenças entre espiritual e físico, ou entre egoísmo e altruísmo, ou entre o masculino e o feminino. Nesse sentido os auto-realizadores se aproximam muito da definição de criatividade proposta pela Psicologia Positiva.

Pessoas auto-realizadoras têm necessidades especiais, as metanecessidades, ou B-needs, que é o que realmente as motiva. Eis o que elas precisam em suas vidas para serem felizes: Verdade, Beleza, Unidade, Completude, Transcendência de opostos, Singularidade, Vitalidade, Perfeição, Justiça, Ordem, Simplicidade, Riqueza, Ausência de esforço, Auto-suficiência e Sentido.

Ok! Já sei o que você está pensando – todo mundo precisa dessas coisas. De fato. Mas se você estiver endividado, com fome, com dor, ou numa rua escura, sozinho, num bairro perigoso, no meio da noite, muito dificilmente você vai priorizar alguma dessas metanecessidades. Esse é o ponto! Maslow acreditava que poucas pessoas estavam interessadas nesses valores. Não que as outras pessoas – a maioria da humanidade – sejam más. Mas, talvez, elas ainda não tenham conseguido atender às suas necessidades básicas, ou, apenas estejam focadas demais nas demandas fisiológicas. E veja bem, esse aprisionamento pode ocorrer mesmo quando a pessoa tem as condições de atender aos seus anseios materiais, seja porque estão “animalizadas” por traumas e experiências ruins, ou por estarem demasiadamente submetidas às demandas do grupo social. É o caso, por exemplo, de uma pessoa rica que investe todo o seu tempo e energia em sexo, comida, compras ou festas, etc. Do ponto de vista da Hierarquia das Necessidades, não importa se a sua necessidade premente é de feijão com arroz ou de blinis com caviar; se a necessidade que te motiva na maior parte do tempo é comer, então sua vida e escolhas são guiadas por uma necessidade fisiológica, básica e inferior.

Quando o auto-realizador não consegue satisfazer as metanecessidades, ele desenvolve metapatologias. De forma resumida, ser forçado a viver sem esses valores, faz com que a pessoa auto-realizadora desenvolva depressão, falta de esperança, desgosto, alienação e um certo grau de cinismo.

É possível que o próprio Maslow fosse uma pessoa auto-realizadora, e que durante boa parte da vida não pode satisfazer suas metanecessidades. Digo isso porque, como psicóloga, acredito que temos curiosidade para compreender aquilo que diz respeito a nossa própria experiência de vida. Da mesma forma, somos mais competentes para entender a dor que também sentimos. No mais, os relatos do próprio Maslow me dão a sensação de que ele se via como uma alma aprisionada, um espírito habitando um mundo muito menor do que as suas potencialidades. Veja o que ele disse sobre a própria infância:

“Fui um garoto tremendamente infeliz… Minha família era miserável e minha mãe era uma criatura horrível… Cresci dentro de bibliotecas e sem amigos… Com a infância que tive, é de se surpreender que eu não tenha me tornado um psicótico.”

Imagem: “Crianças do Sol” por Fran Moreno em http://1x.com

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