O Que Você Quer?

Abraham Maslow foi um psicólogo norte-americano que viveu no século XX. Muito embora Maslow tenha empenhado grande parte de sua energia para o desenvolvimento e o reconhecimento da Psicologia Humanista, ele quase sempre é lembrado pela grande contribuição que legou ao estudo psicológico dos mecanismos que motivam o comportamento humano.

Quando pesquisava o comportamento de macacos, no início de sua carreira, Maslow percebeu que algumas necessidades são mais prioritárias do que outras. De forma bem sucinta: as necessidades referentes às demandas típicas do corpo como a fome, a sede, a cessação da dor, etc., tendem a ocupar nossa mente em primeiro lugar. Não há como negar, antes de qualquer pretensão transcendente, somos animais, habitamos um corpo material que se não for adequadamente nutrido e protegido, desfalecerá. O fato é que a sede tem prioridade sobre a fome, pois a falta de água mata mais rápido do que a de comida!…E assim sucessivamente.

Em função dessa característica, de que uma necessidade exerce primazia sobre outras, Maslow criou uma Hierarquia de Necessidades, na qual definiu cinco níveis de necessidades:

1- Necessidades fisiológicas: ar, água, comida, abrigo, evitamento/cessação da dor e sexo. Também se inserem nessa categoria as necessidade de ter atividades, de descansar, de dormir, de livrar-se de substâncias tóxicas ou inúteis como urina e fezes, por exemplo.

2- Necessidades de segurança e estabilidade: garantir que a satisfação das necessidades fisiológicas não se interrompam. Assim, desenvolve-se a necessidade de ter uma estrutura, alguma ordem e alguns limites. Do ponto de vista negativo, a fome e a sede podem não ser mais as preocupações hegemônicas mas sim o medo, a insegurança e a ansiedade. Quando nos encontramos nesse estágio da hierarquia, descobrimos a urgência de ter um lar, um emprego, um plano de saúde, um plano de aposentadoria, uma poupança…

3- Necessidades de amor e pertencimento: sentir-se acolhido, protegido e integrado a um grupo com o qual possa se identificar e ser identificado. Quando se consegue suprir, de modo geral, as necessidade fisiológicas e de segurança, surge um terceiro nível. Começamos a ter necessidades essencialmente afetivas, associadas ao contato íntimo com outros seres vivos, especialmente humanos. Amigos, namorado(a), filhos. Além disso, todo tipo de vínculo social que nos dê a sensação de pertencimento, como o encontrado na comunidade, igreja, família, etc., passa a prevalecer. O lado negativo disso? Bom, podemos nos tornar suscetíveis à solidão e ao julgamento dos outros.

4- Necessidades de estima: sentir-se reconhecido e valorizado pelos seus pares, e por você mesmo, em função de suas características, capacidades e recursos pessoais. Maslow identificou duas versões das necessidades de estima: uma inferior e uma superior. A inferior é o desejo de ter o respeito dos outros, a necessidade de status, fama, glória, reconhecimento, atenção, reputação, apreciação, dignidade e mesmo dominância. A versão superior envolve a necessidade de auto-respeito, incluindo sentimentos como confiança, competência, capacidade de realização, mestria, independência e liberdade. A questão da superioridade de uma forma de estima sobre a outra é que o auto-respeito é muito mais difícil de perder, ou seja, uma vez que essa necessidade é atendida, sua força motivadora é muito mais constante e efetiva do que a motivação dependente da reação dos outros. Não satisfazer essas necessidades produz baixa auto-estima e os complexos de inferioridade.

Esses quatro níveis da Hierarquia das Necessidades, citados até agora, fazem parte das D-Needs: Deficit Needs, melhor dizendo: necessidades geradas pela falta. Isso significa que, nesses níveis, tendemos a nos sentirmos motivados a fazer algo quando nos falta os elementos adequados para satisfazer uma dessas quatro categorias de necessidade.

Maslow vê esses quatro primeiros níveis como necessidades de sobrevivência, presentes não apenas nos seres humanos mas em outros animais. Até mesmo o amor e a estima, que parecem tão particulares à nossa espécie, são necessários à manutenção da saúde, e isso pode ser percebido em outros animais que desenvolvem depressão ou ansiedade em função de abandono ou maus tratos. Tanto é que, por exemplo, quando não conseguimos satisfazer as necessidades superiores podemos “regredir”, focando nossa atenção na satisfação das necessidades inferiores. Por exemplo: o rompimento de um relacionamento, o desemprego, a reprovação em uma prova, podem desencadear sentimentos de desamparo, nos levando a buscar compensações na comida ou no sexo. Essa busca de compensação – baseada no redirecionamento do foco para as necessidades inferiores quando as superiores não são satisfeitas – ocorrem também no nível coletivo. Quanto mais pobre for um país menos as pessoas terão acesso a lazer, educação, etc., e existirá uma maior demanda social por um dirigente que prometa apenas acabar com a fome.

Na visão de Maslow, todos nós temos essas necessidades implantadas geneticamente, como se fossem instintivas. Contudo, não somos apenas animais atrelados à mera sobrevivência, somos animais que aspiram à divindade. Nossa percepção do mundo, e de nós mesmos, é filtrada por um complexo sistema neuronal habilitado com a impressionante capacidade de abstrair, logo, simbolizar. A imagem sensorial que captamos do mundo é (re)significada pelo nosso cérebro, ou seja, a imagem do mundo externo não resulta diretamente do estímulo coletado pelos sentidos, mas é construída mediante os processos de assimilação e diferenciação. A assimilação e a diferenciação são processos ancorados na capacidade do cérebro de processar e interpretar os dados sensoriais, o que é feito, em grande parte, pela via da comparação entre as informações coletadas. Comparar, por sua vez, implica a associação entre experiências: leia-se sentimentos, pensamentos e impressões anteriormente assimilados. Assim, a percepção humana é atravessada por valores subjetivos, próprios da vivência de cada um de nós.

Resumindo: as imagens com as quais representamos em nossa mente o mundo vivido – até mesmo em seus aspectos mais básicos como beber e comer – são construções subjetivas por excelência, muito embora se originem por meio da Experiência Sensorial. Portanto, apesar de num primeiro momento priorizarmos a manutenção do corpo físico – a sobrevivência –, o conjunto das necessidades humanas é mais ampliado e mais complexo do que aquele que motiva um gato, um macaco ou um peixinho dourado! Uma vez que tenhamos satisfeito as D-Needs, as quatro categorias de necessidades básicas que são subsidiadas pela exigência de sobreviver, elas deixam de gerar a motivação necessária para que possamos nos mexer.

Clique aqui e leia mais sobre as Necessidades Humanas para além da sobrevivência (B-Needs).

Imagem: “Sementes Hipnóticas” por Jörg Hubrich em http://1x.com

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