Pilobolus e a Criação de Imagens Pela Mente

O maior problema que os pesquisadores da percepção visual encontram ao estudá-la diz respeito ao fato de que: aquilo que vemos não é uma mera tradução do estímulo sensorial detectado pela retina. A explicação da percepção visual constitui um desafio para os cientistas. Além de todo o aparato fisiológico e neurológico envolvidos no processo há, também, o próprio papel da visão na interação do organismo com o meio. A percepção por meio de imagens configura um ponto de contato entre o mundo físico e o mundo mental. Ou seja, a percepção de imagens funciona como uma interface, por meio da qual a mente interage com o meio, interpreta e confere significado ao que é material.

Os conhecimentos científicos sobre a percepção de imagens, produzidos até o presente momento, são capazes de explicar todo o percurso físico do estímulo luminoso – do globo ocular até o cérebro – mas não pode assegurar como tal estimulação resulta na formação de imagens. O fascinante é que a imagem se forma na mente, e até o momento não sabemos até que ponto o cérebro contém a mente – se é que a contém! Quando falamos em mente, é válido ressaltar que há diferentes formas de entender a mesma. Diferentes pesquisadores e teóricos (filósofos, psicólogos, neurocientistas, etc.) debatem e apresentam suas teorias sobre o que seria a mente. Muitos entendem que a mente é o próprio cérebro. Outros alegam que a mente é apenas uma abstração desenvolvida pelo cérebro para possibilitar uma melhor adaptação do organismo ao meio.

O fato é que a mente é a protagonista na formação de imagens, tanto é que somos capazes de “ver” com os olhos fechados. Nos sonhos, na imaginação, produzimos imagens. Há mesmo aqueles, cuja capacidade imaginativa é tão fértil, que são capazes de criar imagens que nunca foram vistas pelo olho humano, muito embora utilizem-se de refrências visuais conhecidas – como é o caso de alguns autores de ficção e literatura fantástica, e de pintores, em especial os surrealistas. O enigma da formação de imagens pela mente nos leva à conclusão de que a percepção visual é, em grande parte, determinada pela capacidade de uma pessoa em estabelecer relações entre os estímulos recebidos e o contexto no qual ele ocorre. Melhor dizendo, a experiência individual – aquilo que sabemos, conhecemos, sentimos, acreditamos, etc. – delineia as imagens que somos capazes de produzir em nossa mente.

A nossa visão, ou melhor, as imagens que são produzidas pela mente seriam uma forma de Inferência Inconsciente. Isso é o que alega Hermann von Helmholtz, frequentemente citado como o fundador do estudo científico da percepção visual. Para Helmholtz, a visão deriva de uma interpretação provável a partir de dados incompletos. Ou seja, os estímulos sensoriais detectados pelo sistema visual não contém todas as informações necessárias para a construção de imagens. É o repertório individual, a experiência de cada um, que organiza essas informações conferindo-lhes significado. Ao dar significado às informações, localizando-as e identificando-as, a mente produz a imagem correspondente.

É por isso que você consegue ver árvores, animais, casas, etc., no vídeo do comercial da Wolkswagen desenvolvido pelo Grupo de Dança Piloboulos que postei acima. As casas não estão lá, muito menos os animais e as árvores, mas, a partir do repertório visual que você já tem, sua mente procura referências nas quais os estímulos luminosos emitidos pelo vídeo possam ser encaixados e reconhecidos. Na visão de Helmholtz, os dados incompletos de linhas, relevos, depressões, luz, sombra e movimento capturados pelos seus olhos, são interpretados probabilisticamente. A sua mente busca entre as interpretações prováveis a que mais se adequaria ao conjunto dos estímulos visuais recebidos, e assim cria as imagens que você vê no vídeo.

A criação de imagens pela mente, e todo o aparato psicofisiológico envolvido nesse processo, é um ramo de estudos no qual a Psicologia foi pioneira, em especial com a Psicologia da Gestalt. A Gestalt aparece como um exemplo da aplicação da Fenomenologia na psicologia – a Fenomenologia pressupõe que todos os objetos são fenômenos, que aparecem para uma consciência. Sendo assim, não existe consciência pura nem objetos isolados em si. A Psicologia da Gestalt surgiu no início do século XX, na Alemanha. Um grupo de pesquisadores da área da psicologia da percepção – Ehrenfels, Koffka, Wertheimer e Köhler, entre outros – foram os responsáveis pela criação dessa escola psicológica.

O nome Gestalt resume a maneira como esses pesquisadores tratavam a percepção visual. Gestalt, em alemão, significa figura, configuração, forma. Para os psicólogos gestaltistas, os fenômenos percebidos visualmente são indissociáveis do conjunto em que se inserem. A nossa percepção está intrinsecamente ligada aos fenômenos percebidos e à nossa estrutura mental. Isso explicaria, por exemplo, nossa capacidade/tendência de agrupar os elementos presentes no vídeo com o Grupo Piloboulos (linhas, relevos, depressões, luz, sombra e movimento), organizando-os mentalmente numa imagem que seja familiar, que tenha significado para nós. O impacto da Psicologia da Gestalt no mundo científico foi forte o bastante para que hipóteses levantadas por essa abordagem, em trabalhos das décadas de 1930/1940, são estudadas pelos cientistas da visão ainda ahoje.

Dentre as hipóteses levantadas pela Gestalt, as Leis de Organização são as mais estudadas para se tentar compreender como as pessoas percebem componentes visuais como padrões organizados ou conjuntos, ao invés de suas partes componentes. Por exemplo, essas leis podem nos ajudar a entender o que vemos no vídeo do Grupo Piloboulos. De forma resumida, as Leis de Organização da Gestalt são:

Proximidade: Os objetos mais próximos entre si são percebidos como grupos independentes dos mais distantes.

Similaridade ou Semelhança: Objetos similares em forma, tamanho ou cor são mais facilmente interpretados como um grupo.

Fechamento: Nossos cérebros adicionam componentes que faltam para interpretar uma figura parcial como um todo.

Simetria: Elementos simétricos são mais facilmente agrupados em conjuntos que os não simétricos.

Destino comum: Itens movendo-se no mesmo sentido são mais facilmente agrupados entre si.

Continuidade: Uma vez que um padrão é formado, é mais provável que ele se mantenha, mesmo que seus componentes sejam redistribuídos.

Interessante frisar que estudos experimentais demonstraram que certas diferenças individuais podem afetar a percepção visual. Assim, diferentes níveis de acuidade visual e habilidade espacial podem influenciar a interpretação das coisas vistas. O mesmo ocorre em relação a fatores como crenças, atitudes, valores, personalidade, atividade profissional, estilos cognitivos, idade, sexo, motivações, etc.

Veja mais vídeos do Grupo Pilobolus AQUI

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