A Teoria do Fluxo: Abertura Para a Felicidade no Dia-a-Dia

A felicidade – ou pelo menos a busca pelo entendimento de sua natureza –  é um tema que vem ocupando a mente de inúmeros pensadores ao longo da história humana no campo da Filosofia e tem encontrado nas últimas décadas um espaço singular nas pesquisas acadêmicas de maior afinidade com as Ciências Sociais. Nos Estados Unidos da América e na Grã Bretanha, mais acentuadamente que em outros centros, os temas em torno da felicidade têm proliferado no meio acadêmico de maneira progressiva, e isso pode ser quantificado pelo volume de livros e artigos sobre o tema publicados a partir do final da década de 90. Esse recente crescimento na produção acadêmica sobre a felicidade, ainda pode ser constatado pela criação de um periódico totalmente dedicado ao tema: o Journal of Happiness Studies.

Muito do interesse inicial pela felicidade surgido na década de 90 está relacionado a área econômica, ou, melhor dizendo, às discrepâncias percebidas entre aumento de renda – melhora da qualidade de vida em termos de consumo e acesso a benefícios mensuráveis objetivamente – e a crescente incidência de doenças de expressão afetiva como a depressão e àquelas ligadas ao stress e a ansiedade. Fatores como violência, instabilidade financeira, autoritarismo e democracia também aparecem como elementos desafiadores quando pretende-se entender os benefícios operados pelo crescimento econômico e suas possíveis correlações com a melhora global da qualidade de vida.

Por um lado, poderíamos tomar tal indicativo como um possível argumento em favor da idéia de que o crescente interesse pela felicidade poderia ser um sintoma de que, para a sociedade atual, a felicidade apresenta-se mais como um problema do que como uma experiência freqüente. Por outro lado, o tipo de interesse pela felicidade que tem se destacado nas pesquisas psicológicas mais recentes refere-se à experiência humana com o cotidiano, seja nas suas relações ordinárias com o dinheiro, o trabalho ou a interação afetiva. Aspectos subjetivos e objetivos têm servido como objeto de estudo para a investigação da experiência da felicidade, pois, servem como sinalizadores da dinâmica cotidiana que constitui a vida daqueles que são vistos como pessoas saudáveis e “normais” dentro dos parâmetros usuais da investigação psicológica. Nesse sentido, a busca por informações que ajudem a compreender e a identificar indícios de uma vida plena no âmbito da vida diária tem contribuído para o incremento de pesquisas em Psicologia sobre a vivência de felicidade em suas mais diversas expressões, particularmente entre os defensores da Psicologia Positiva, que é o que podemos ver no trabalho de Mihaly Csikszentmihalyi.

Csikszentmihalyi em sua obra “A Descoberta do Fluxo” (1999) descreve a experiência de viver de maneira plena a partir do “não desperdício de tempo e potencial, expressando a própria individualidade, mas participando intimamente da complexidade do cosmo” . Apoiando-se em descobertas da Psicologia Contemporânea e em suas próprias pesquisas, Mihaly aponta maneiras de se envolver plenamente com a vida, que ele define como sendo aquilo que experimentamos da manhã até a noite, sete dias por semana, durante o tempo em que vivemos. É esse envolvimento com a vida cotidiana que na opinião do autor poderia favorecer uma “boa vida”, e seria também uma das chaves para a Felicidade. Contudo, esse envolvimento com o cotidiano depende de ter-se uma boa noção das forças que formam aquilo que se pode experimentar, que são manifestas através dos limites do que se pode fazer e sentir, a medida que atingi-se a compreensão da realidade cotidiana que não pode ser ignorada caso deseje-se atingir a excelência.

Mihalyi ainda propõe uma interessante contraposição quanto as possibilidades de se experienciar a vida cotidiana. Por um lado ele reconhece as similaridades entre a maneira como se pode experienciar a vida, independentemente da época e cultura, em decorrência da organização do sistema nervoso humano que permite apenas o processamento de uma pequena quantidade de informação a cada vez. Segundo esse autor esse arranjo biológico/fisiológico que impõe limitações na atenção, determina a quantidade de energia psíquica que possuímos para experimentar o mundo e por essa razão oferecem “um roteiro inflexível para nossas vidas”. Por outro lado, ele não desconhece as diferenças quanto às oportunidades de experienciar a vida decorrentes da inserção social do sujeito. Diz o autor, “Assim, embora os principais parâmetros da vida estejam fixados, e ninguém possa evitar o repouso, a alimentação, a interação, e pelo menos algum trabalho, a humanidade está dividida em categorias sociais que determinam em grande parte o conteúdo específico da experiência”. (Csikszentmihalyi, 1999, p. 11).

Ainda, de acordo com a teoria do Fluxo, aquilo que aparentemente poderia propiciar a vivência de uma vida feliz parece estar disponível, na maior parte das vezes, para a maioria das pessoas. Sendo assim, é lícito perguntar-se por quê nem todas as pessoas se sentem felizes com suas vidas?

Excluindo-se as condições de privação e miséria, há indícios de que a felicidade é algo que se pode atingir com recursos inteiramente pessoais, ou seja, a felicidade seria uma conquista que dependeria muito mais do sujeito e estaria relacionada à questão da individualidade. Csikszentmihalyi descreve a vida como sendo em parte determinada pelos processos químicos do corpo, pela interação biológica entre os órgãos, pelas íntimas correntes elétricas que circulam entre as sinapses cerebrais, e pela organização da informação que a cultura impõe sobre nossa mente. Mas, o autor também reconhece e ressalta a importância da experiência individual como capaz de dar significado à vida, escreve ele: “…a qualidade real da vida – o que fazemos, e como nos sentimos quanto a isso – será determinado pelos nossos pensamentos e pelas nossas emoções; pelas interpretações que damos aos processos químicos, biológicos e sociais” (p. 23).

Ao tentar encontrar os fundamentos da experiência da felicidade na vida de alguém a Psicologia não deve se furtar de levar em consideração a característica de flexibilidade presente nos indivíduos, e que é expressa através da consciência individual que pode romper com as determinações da condição humana comum ditadas pelas categorias sociais e culturais e pelo acaso. Do contrário, qualquer tentativa de reflexão sobre as possíveis maneiras de tornar a vida dos indivíduos excelente seriam inúteis. Csikszentmihalyi conclui que, “Felizmente, existem oportunidades suficientes para a iniciativa pessoal e escolha para fazer uma diferença real. E aqueles que acreditam nisso são os que têm mais chance de se libertar dos grilhões do destino”

Csikszentmihalyi trabalha com o conceito de Personalidade Autotélica, e promove uma necessária distinção entre sucesso e realização. Esta vem de dentro, e se orienta para um fim que o próprio indivíduo se coloca. Daí a palavra autotélico, significando um fim (telos) que o próprio indivíduo se impõe. O sucesso, ao contrário, se orienta “para fora”, para aquilo que julgamos irá impressionar os outros. Essas reflexões dão a teoria de Csikszentmihalyi uma dimensão existencial e filosófica incomum. O ponto focal de sua teoria sobre a felicidade humana encontra-se na idéia do fluxo – flow – que poderia ser definido como um estado subjetivo em que o sujeito experimenta uma entrega total a atividade desempenhada, no sentido de que a pessoa percebe que tanto os desafios numa dada situação quanto suas capacidades são elevados, ou seja, no estado de fluxo há um envolvimento tão intenso com a atividade, que a realização da atividade em si promove grande satisfação.

As pessoas com personalidades autotélicas seriam caracterizadas por usufruírem com maior freqüência dos estados de fluxo nas mais diversas atividades da vida cotidiana. As pessoas autotélicas precisam de poucos bens materiais, pouco entretenimento, pouco conforto, poder ou fama, sendo mais autônomas e independentes porque não se sentem ameaçadas ou seduzidas por recompensas externas. Ao mesmo tempo se envolvem mais com tudo ao seu redor, porque estão totalmente imersas na corrente da vida. Curiosamente, resultados de estudos indicam que pessoas autotélicas apesar de demonstrarem usufruir mais e melhor das situações cotidianas, não reportam maior felicidade ou satisfação que as outras pessoas.

Csikszentmihalyi levanta uma interessante questão em relação a paridade existente na avaliação da própria felicidade entre pessoas autotélicas e não autotélicas. O que esse autor propõe é que a felicidade declarada não é boa indicadora da qualidade de vida da pessoa, ele postula que algumas pessoas dizem que estão “felizes” mesmo quando não gostam de seus empregos, quando a vida doméstica é inexistente, quando passam o tempo todo em atividades sem significado. Isso seria ocasionado por uma tendência humana para evitar a tristeza que possibilitaria a insistência em prosseguir com uma vida nem sempre satisfatória. Sendo assim, as pessoas autotélicas podem não ser necessariamente felizes mas envolvem-se em tarefas mais complexas – ou sentem-se mais envolvidas com as atividades do dia-a-dia – o que contribui para que se sintam melhores consigo mesmas. Segundo Csikszentmihalyi, ter uma vida excelente pode não ser o bastante para ser feliz. O que importa é ser feliz enquanto estamos fazendo coisas que ampliam nossas habilidades, que nos ajudam a crescer e a realizar nosso potencial.

Imagem: “Dançando Pela Manhã” por Bengt Carlsson, em 1x.com

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s