O Seu Lado B

Costumamos negar e empurrar nossos aspectos negativos para o fundo da consciência. Reconhecê-los e aceitá-los como parte de nós, porém, pode ser transformador

*Por Angela Tessicini
Revista Vida Natural e Equilíbrio, Julho de 2010

Quando tomamos consciência de nosso lado B, o ego se reorganiza, abrindo novas possibilidades para a vida.

Lembra da última vez em que, durante uma crise de ansiedade, você “atacou” a geladeira pondo a perder um longo regime? Ou da ocasião em que aquela sua amiga calminha, que ninguém nunca consegue tirar do sério, bebeu um pouquinho além da conta e acabou por perder as estribeiras com uma pessoa que não tinha nada a ver com a situação?

Reações desse tipo, inesperadas e destrutivas, são fruto dos nossos sentimentos reprimidos. Quando não gostamos de alguns aspectos de nossa personalidade – batizados pelo psicólogo suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) de “sombra” – fingimos que eles não existem e os deixamos bem trancados lá no porão da consciência. Mas como ninguém gosta de ser ignorado, na primeira chance esses lados ocultos irrompem sob forma de reações exageradas, criando situações muitas vezes embaraçosas.

“A sombra representa as partes de nós que não aceitamos, a pessoa que preferiríamos não ser”, explica o psicoterapeuta Nilton Kamigauti, de São Paulo. Nela habitam tanto sentimentos “negativos” como medo, raiva, ciúme, entre outros, como também coisas boas, mas reprimidas, por exemplo, os talentos que, por algum motivo, deixamos de desenvolver. “É nela que guardamos nossos potenciais”, diz.

Revelando a escuridão

Ao pararmos de julgar de forma negativa esses aspectos da personalidade, podemos achar uma maneira de usá-los a nosso favor. “A raiva que sentimos pode ser usada para impedirmos que nos explorem. O egoísmo pode ser redimensionado para ajudar a pensar menos no bem-estar dos outros e um pouco mais no nosso”, explica a psicóloga Angelita Corrêa Scardua, mestre em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP). Apesar de não ser nada fácil admitir essa face oculta – afinal, seria como expor nossa vida secreta – aceitar que amor e ódio, alegria e tristeza, criatividade e espírito de destruição estão presentes em todos nós é acolher tanto o próprio lado luminoso quanto o lado sombrio, ou seja, nossa essência. Quem opta por ser sempre “bonzinho”, revelando apenas a face social de sua personalidade, vive pela metade, já que a natureza do homem é dual. E torna-se uma pessoa eternamente insatisfeita, que critica tudo e todos e está sempre botando defeito nos outros. Quem não conhece alguém assim?

Como reconhecer a sombra

Ela está aí, dentro de você. Só precisa de um olhar mais profundo:

Observe o que o irrita profundamente nos outros. Quase sempre se trata de algum aspecto seu que você preferiu esconder na sombra. Isso acontece porque somos programados para projetar em outras pessoas as qualidades que não conseguimos ver em nós: é um mecanismo de defesa involuntário.

Examine seus comportamentos repetitivos, principalmente os que costumam sabotar seus projetos. Todo comportamento habitual se origina de experiências do passado que nos levaram a criar interpretações de nós mesmos.

Teatro de sombras

Desde o nascimento, aprendemos que alguns comportamentos são apreciados enquanto outros são criticados. Como vivemos em uma sociedade que aceita o bem e recrimina o mal, logo passamos a atuar um papel de “bonzinhos” e, para corresponder a ele, “assumimos compromissos e obrigações que acabam por nos sobrecarregar, deixando-nos irritados e com a sensação de que estamos sendo explorados”, explica Angelita Scardua.

O problema surge quando, em vez de enfrentarmos essas situações de peito aberto, procurando encontrar soluções produtivas para o incômodo que se instalou dentro de nós, optamos por reprimi-las e fazer de conta que está tudo bem: uma hora, inevitavelmente, explodimos.

O psicanalista americano Robert Johnson, no livro Magia Interior (editora Mercuryo), conta que a cada palestra ou nova obra em que trabalha, precisa ser tão disciplinado e gentil o tempo todo que inevitavelmente o outro lado da balança é ativado. “Se não revestir esse desequilíbrio rapidamente, logo serei rude com alguém”, confessa.

Nesses casos, é necessário satisfazer a sombra, mas de uma maneira inteligente e que não prejudique ninguém. Vale fazer rituais simbólicos, escrever histórias de horror ou trancar-se no banheiro para soltar alguns palavrões. Afinal, nossa mente não distingue o real do imaginário, e esses pequenos truques nos eximem de descontarmos o nervosismo em cima dos outros.

Faça-se a luz!

Ao reconhecer algum aspecto da sombra, é importante procurar aceitá-lo. Se você sempre foi do tipo desapegado, que não liga para dinheiro e de repente se pega com inveja do colega que comprou um carro novo, não tente reprimir nem julgar sua ambição. Reconheça que deseja coisas caras e que isso não o torna melhor ou pior do que as outras pessoas. Faça uma lista e procure entender o que você perde e o que ganha ao ser desapegado e ao ser ambicioso, e defina em quais áreas da vida você estaria mais disposto a usar sua ambição. Assista a filmes com essa temática e analise os personagens. Esse exercício pode ser aplicado para qualquer aspecto da sombra. Ele ajuda a trazer mais luz em sua vida. E, com ela, uma paz de espírito que não tem preço.

Imagem: “Sombras” por …maybe…, em Flickr

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