Aquele brinquedo preferido pode virar lição de solidariedade

*Por Elaine Vieira: Jornal A Gazeta/ES – 04/07/2010

Seu filho está crescendo e a casa ficando cheia de brinquedos? Aqueles que já não cabem mais no baú, lotam os armários ou começam a se espalhar pela sala? Talvez esteja na hora de ele aprender um pouco sobre desapego. E cabe aos pais falar sobre generosidade, sobre a realidade de crianças que não têm com o que brincar, e sobre a necessidade de seguir em frente, abandonando os brinquedos de bebê para encarar novos desafios.

Difícil? Um filme, em cartaz nos cinemas, também pode ajudar você a formar um cidadão mais solidário.

Em Toy Story 3, os brinquedos protagonistas vivem uma situação delicada. Seu dono, Andy, agora com 17 anos, está indo para a faculdade e se vê obrigado a dar um destino para aquela turma que o acompanhou durante toda a infância, mas que está encaixotada no fundo do armário. Mesmo com o interesse voltado para garotas e a preparação para a universidade, Andy não consegue se desfazer. E depois de dois filmes brigando pela atenção do dono, os brinquedos também não aceitam trocar de casa assim tão fácil.

Aprendizado

E por que é tão difícil abrir mão de um brinquedo? Eles são o primeiro contato que temos com o mundo real, como explica a psicóloga especialista em Desenvolvimento Adulto e Felicidade, Angelita Corrêa Scárdua. “São os brinquedos que ajudam a formar nossa percepção do mundo e de nós mesmos. É através deles que nós começamos a entender as relações sociais, fora do contexto único da família. Por isso eles são tão significativos”, afirma.

Mas abrir mão deles também faz parte do desenvolvimento. “O ideal é que a pessoa aproveite integralmente cada fase da vida. O processo de se desfazer dos brinquedos também simboliza uma passagem para a próxima fase”, destaca Angelita. Ela também dá outra ideia: ao invés de guardar um brinquedo para lembrar como foi a sua infância, que tal doá-lo e fazer a infância de outra criança igualmente inesquecível? “Fazer os outros felizes também nos faz feliz”, lembra Angelita. E o Andy? O que será que ele resolveu fazer com a caixa de brinquedos? Neste caso, o jeito é ver o filme.

Quer doar e não sabe para quem?

A Disney criou um site que mostra quais os pontos de coleta de brinquedos mais próximos da sua casa. Acesse

Guardou? Agora mostre para todo mundo

Guardar um ou outro brinquedo que tenha valor sentimental para você não é também o fim do mundo, mesmo se você já passou dos 18 anos. “O que importa é o tipo de emoção que o brinquedo guardado suscita. Se a pessoa chora, fica depressiva, o melhor a fazer é doar o brinquedo”, opina a psicóloga Angelita Scárdua.

E também não vale deixar ele escondido. “Se a ideia é manter uma lembrança, a melhor forma é transformar o antigo brinquedo em bibelô, um souvenir. Dá para mandar fazer uma caixa de acrílico, por exemplo, e colocar numa prateleira, para todo mundo ver”, orienta a especialista.

Angelita destaca que, normalmente, os brinquedos são guardados por quatro motivos. Ele pode ter servido como consolo em um momento de solidão ou tristeza, que ainda está mal-resolvido internamente; pode ter marcado uma parte positiva da vida, ou um momento em que a pessoa se sentiu plenamente realizada; lembrar alguém querido; ou ainda significar uma resistência em abrir mão da infância, vista como a melhor fase da vida.

“Na verdade, isso não existe, porque a infância é tão conflituosa como a idade adulta. E esse apego também tem que ser trabalhado, para que o passado se torne uma lição, e não um momento a ser revivido a cada abertura no armário”.

Brincar feito criança pode fazer muito bem

Não é porque você cresceu que precisa parar de brincar. A participação de um adulto em jogos e brincadeiras de qualquer tipo faz bem para todo mundo. “Brincar junto ajuda a reforçar laços afetivos e mostra à criança o quanto a rotina dela é valorizada por pais, avós, tios ou amigos da família. Já para o adulto, é um momento único de descontração, de se permitir fazer coisas que só uma criança faria, como não sentir vergonha de cair ou pagar um mico”, esclarece a psicóloga Angelita Corrêa Scárdua.

Outra grande vantagem de brincar junto com as crianças é poder ensiná-las, por meio do exemplo, a cuidar e guardar bem suas coisas depois de usar. “Vendo os adultos fazerem, o cuidado vai virar um hábito natural das crianças”, explica a pedagoga Rosário Souza.

Evolução

Brincando junto, você também mostra que há brinquedos específicos para cada fase do desenvolvimento da criança, e pode oferecer outros desafios. “Assim ela vai entender mais fácil que, como ela, os brinquedos também devem evoluir, saindo da vida dela, mas continuando a fazer parte da vida de outra criança”, ensina Rosário, dando mais uma dica para facilitar a doação de brinquedos.

Ela vai casar e as bonecas vão para a nova casa

Ela simplesmente não consegue. Lá estão, décadas depois, as bonequinhas da infância e até um joguinho – que as crianças de hoje nem devem saber como funciona –, no quarto da fotógrafa Vanessa Silva de Oliveira, 27 anos. Seriam bem mais difícil, assume, se a mãe não tivesse doado boa parte às escondidas. Orgulhosa da coleção, Vanessa queria que as bonecas estivessem todas espalhadas em prateleiras, mas a alergia a obrigou a fechá-las em sacos plásticos no fundo do armário. Mas mesmo lá, ela diz que as bonecas têm algum papel. “Elas acabam servindo de ponto de partida para gostosas conversas em família sobre a infância”, diverte-se. E garante: “Vou casar no final do ano, e as bonecas vão junto”.

Ele quer mostrar para os filhos como brincava

Uma latinha e uma caixa de sapatos escondem um verdadeiro tesouro para o analista de TI Wesley Pereira da Silva, 27 anos. São bonequinhos do Comandos em Ação, dos Cavaleiros do Zodíaco e até de um obscuro seriado chamado Winspector, devidamente acompanhados das “armaduras” – feitas pela mãe de Wesley – e até um paraquedas improvisado. Os tesouros estão sempre à mão e servem até para distrair sobrinhos e primos, à exceção dos muito pequenos. “Já perdi uma coleção inteira de carrinhos assim. Sumiu tudo”, resigna-se. Apesar do xodó pelos brinquedos de infância, Wesley garante que está guardando para os filhos, que ainda não têm data para chegar. “Quando eu era pequeno, gostei de ver os brinquedos da minha mãe e imaginar como ela se divertia. Meus filhos também vão poder matar essa curiosidade. E aposto que vão gostar dos bonecos, mesmo sendo antigos e sem articulação dos braços”, sonha.

Imagem: “Fim da Infância” por Reza Vaezpour, em 1x.com

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