A Casa e Seu Significado: Refúgio Para o Bem-Estar Físico e Emocional

Do ponto de vista simbólico, a casa representa a nossa psiquê, ou seja, as várias instâncias da nossa mente consciente e inconsciente. Nesse sentido, a casa, assim como a mente, expressa o conteúdo cogntivo e emocional que nos constitui como indivíduos distintos do grupo. Psicologicamente falando, isso faz da casa um repositório das nossas vivências físicas, afetivas e intelectuais.

A nossa memória, nossa história de vida, encontra no espaço doméstico um lugar favorável de expressão. Em função disso, a forma como organizamos nossa casa pode dizer muito sobre como nos sentimos, como pensamos e como atuamos no mundo. A casa seria quase um espelho da percepção que temos de nós e do mundo num determinado momento da nossa vida. Ao mesmo tempo, a casa oferece pistas valiosas dos valores e crenças que nos caracterizam num nível mais profundo, melhor dizendo, o espaço que habitamos espelha tanto nossos comportamentos atuais quanto traços mais permanentes da nossa personalidade.

Por ser parte tão significativa daquilo que nos distingue dos demais – nossas crenças, atitudes e valores – a casa pode oferecer um espaço de reconhecimento da nossa identidade, em especial para nós mesmos. A rua, a escola, os ambientes de trabalho e de lazer, de forma geral, são pensados para acolher a diversidade de tipos humanos. Nos espaços públicos pode ser favorecida a distinção grupal – como os “territórios urbanos” que são frequentados por uma determinada tribo – mas, de forma alguma, é favorecida a distinção pessoal. Sendo assim, boa parte do nosso tempo passamos em locais que não nos pertencem, que não são caracterizados pela marca da nossa identidade pessoal.

Os ambientes públicos são, por definição, despersonalizados, quando os “habitamos” é necessário conter determinados aspectos da nossa personalidade que não se adequam a um espaço específico. O convívio social em espaços coletivos exige a supressão momentânea de boa parte do que somos, de como pensamos e sentimos. Para nos integrarmos, precisamos enfatizar as nossas características e comportamentos que são demandados naquele espaço, naquele dado momento. Essa constante exigência adaptativa gera estresse emocional e cognitivo, pois, muitas vezes somos obrigados a reprimir sentimentos, pensamentos, emoções e comportamentos que desejaríamos expressar.

No espaço privado da casa, ao contrário do que ocorre no público, podemos ser nós mesmos. É no espaço doméstico que não nos intimidamos para mostrar tanto nossos aspectos desagradáveis quanto os agradáveis. A casa, portanto, é um refúgio no qual nos permitimos nos expressar integralmente. A noção de refúgio da casa remonta à própria história da nossa evolução como espécie. Para os nossos ancestrais, a primeira casa, a caverna, era o espaço no qual nos sentíamos protegidos das ameaças externas, no qual nos sentíamos confortáveis para relaxar, amar e cuidar uns dos outros sem temer o ataque iminente de um predador ou da fúria da mãe natureza.

O sentimento primitivo de que o lugar para o qual retornamos quando deixamos o mundo externo é o nosso abrigo, nossa defesa contra as ameaças indesejadas, persiste ainda nos recônditos do nosso cérebro. A sensação de conforto que sentimos ao retornar à casa é desencadeada por essa herança emocional, herdada dos nossos ancestrais e preservada pelo nosso sistema límbico, a principal área do cérebro envolvida nas emoções e comportamentos necessários à sobrevivência.

Se o espaço doméstico nos oferecer essa sensação de conforto, proteção, relaxamento e reconhecimento, ele contribuirá muito para o bem-estar físico e emocional. Sentir-se seguro num espaço que se reconhece como sendo próprio – com a cara do dono – ajuda a combater o estresse cotidiano, nos recuperando do desgaste diário que é exigido nos espaços públicos, onde precisamos nos adequar. Por isso, talvez, pensar na casa como um espaço de “tendências” seja um dos principais problemas que impedem as pessoas de obterem satisfação genuína em seus lares. Atualmente, muitas pessoas lidam com a casa como se ela fosse uma vitrine de moda. Com isso, é comum que se esqueçam de priorizar o gosto pessoal e o conforto necessários para que o lar fucione como um refúgio.

Na contramão da tendência “casa para visita ver”, tem ocorrido no campo do design um movimento de retorno à simplicidade, à busca por um espaço mais humano e menos objetal. A simplicidade pode, num certo sentido, contribuir para a solução de um problema comum nos espaços domésticos contemporâneos e que impede o devido aproveitamento das vantagens de se estar em casa: o excesso de informações. Casas lotadas de móveis, texturas, cores, objetos, com abundância de estímulos sensoriais, acabam por sufocar a nossa percepção do ambiente. Esse sufocamento inibe nossa capacidade de apreciar os detalhes, de absorver apropriadamente as informações visuais, táteis, olfativas e outras que constituem o ambiente, e que são necessárias ao nosso fruir com o espaço.

A fruição sensorial é o que nos dá a sensação de estarmos integrados ao ambiente, e não submersos nele. A simplicidade, entendida como o ambiente pensado a partir do que é essencialmente necessário, bom e agradável aos sentidos de quem o habita, cria condições para que o foco da nossa atenção volte-se para nós mesmos. Quando a nossa mente consegue interpretar adequadamente as informações do ambiente processadas pelo cérebro, sem excessos desnecessários, fica mais fácil prestar atenção aos nossos sentimentos, pensamentos, sensações e emoções.

Aprendendo a nos perceber melhor, aprendemos também a perceber o outro e ao ambiente, nos tornamos mais receptivos aos conteúdos subjetivos e objetivos do mundo à nossa volta, pois esses conteúdos já não mais nos agridem ou sobrecarrega. Como em nossa época ter tempo para si e para os outros é cada vez mais raro, a simplicidade – seja na decoração, na arquitetura, ou no estilo de vida como na forma de vestir-se, comer e divertir-se – surge como uma possibilidade de aliviar nosso corpo e mente, restituindo às nossas vidas um pouco do tempo roubado pelo excesso de tarefas profissionais, sociais e domésticas. Ou seja, restitui à casa o lugar de refúgio e abrigo, que é tão essencial ao nosso bem-estar físico e psicológico.

Imagem: “Ninho” por Aimee Ray, em Flickr

 

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5 comentários sobre “A Casa e Seu Significado: Refúgio Para o Bem-Estar Físico e Emocional

  1. Os meus parabéns Angelita por esta reflexão sobre a casa, o seu significado e até na forma como toca o tema do habitar. Sempre pensei que a psicologia era a base de toda a arquitectura. A própria noção do “habitar” não é muito clara para as pessoas. Para um projecto de uma habitação muitas vezes a informação pedida fica pelo número de compartimentos e as suas valências. Por vezes não compreendem porque é que precisamos de saber quais os seus rituais e se esses são os ideais ou correspondem a uma adaptação à habitação que possuem. Estranham que lhes pergunte sobre livros favoritos, músicas, filmes, entre outras coisas. Só criando uma verdadeira empatia com os clientes se pode projectar o seu espaço. Aliás, a empatia estaria, por definição, na base da evolução nas nossas relações humanas se houvesse essa predisposição. Descrevo muitas vezes a casa – muito desvalorizada na sua importância – como o útero, o nosso espaço de aconchego junto a quem nos ama e protege.
    Sublinho ainda a frase ” Aprendendo a nos perceber melhor, aprendemos também a perceber o outro e ao ambiente (…) “. Não sendo da área da psicologia, foi o que a vida me ensinou. E é tão verdade…
    Blogue marcado para aprofundar a minha visita. Acho que esta também será uma “casa” minha…

  2. Olá Pedro, estou em atraso com as atualizações do blog por conta da agenda cheia, mas consegui um tempinho para responder aos comentários. Percebo pelo seu comentário que você é arquiteto, certo? Se for, é uma satisfação encontrar um profissional de arquitetura que busca, além do corpo, a alma da casa. Quando adolescente, uma das profissões que cogitei foi a de arquiteta, isso porque sempre desenhei e sempre tive grande interesse em assuntos estéticos. Mas, mais do que isso, sempre me fascinou a casa e o exercício de pensar em como escolhemos habitar. Sempre vi a casa como uma extensão da nossa forma de viver e de ver o mundo e a nós mesmos. Por um lado, sinto que muitas pessoas perdem a oportunidade de vivenciar a própria casa como esses lugar de autoexpressão, seja porque para elas a casa funcione apenas como dormitório, o espaço de passagem entre o trabalho e a vida social, seja por tratarem a casa como uma vitrine de tendências da moda. Por outro, contudo, sinto também o crescimento de um movimento de conexão com a casa. Felizmente, tenho visto um aumento no número de pessoas buscando vivenciar a própria casa como um espelho daquilo que sentem e pensam, o que acho muito bom. Quando as pessoas podem contar com arquitetos que também veem a casa como esse espaço de significado simbólico e existencial a felicidade se instala na moradia e pode-se viver bem melhor. Parafraseando você, Pedro, aconchegados, protegidos e amados, como num útero! Esta casa está de portas abertas para você. seja sempre bem-vindo!

  3. Angelita, parabéns pela análise e pela redação. Achei rica e objetiva a sua análise da casa enquanto símbolo cultural e herança psíquica. Pensando em semiótica, é fundamental entendermos claramente essa base simbólica e todo o significado construído para a casa. Todo esse simbolismo da casa teria alguma relação com arquétipo? Um abraço!

  4. Olá Mário! Acredito que o simbolismo da casa teria relação com alguns arquétipos, especialmente aos que estão relacionados ao universo simbólico feminino, como é o caso da Ânima e da Mãe. Talvez eu trabalhe isso em um artigo posteriormente, se tiver tempo… Mas, agradeço o elogio e fico feliz em saber que a leitura foi proveitosa para você.

  5. Angelita, estou simplesmente apaixonada pelos seus textos, gostaria de fazer o meu TCC relacionado à Arquitetura da Felicidade.
    O que me sugere? tem como me ajudar?

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