Minutos de conversa… e você descobre várias lições de vida

*Por Maurílio Mendonça: Jornal A Gazeta/ES –22/08/2010

Que tal conversar com pelo menos uma pessoa desconhecida por dia? Tentar fazer amizade com quem você nunca viu? E conversar com o vizinho então? Nem sempre se tem disposição para puxar papo, mas isso pode render a você uma lição de vida ou, pelo menos, um simples sorriso.

A GAZETA resolveu ir às ruas e procurar boas histórias. Durante 30 dias, pelo menos um desconhecido era abordado pela reportagem na rua, mas sem saber que a pessoa com quem conversava era jornalista, muito menos que o assunto fazia parte de uma matéria.

Entre sorrisos discretos, olhares desconfiados e conversas atravessadas, a maioria das pessoas abordadas aleatoriamente não mostrou interesse em conversar. Nos ônibus, a opção mais escolhida era olhar para o lado de fora; aproveitar a paisagem (convidativa) de Vitória, vista da Terceira Ponte; ou se entupir de música e fones de ouvido.

Acabou na mão, ou melhor, na boca de três mulheres, com idades que variam entre 29 e 48 anos, com carisma suficiente para convencer a reportagem de que vale a pena conversar com desconhecidos. Essas guerreiras, com experiências de vida que merecem ser compartilhadas, foram escolhidas para contar suas histórias àqueles que desejam ouvi-las ou, neste caso, lê-las (confira ao lado).

No dia a dia, uma conversa pode abrir portas para um novo jeito de ver a vida. “Quem faz a pessoa é a sua história de vida”, frisa Felipe de Carvalho Pimentel, mestre em Psicologia e especialista em Terapia Comportamental.

“Para o introvertido, envolver-se com estranhos é quase impossível. Assim, ele é visto como um esnobe, mas porque ele é voltado ao mundo dele. Enquanto o extrovertido é mais expansivo, gosta de conversar e acaba com uma abertura maior ao mundo exterior e, consequentemente, a novas amizades”, analisa a mestre em Psicologia Social Angelita Scárdua.

Origens explicam jeito do capixaba
Seja pela influência dos imigrantes seja pela característica do porte das cidades dp Estado, quem chega ao Espírito Santo tem o costume de avaliar que os capixabas têm um jeito “fechado” de ser.

“Já ouvi amigos de fora dizerem que não entendem por que os capixabas não aceitam conversas e novas amizades. Quando morei em São Paulo senti essa diferença. Lá, as pessoas querem te conhecer. Aqui, as pessoas preferem manter as rodas de amizade que já têm. Só as ampliam quando há algum amigo em comum, alguma identidade no outro que traga proximidade e, de certa forma, segurança”, defende Angelita Scárdua, mestre em Psicologia Social.

Para ela, há algumas influências culturais na “quietude” do capixaba. “Vieram para cá muitos imigrantes alemães e pomeranos, mais reservados, e os italianos eram, em sua maioria, da região Norte da Itália, também influenciada historicamente por tradições austríacas e germânicas”, diz Angelita.

Mas o que mais influencia esse comportamento, segundo a psicóloga, ainda é a tradição no Estado em manter o pensamento de que todo mundo conhece todo mundo. Por outro lado, vale ressaltar que essa característica não é regra. “É uma análise feita por quem vem de outros Estados”, reforça Filipe de Carvalho Pimentel, mestre em Psicologia.

“A gentileza surpreende”
Palavra do repórter

Maurílio Mendonça – Jornalista
Logo quando a sugestão de matéria foi apresentada, me senti ansioso. Como eu iria abordar tantas pessoas diferentes, e diariamente? Pensei em uma solução rápida: o ônibus. Como o trajeto de casa ao trabalho (e vice-versa) é feito de ônibus, bastaria conversar com quem estivesse ao lado. Quem dera ser tão simples. Após olhares estranhos e com o intuito de me ignorar, além de dezenas de “ã-hãs”, percebi que a função não seria tão fácil assim. Para piorar, amigos contavam histórias de desconhecidos que puxavam conversa com eles no meio da rua; e eram histórias ótimas, mas nenhuma comigo. A solução era expandir o campo de ação. Estava em um bar? Tentava conversar com quem nunca havia visto na vida. No shopping ou na padaria? Falava com o balconista, com o vendedor. Em todos os casos, meu medo era parecer que estava indo além com as perguntas. Na maioria das vezes, entendia quando a conversa não andava. E me surpreendia quando a gentileza superava o desdém. Mas nesse um mês de experiência acredito que até eu tenha ignorado boas conversas. Afinal, nem sempre se acorda com a disposição de dar ou ouvir um bom dia.

A vida delas daria um filme

De doméstica a dona de empresa
Com 17 anos, Luciene Pereira Mendes, hoje com 34, chegou a Vitória com um sonho; na verdade, com uma paixão. “Vim apaixonada por um ex. Aqui aprendi a viver: refiz a vida e toquei a sorte. Aprendi a me virar”, lembra.Mineira de nascença e capixaba de coração, Luciene deixou em Carlos Chagas, cidade do interior de Minas Gerais, pai, mãe e irmãos. “Vim trabalhar e estudar. Na verdade, vim por amor. Mas não deu certo. Mesmo assim escolhi ficar em Vitória. Arregacei as mangas e fui trabalhar”, frisa Mendes.De empregada doméstica e babá, funções que cumpriu na cidade mineira, Luciene começou a trabalhar numa videolocadora. Dois anos depois, fez um curso técnico no Senac, de manicure (hoje é professora do curso, em Vila Velha).A função, que já lhe rendia um dinheiro extra, virou profissão. Então Luciene resolveu arriscar: montou seu primeiro salão de beleza, no Centro de Vitória. Depois foi para a Praia do Canto; abriu um espaço, fechou meses depois, e foi trabalhar como funcionária em outros três até conseguir, com dois amigos, abrir um outro salão, agora na Enseada do Suá. No meio do caminho descobriu que era alérgica a esmalte. “Eu tinha que trabalhar. Pintava as unhas, sim. E as contas? E o aluguel? Quem iria pagar?”, comenta. Além de empresária, Luciene já era mãe: “Sempre criei meu filho sozinha”. Com a alergia, viu a necessidade de outros cursos: massagem e depilação. Mas só depois de cinco anos conseguiu começar a atuar como esteticista, e como dona do espaço. “Fui em busca da satisfação. Estou a seis meses com a TH Estética, e a cada semana com mais clientes”, comemora. Luciene, por sinal, comprou o apartamento que queria.

Volta por cima com trabalho diferente
Aos 48 anos, Vânia Crisostomo Santos resolveu aprender uma nova função: virou cobradora de ônibus. Ela que, durante anos, foi artesã, resolveu sacudir a poeira que lhe deixava deprimida após a morte da mãe e de um irmão. Mudou o astral, o emprego e o conceito de vida. Independentemente da função que escolheu, uma coisa Vânia nunca deixou de ser: mãe. “Dizem que nos primeiros anos de vida é fundamental a presença dos pais, para a formação de caráter. Fiz questão de estar perto dos meus filhos até eles fazerem 9 anos”, confessa. No ano passado, o mundo de Vânia desmoronou. “Minha mãe saiu do hospital e morreu. No dia do velório, meu irmão sofreu um acidente de trânsito e também morreu. Não tinha forças para ficar em pé”, diz. A solução veio com a ajuda do irmão mais velho: “Foi uma mudança radical na minha vida: um novo emprego, que eu estou adorando. Eu precisava dessa virada na minha vida”, confessa. Foi se lembrando da mãe que a força de Vânia voltou. “Ela me dizia: ?Aconteça o que acontecer, toque o barco. A vida tem que continuar?”, relata. E Vânia leva a lição tão a sério que já tem um novo sonho: “Como cobradora, há momentos em que eu me sinto uma psicóloga. Acho mesmo que vou fazer Psicologia”.

Adeus, trauma! Bem-vindo, novo manequim!
Em dez anos, a vendedora Sheila de Melo, 29, viu sua vida mudar. Além da briga pelo peso – entre ganhos e perdas de quilos -, começou a sofrer, ainda na juventude, as consequências de testemunhar um assassinato. “Estava numa festa do bairro. Ouvi os disparos e vi uma pessoa caindo na minha frente, morta. Minha vida parou. Em três anos, larguei a escola, não saía mais de casa”, lembra a vendedora. Para ela, a mudança veio com a religião. “Tive um encontro forte com Deus, e minha vida mudou. Nunca mais pensei em desistir de viver. Deus me mostrou o quanto a vida de uma pessoa pode mudar”, defende Sheila. Aos poucos, ela assumiu uma postura diferente em relação a vida: casou-se aos 26 anos, teve um filho e fez cirurgia bariátrica. “Sem controle das minhas emoções, engordei, e muito. Quando adolescente pesava 70 quilos, e cheguei a 123 em 13 de outubro, quando fiz a cirurgia”, relata. Hoje, com 87 quilos, Sheila só pensa numa vida futura cheia de saúde. “O primeiro dia depois da cirurgia é uma dor insuportável. Mas no segundo dia é menor, no terceiro mais ainda… Você se adapta. É obrigado a isso. Afinal, o excesso de comida pode te matar. Meu futuro é ao lado do meu filho e do meu marido, com corpo e mente saudáveis. E os próximos passos são voltar a estudar e evoluir na profissão”.

Imagem: “Estórias” por Ricky Norris, em Flickr

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