Viagens da Descoberta

Eles são movidos pelo inusitado. Quanto mais estes viajantes se embrenham em povos e culturas, mais conhecem a si mesmos.

*Por Débora Didonê, Revista Vida Simples

Por culpa de um suposto pedaço de brontossauro, o então especialista em artes plásticas Bruce Chatwin partiu, no início dos anos 1970, para uma longa viagem ao extremo sul do continente americano. Foram seis meses de aventura devidamente relatados em seu primeiro livro, a obraprima Na Patagônia, em que narra também o naufrágio do primo-avô marinheiro, o descobridor do bendito fragmento pré-histórico – na verdade, uma pele de bicho-preguiça gigante. Quando menino, o pequeno Bruce importunava sua avó para que ela o deixasse mexer na relíquia de família guardada há décadas no armário com porta de vidro da sala de jantar. Obcecado por aqueles tufos de pelos avermelhados, criando histórias e fábulas a seu respeito, o inglês os tomou como uma espécie de amuleto para escolher seu destino. Ainda criança, quando soube da morte da avó, disse à mãe: “Agora posso brincar com o pedaço de brontossauro!”

Não é raro que o mapa de uma viagem se desenhe a partir de um elemento ou uma história que nos estimule a descobrir algo mais. “É como um símbolo que canaliza toda a carga afetiva do percurso. Tendemos a escolher algo que, depois da viagem, mantenha a memória ativa e nos faça retomar a experiência”, diz a psicóloga e especialista em neurociência Angelita Corrêa Scardua. Também foi assim com a colecionadora Ludmilla Pomerantzeff, que há mais de dez anos decidiu deixar de lado os negócios herdados do pai para pôr em prática os estudos de história da arte. Começou procurando peças do barroco brasileiro em Minas Gerais, mas, em uma viagem a passeio pelo interior alagoano, quando abordava uma senhora na cidadezinha de Marechal Deodoro, dois meninos vieram correndo mostrar uma pequena e tosca imagem de Cosme e Damião. “Nem sabia desses santos”, conta Ludmilla. De volta a Salvador, deparou com outra peça dos gêmeos em um antiquário, mais preservada, e sentiu-se atraída pela história dessas entidades católicas. Viajou em ônibus caindo aos pedaços, dormiu em rodoviárias, contratou taxistas para rodar por estradas do interior nordestino e, em nove anos, reuniu 1500 peças – 300 das quais viraram uma exposição que, agora, deve ganhar a estrada sozinha.

Peregrinos Se o ser humano foi feito do barro ou no paraíso, isso pertence ao domínio da especulação. O que não se pode negar é sua intrínseca inclinação a longas jornadas e à transformação que elas proporcionam – desde a existência mais remota do homem. “A viagem está em nosso DNA. O Homo sapiens vingou porque tinha essa característica nômade. Deslocava-se e, a cada movimento, aprendia coisas, aperfeiçoavase, transformava-se. Com isso, sempre tivemos a necessidade inconsciente e visceral de peregrinar”, diz Angelita Scardua. Alguns lugares se tornam ícones mundiais, como o caminho de Santiago da Compostela ou as montanhas do Himalaia. Outros se manifestam em um chamado íntimo como um ícone particular. A África do Norte foi um dos eleitos pelo psicanalista suíço Carl Gustav Jung, que, em 1920, visitou a região a convite de um amigo que viajava a negócios. Como o próprio Jung afirma, a proposta soava como a oportunidade de realizar seu sonho de estar em um país não europeu, onde não se falavam idiomas europeus nem imperavam influências cristãs, e sim outra raça, tradição e ideologia. Em seus relatos de viagem, Jung descreve experiências em tribos e lugares inóspitos que o atraíam desde muito, mas admite estar em busca de si mesmo, de sua própria verdade. Esse era o verdadeiro elemento que fazia o psicanalista europeu defi nir seus passos em terras desconhecidas. E talvez esteja contido nos pedaços de brontossauro e nos santinhos de Cosme e Damião que se buscam por aí.

Conexão A determinação de Ludmilla em empreender sua coleção dos santos gêmeos dependeu de saber se aproximar dos moradores detentores das imagens. O que contou muito para que a viajante fosse bem recebida foi seu interesse pelas histórias daquelas pessoas, que as levava a reconhecer e reforçar a própria identidade. “O saber acadêmico é sem dúvida um aprimoramento, mas, nas origens, já faz parte do ser humano. As pessoas mais simples podem ensinar muito com sua sabedoria humilde”, diz. “Três fatores ajudam o viajante a ser bem recebido: o morador que se apropria de sua cultura, um elemento de acesso do visitante (como a imagem de Cosme e Damião) e, por fi m, a abertura para o que o outro tem a contar”, afi rma Alissandra Nazareth de Carvalho, professora de Hospitalidade e Turismo da Universidade Federal de São Carlos de Sorocaba. Essa troca é uma via de mão dupla. Enquanto o viajante se torna mais íntimo do lugar, o próprio lugar se renova com o olhar estrangeiro.

Receoso com a receptividade, o carioca Francisco Sant’anna quase abortou a ideia de fi lmar sanfoneiros em sua viagem ao longo do rio São Francisco. Ao arriscar timidamente o primeiro convite, adoraram a proposta. E ele se animou ainda mais a cada vez que via a mobilização das pessoas quando ele, um forasteiro desconhecido, pedia para chamarem o “melhor sanfoneiro da cidade”. “Uma das fi lmagens reuniu tanta gente que virou uma festa”, conta. Não à toa, afinal Francisco era uma pessoa de muito longe que estava interessada em um dos principais símbolos da região, o forró. “Sua entrevista foi o mote para a festa, e a festa, o mote para a congregação ao som da sanfona”, observa o especialista em geografia humana Alessandro Dozena, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Foi um entusiasmo sem precedentes pela cultura nordestina que levou Francisco a descer de moto os 3 mil quilômetros do rio, da nascente à foz. Doutorando em engenharia da computação, o carioca já havia ensaiado uma relação com a sanfona, que estava deixada meio de lado. Depois de filmar 19 sanfoneiros em 40 dias de estrada, Francisco retomou os estudos do instrumento com afinco, a ponto de ampliar o repertório musical e tocar em festas com amigos.

Bagagem A viagem e os elementos que nos conectam a ela incitam mesmo sensações que muitas vezes não têm explicação. O próprio antropólogo belga Claude Lévi-Strauss, um dos grandes pensadores do século 20, começa uma de suas obras mais consagradas, Tristes Trópicos, afirmando odiar viagens e exploradores. Poxa, a obra todinha foi baseada em suas incursões pelo Brasil dos anos 1930, onde o autor viveu e ensinou. Embora assuma ter passado 15 anos evitando escrever o livro, ao fazê- lo, o antropólogo declara simbolicamente a importância dessas expedições para sua formação. Não se sabe ao certo o que Lévi-Strauss levou de volta na mala para tal paradoxo – de odiar viajantes e exploradores enquanto ele mesmo é um. E dos grandes! Quem sabe, suas autodescobertas não tenham sido muito fáceis de digerir. “Geralmente, a escolha da viagem se dá por querermos algo muito diferente da nossa realidade, um espaço onde possamos nos permitir vivenciar aspectos pessoais até então resguardados por causa das contingências da vida”, diz a psicóloga Angelita Scardua. Bons ou ruins, esses aspectos, quando conhecidos, podem nos tornar seres humanos muito mais inteiriços.

No caso do paulistano Fábio Bertassi, a revelação que geralmente assalta o viajante no meio do percurso foi o elemento que definiu sua rota. Típico menino criado em apartamento, à base do videogame, Fábio se viu diante de um novo mundo quando foi trabalhar em um parque durante a faculdade de geografia. O contato com a terra o fascinava, mas ainda era insuficiente. “Queria ter a visão de morar longe da cidade grande, conhecer outras formas de relacionamento, de existência”, conta o jovem. Em um ano e meio, pedalou pelos estados de Minas e do Rio, morando e fazendo cursos em comunidades ecológicas. “As pessoas querem ampliar seu conhecimento sobre o mundo. Ao mesmo tempo, internamente, existe a necessidade de busca de coisas que vão ampliando o sentido de sua própria vida”, afirma o psicólogo José Jorge Zacharias. Entremos no consenso de que o espírito de todos esses aventureiros em busca do elo perdido – esse elemento que serve de guia para sua expedição – está, principalmente, em querer se tornar um Homo sapiens ciente de si. Se isso se reflete em um bom sanfoneiro da cidade grande, uma colecionadora de imagens de santos populares ou em um homem da terra, o importante mesmo é sentir-se pleno, preenchido, completo.

Imagem: “Destino” por time for something worthwhile, em Flickr

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s