Ritos de Celebração da Vida: Transcendência e Esperança de Felicidade

Uma fascinante celebração natalina ocorre todo ano nos Alpes europeus, especialmente na Áustria e na região da Bavária, na Alemanha. Trata-se da procissão dos homens de palha, “Buttenmandl”, e de seus parceiros “demoníacos”, “Krampusse”.

Ao anoitecer da véspera do dia de São Nicolau, homens solteiros usando máscaras e cobertos com palha ou peles e chifres percorrem aldeias e vilas do interior fazendo um barulho ensurdecedor com os imensos sinos de vaca que carregam pendurados nas costas e/ou nos quadris. Após terem permanecido durante toda à tarde no celeiro de algum fazendeiro local, os integrantes do grupo, geralmente composto por 12 homens, se encontram em algum lugar pré-determinado, rezam e partem sempre liderados pela figura de São Nicolau.

A ideia central da procissão de “Buttenmandl” e “Krampusse” é a de que o cortejo tem como função reconhecer o bom e o mau comportamento das pessoas durante o ano. Nesses locais remotos da zona rural da Europa Central, as crianças são tomadas pela desconfiança e pelo medo quando o cortejo avança. As figuras mais aterrorizantes são as dos “Krampusse”, que costumam carregar espetos de madeira com os quais “cutucam” quem encontram pela frente. A desconfiança e o medo, contudo, também vêm do fato de que os “Buttenmandl” e “Krampusse” têm como encargo punir os maus. São Nicolau, por sua vez, controla a fúria dessas figuras demoníacas, impedindo-as de molestar as boas crianças, as quais serão presenteadas pelo bom velhinho. Assim, a procissão vai de casa em casa levando sorte para os bons e punição para os outros. Geralmente, o cortejo é finalizado de madrugada numa casa do vilarejo, onde comida e bebida são ofertadas ao grupo.

Pouco se sabe sobre a origem desses festejos. O fato é que eles remontam aos ritos pagãos pré-cristãos, quando era comum haver festivais envolvendo figuras representativas dos ciclos da natureza para celebrar o solstício de inverno. Nas culturas pagãs de forma geral as figuras masculinas animalizadas, com chifres e peles, costumavam ser associadas à fertilidade – à capacidade reprodutiva de animais como o bode e o touro, por exemplo – e tinham presença garantida nos festejos invernais onde o anseio pelo retorno da produtividade da terra era a tônica. Nessas celebrações visava-se espantar a neve e o frio e restabelecer a presença do sol, da luz, da vida. Uma vez que a luz solar é condição necessária para a garantia da semeadura e da colheita dos frutos terrestres. Similarmente, a palha sempre esteve associada ao produto da semeadura, ao que é colhido e por isso também sempre foi muito usada nesse tipo de celebração.

Apesar de ter uma origem pagã, o cortejo dos “Buttenmandl” e “Krampusse” acabou por incluir a figura de São Nicolau, resultado da cristianização dos povos germânicos. Como prescreve a doutrina cristã, as figuras pagãs da velha Europa foram associadas ao mau, tornando-se demoníacas, enquanto São Nicolau como representante do cristianismo simboliza o bem. Ao contrário, porém, de outras regiões da Europa que foram totalmente cristianizadas, os Alpes conservam marcas profundas desse passado pagão, gerando um sincretismo cultural muito peculiar que se expressa num folclore muito rico. O isolamento geográfico das comunidades alpinas acabou favorecendo uma relação ambígua com a Igreja Católica. Esse distanciamento estratégico permitiu que velhas formas de culto sobrevivessem, sendo assimiladas pelos rituais cristãos e incorporadas ao Imaginário religioso mais moderno. É por isso, que em áreas rurais da Áustria, Suíça, Bavária, Eslovênia, Croácia Ocidental e Itália a herança pagã dos povos pré-cristãos pode ser vista em festivais como o de “Buttenmandl” e “Krampusse”, e em outras formas de dança, arte e jogos populares.

Fenômenos religiosos e folclóricos sincréticos, que envolvem antigos ritos pagãos e liturgia cristã, ocorrem também em outras localidades do velho continente e em praticamente todo o mundo cristianizado. O Mummers Day – Dia Escuro – por exemplo, é um festejo típico da região da Cornualha, na Gran Bretanha, que ocorre no primeiro dia do ano. Originalmente, quando a região era ainda pagã, esse festejo acontecia no primeiro dia de Maio. Comemorava-se com ele o fim do inverno e o advento da primavera. Nas celebrações do Mummers Day as pessoas usam máscaras, geralmente feitas de palha e pelo, e roupas enfeitadas com fitas e/ou farrapos. O grupo de mascarados parte num desfile rumo às casas da vizinhança cantando canções e carregando ramos de folhagem. Todo o ritual é associado principalmente ao ciclo da vida, expresso pelo simbolismo primaveril de fertilidade e renovação da terra com o renascimento da vegetação que costuma “desaparecer” durante o frio inverno. O interessante desse festejo tipicamente Celta e pagão, que ainda resiste na Inglaterra atual, é a similaridade com a Folia de Reis praticada no Brasil.

A Folia de Reis é um festejo de origem portuguesa e católica ligado às comemorações do Natal. Os Reis em questão são os três Reis Magos que visitaram Jesus após o seu nascimento. Na Folia de Reis, a visitação das casas, que dura do final de dezembro até o dia seis de Janeiro, é feita por grupos organizados conhecidos como Folia de Reis ou Terno de Reis. A moradia que acolhe a criança divina é abençoada pela Folia, a quem oferece abrigo, comida e bebida em troca da benção, da alegria e da música. Os grupos de Reis são compostos por músicos, cantores e personagens folclóricos quase sempre mascarados e vestidos com roupas coloridas e muitas vezes esfarrapadas. Dentre os vários personagens que compõem a Folia o mais curioso é o Palhaço, cuja máscara geralmente lembra muito a do demoníaco Krampusse alpino. Segundo os foliões, o Palhaço tem por função proteger o Menino Jesus confundindo os soldados que perseguiam a criança. Na cidade de Muqui, sul do Espírito Santo, acontece desde 1950 o Encontro Nacional de Folia de Reis que reúne grupos de vários estados brasileiros. É o maior e mais antigo encontro de Folias de Reis do país.

O interessante sobre tais festejos celebrados em localidades geográficas distantes umas das outras, são as similaridades estéticas e conceituais. Em todos os casos o cortejo é essencialmente caracterizado por ser uma jornada, na qual há ritos e objetivos bem específicos. Por meio desses ritos há uma troca simbólica entre os visitantes e o morador da casa. Este que recebe a visita do cortejo, coloca-se como a parte do grupo, o elemento terreno – o abrigo, a comida, a bebida – que acolhe a presença divina. O cortejo atua como mediador entre a lei divina e os homens, trazendo consigo o julgamento do quanto as pessoas são e/ou foram fiéis aos mandamentos de deus. O comportamento adequado é coroado com bênçãos e presentes, selando o intercâmbio entre os mundos espiritual e terreno.

Assim, simbolicamente, a visita do cortejo marca o ponto da jornada em que ocorre a transformação, em que as ações cotidianas e ordinárias são transmutadas em algo que transcende a vida material. Ao mesmo tempo em que se estabelece a unidade/complementariedade entre o humano e o divino. É provável que as roupas feitas de farrapos que vestem alguns personagens em cortejos desse tipo simbolizem a transitoriedade da vida, sua impermanência. Curiosamente, esse contato entre os mundos divinos e terreno tem por foco principal a criança, seja a divina da Folia de Reis ou a humana no Cortejo de São Nicolau, “Buttenmandl” e “Krampusse”. Do ponto de vista simbólico, a criança representa a vida, sua continuidade. Assim como os ritos pagãos organizavam-se em torno do retorno da vida à terra esterilizada pelo inverno, os ritos cristãos colocam a criança divina, o Jesus menino, como figura icônica de oposição à morte e à destruição. A salvação nada mais é do que a promessa de que a vida não será exterminada. Na mitologia cristã, o nascimento de Jesus traz o retorno da esperança para a humanidade. No desespero de um mundo perdido e estéril, o nascimento da criança divina assinala a chance de manutenção da vida humana.

A jornada dos cortejos folclórico-religiosos que clamam pela vida – seja no Imaginário pagão, ocorrendo no inverno ou na chegada da primavera; seja no cristão, em torno da data do nascimento de Jesus – expressa o anseio humano para encontrar significado na própria existência. Busca-se tal significado não apenas no contato com o mundo espiritual, mas também no estabelecimento de valores comuns que devem ser mantidos nas práticas cotidianas. Tanto é que, psicologicamente falando, a celebração da vida feita pelo grupo é também uma forma de uni-lo. Ao estabelecer ritos para abençoar/premiar a boa conduta o grupo reforça as crenças, atitudes e valores que considera necessários para a sua manutenção. Ser abençoado/presenteado, então, é o mesmo que ter seu pertencimento ao grupo reconhecido por todos. Ao ser reconhecido como membro do grupo o indivíduo renova suas chances de sobrevivência. A vida se renova.

Na renovação da vida atestada pelo grupo sente-se que o próprio modo de existir faz sentido. O indivíduo ganha sentido na medida em que se integra ao grupo, assim como o grupo só tem significado quando é reconhecido pelos indivíduos. Talvez, por isso, venha daí a conexão necessária e desejada entre os mundos terreno e divino nos ritos de celebração da vida. Uma vez que nesses ritos o indivíduo é aquele que oferece o suporte material para acolhimento do grupo, e o grupo simboliza o mundo divino estabelecendo a lei espiritual para o funcionamento da vida terrena. Todos esses opostos, indivíduo-grupo, matéria-espirito, humano-divino, são conectados por meio de símbolos: a criança, o menino Jesus, os demônios, o palhaço, São Nicolau, os Reis Magos, a comida, a música, o anoitecer, o amanhecer, o presente, a vara, a benção, a punição.

A esse fenômeno, o de conexão dos opostos por meio de um símbolo, Carl Jung chamou de Função Transcendente. Na visão de Jung, a transcendência viabiliza a transformação, ou seja, facilita a passagem de uma condição psicológica para outra. Isso seria possível porque a função transcendente estabelece uma ligação entre dados reais e imaginários, entre consciência e inconsciência. Nessa perspectiva, essa função expressa a capacidade de transcender a tendência do indivíduo de permanecer atrelado a um polo da experiência apenas. A função transcendente cria condições para que o equilíbrio entre os opostos, por meio do conflito gerado por eles, seja alcançado. Na visão junguiana a polarização leva à limitação das potencialidades transformadoras do indivíduo e dos grupos. Para Jung, a função transcendente não atua sem um propósito e, por isso, é relevante na estimulação da consciência, pois, ao emergir do conflito entre os opostos ela fornece uma perspectiva diferente da pessoal. Tomando-se o referencial junguiano, portanto, podemos entender os ritos de celebração da vida como expressões simbólicas da função transcendente, nos quais objetiva-se reconhecer a existência dos opostos e mediar a harmonia entre eles.

O modo de funcionamento do indivíduo e o do grupo, a vida terrena e a espiritual, a fertilidade e a esterilidade, o humano e o divino, a luz e as trevas, o bem e o mal… São opostos presentes nos ritos de celebração da vida que sobreviveram ao domínio cristão dos povos pagãos e se encontram entre nós ainda hoje. O fato desses símbolos e ritos aparecerem em locais tão distintos quanto os Alpes, a região rural da Inglaterra e as pequenas cidades do Brasil, indica não apenas o hibridismo cultural sofrido pelo cristianismo ao confrontar-se com o paganismo, mas também a origem comum dos conflitos psicológicos que caracterizam a existência humana. Afinal, criar condições de sobrevivência para o animal que somos sem abrir mão do desejo de estarmos próximos à divindade é o mais humano dos conflitos, assim como nossa esperança de felicidade. E talvez esse conflito só seja solucionado quando conseguimos praticar a lei divina ou quando em nossos ritos os deuses são humanizados.

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