Matemática da Sorte

*Por Vanessa Olivier – Revista Bianchini, 02/06/2011

Os mais racionais acreditam em simples coincidências, os mais românticos em acontecimentos mágicos já traçados em nosso destino. Mas, na verdade, sorte ou azar podem apenas depender de um simples cálculo: confiança + atitude + pensamento positivo = sucesso.

Rafael caminhava pelas ruas da cidade quando, de repente, avistou uma nota de 100 reais caída ao meio fio. Sem pestanejar, recolheu o dinheiro, guardando-o no bolso. Na mesma semana, Rafael aguardava pelo resultado de uma seleção para uma bolsa de estudos no exterior. Entre centenas de candidatos que se prepararam tanto quanto ele, recebeu a notícia de que havia sido o escolhido e resolveu comemorar com a família as boas novas. No caminho para a casa dos pais, lembrou-se de que precisava ir ao banco para pagar contas. Prestes a estacionar o carro em frente à agência, desistiu da ideia e seguiu em frente, pois queria chegar o quanto antes ao encontro da família. Um minuto depois, cinco homens armados entraram nesta mesma agência, rendendo seguranças, funcionários e clientes.

Esta história é fictícia, mas a questão é: analisando esses três acontecimentos, o que você diria sobre o nosso personagem? Se você pensou que Rafael é “sortudo”, tenha certeza de que não foi o único. Mas porque afinal ele pode ser considerado alguém com sorte? Será que há outra explicação que justifique esses seguidos sucessos?

Que tal voltarmos ao início da história e procurarmos alguma resposta lógica para a primeira situação? Entre tantas outras pessoas que passaram pela nota de cem reais, somente Rafael a encontrou e a recolheu. Sorte? Para a psicóloga clínica e professora universitária, Angelita Viana Corrêa Scardua, antes que Rafael recolhe-se o dinheiro é possível que muitos tenham passado por ele sem pegá-lo, seja por vergonha ou medo. “Podemos dizer que ele seria uma pessoa que, diante da oportunidade, não a dispensou”.

Especialista em psicologia junguiana, Angelita também é pioneira nos estudos de Psicologia Positiva no Brasil e coordena grupos de estudo e cursos na área de Psicologia Analítica, Psicologia Positiva e Neurociências. Sua teoria sobre sorte é baseada na nossa predisposição para esperar sempre o melhor. Isso quer dizer que quando acreditamos na nossa capacidade, temos muito mais chances de ver oportunidades onde muitos não veem. “Na maioria das vezes, a sorte percebida no sucesso dos outros é o resultado final de uma longa jornada com muitos altos e baixos. É claro que há pessoas que estão no lugar certo e na hora certa e, por essa razão, acabam tendo oportunidades que são impensáveis para a maioria de nós. Isso pode ser chamado de sorte, mas não é o bastante para o sucesso”.

Tudo bem que as pessoas abertas às oportunidades têm mais chances de atingir o sucesso do que as que não estão. Mas e quanto ao fato de Rafael ter sido selecionado em meio a centenas de candidatos com o mesmo, ou até maior grau de preparação, para receber a bolsa de estudos no exterior? O biomédico, palestrante e professor especialista em saúde emocional, Paulo Valzacchi, que também é autor de uma série de CDs de autoconhecimento, tem uma explicação bastante simples e óbvia para descartar a possibilidade da sorte. “Ninguém é igual a ninguém. Somos indivíduos com incríveis particularidades. Quando realizamos uma entrevista, por exemplo, o avaliador tem a sua disposição um conjunto de regras, de leituras corporais, de métodos para escolher alguém que, em sua crença, seja o ideal”.

E agora, você já se convenceu de que Rafael não é, necessariamente, um “sortudo”? Se ainda não, temos a terceira e última situação para avaliar. Voltando a história, quando estava prestes a estacionar o carro em frente ao banco, Rafael acabou desistindo. Porém, se tivesse feito o que segundos antes tinha programado, teria entrado na agência e, em seguida, sido refém de cinco bandidos. E o dia terminaria de um jeito diferente – com certeza, bem menos alegre. Sorte ou uma feliz coincidência?

Angelita fica com a segunda opção, mas logo avisa que só coincidência não é capaz de justificar os acontecimentos. Antes de tudo, é necessário que estejamos na mesma “frequência” dos eventos simultâneos, pondera. “A coincidência é a predisposição emocional e cognitiva de uma, ou mais pessoas, para perceber um determinado evento que ocorre no espaço-tempo que ela ocupa”. Ela ainda diz que, muitas vezes, tal percepção é totalmente inconsciente, e é por isso que pode nos parecer aleatória, quase mágica. “Muito do que sentimos e pensamos sobre os eventos vividos é fruto de processos inconscientes, sobre os quais temos pouco ou nenhum controle”.
Em outras palavras, se Rafael não estivesse feliz e ansioso demais para querer encontrar a família, poderia talvez ter estacionado o carro e entrado, sem pressa, na agência bancária. O que o faria, segundos depois, vítima de um assalto.

Ciclo vicioso

Sabe aqueles dias em que tudo parecer dar errado? O despertador que não tocou, o computador que travou justo num momento de muita pressa no trabalho, um telefonema muito esperado que só chegou na hora em que você precisou sair (depois de horas de plantão aguardando a ligação), o namorado(a) que resolveu terminar a relação, e por aí vai. Você ou alguém conhecido, provavelmente já deve ter passado por situações similares e tão logo pensou: “hoje é o meu dia de azar!”.

Para Angelita, a percepção negativa de todos esses eventos depende muito do nosso estado emocional, e ele pode variar em função de muitas coisas, por exemplo, sono inadequado, alimentação ruim, variação hormonal, além de fatores ambientais, como calor, barulho excessivo, pouca iluminação, móveis desconfortáveis, desordem etc. “Se estivermos ansiosos, os minutos de espera por uma ligação podem parecer horas. Se realmente esperamos há horas e se estivermos irritados, por exemplo, reparamos em cada detalhe desagradável que acontecer naquele tempo”.

Seguindo essa linha de raciocínio, o contrário também é válido, aponta Angelita. “Se estamos bem, horas de espera podem ser vivenciadas como oportunidade para fazer outras coisas que nos deem prazer ao invés de parecer uma prisão”. Portanto, na maioria das vezes, o dia ruim nada mais é do que nossa mente focando nos eventos negativos. O problema é que isso se torna um ciclo vicioso: mau humor = foco nos eventos negativos = frustração = avaliação negativa dos acontecimentos = mais mau humor.

Conexões do acaso

Estar no lugar certo e na hora certa é o ponto de partida de uma teoria criada pelo psiquiatra suíço Carl Jung, chamada de Lei da Sincronicidade. Jung acreditava que as coincidências poderiam ser explicadas como eventos psicológicos caracterizados pela ocorrência simultânea de pensamentos ou acontecimentos fisicamente distantes. Para que possa entender melhor, Paulo Valzacchi cita o seguinte exemplo: você está há dias procurando pelo número de telefone de um médico e, de repente, encontra “por acaso” uma amiga que, além de ter o telefone dele, ainda o conhece pessoalmente e consegue agendar uma consulta com urgência. Lá no seu íntimo, certamente você irá pensar: “que sorte encontrá-la!”.

No entanto, para Paulo, ao pensarmos em sorte estamos esquecendo de que existe um conjunto de mecanismos que regem o universo, como fundamentam a Lei da Atração e da Sincronicidade. “Primeiro, você se focou em encontrar o número do telefone e esse pensamento foi jogado ao universo, ativando a lei da atração. Segundo, não foi coincidência o encontro, mas, sim, a Lei da Sincronicidade, ou seja, você estava no lugar certo e na hora certa”.

Em busca da “sorte”

Há oito anos, a votorantinense Carolina Moreira Hidalgo, 30, resolveu deixar tudo para trás (emprego, família, amigos) e partir em busca do “sonho americano” ao embarcar com o namorado (hoje, ex) para os Estados Unidos. Mas o início de sua vida por lá não foi nada fácil. Durante três longos anos, Carolina se desdobrou em três empregos, na esperança de juntar um bom dinheiro, aprimorar seu inglês e depois voltar ao Brasil. “Os dois primeiros anos foram muito difíceis, só pensava em voltar. Deixar o meu país não foi e até hoje não é fácil. A saudade da família e amigos é muito grande”, garante.

Formada em Comércio Exterior, Carolina se viu trabalhando por oito horas em um restaurante, seis horas como babá e ainda como freelancer, nos fins de semana, numa empresa de catering (que promove serviços alimentares em lugares remotos ou em eventos). Até que, num certo dia, durante seu expediente no restaurante, a sonhada oportunidade apareceu enquanto conversava com uma cliente chinesa, com quem havia feito amizade. “Ela me contou que seu esposo trabalhava em uma empresa que estava expandindo seus negócios no país e me perguntou se eu estaria interessada nesta oportunidade”. No dia seguinte, o esposo da amiga foi até o restaurante e pediu a ela para enviar seu currículo e entrar em contato com determinada pessoa.

Logo que foi chamada para comparecer à empresa, descobriu que o casal de clientes do restaurante era bilionário e dono da Kingston Techonology – companhia internacional com faturamento anual de seis bilhões de dólares. “Tudo aconteceu no momento perfeito. Tinha acabado de receber minha autorização para trabalhar legalmente no país. Fui contratada imediatamente, mas só comecei a trabalhar quatro meses depois, pois passei três meses no Brasil com minha família. Minha chefe que, coincidentemente, também é brasileira e se chama Carolina, me contratou para trabalhar na matriz, na Califórnia”, conta.

Após cinco anos na empresa, hoje Carolina é gerente de vendas para o Brasil e Paraguai, e está muito bem casada, esperando o seu primeiro filho. “Estou muito feliz e realizada. Posso dizer que alcancei quase todos os meus objetivos, pois temos que continuar tendo ambição, não é?”.

Sorte ou confiança e atitude? Você decide.

“O que semeamos, colheremos”

O numerólogo cabalista e tarólogo, Carlos Rosa, que também é sociólogo, historiador, doutor em Ciências Ocultas pela Universidade de Sevilha, na Espanha, e autor de diversos livros de auto-ajuda, deixa claro sua descrença na sorte. “Estou plenamente convencido que tanto sorte como azar são fatores resultantes dos nossos pensamentos, palavras e ações”. Ao estudar as Ciências Ocultas, Carlos compreendeu que tudo o que fazemos, bem ou mal, tem o seu equivalente, ou seja, “o que semeamos, colheremos”.

Provavelmente, você já deve ter se perguntado o porquê, afinal, de existirem tantas desigualdades no mundo. Aos nossos olhos, parece injustiça o fato de alguns terem tanto, enquanto outros, tão pouco ou nada. Sorte e azar? Para Carlos, essa realidade é mais uma consequência dos nossos pensamentos, palavras e ações. Ele cita uma passagem bíblica que diz: “Porque aquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas aquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado” (Mateus, 13:12). “Isso quer dizer que após conseguir o que queria, o homem fez do seu cérebro um imã para atrair mais ainda”.

Já na situação contrária, segundo Carlos, o homem é guiado mentalmente em direção errada, “visto que obstrui as vias de abastecimento pelas suas ideias acanhadas, pelas dúvidas, medos e falta de confiança. Dessa maneira, pela própria condição mental pequena, ele não pode atrair ou conseguir mais”.

Assim como Angelita salientou no início dessa reportagem, a crença em nós mesmo é, portanto, o combustível principal que nos leva exatamente onde queremos chegar. “Temos um poder infinito que cria diversas oportunidades em nossa jornada, e ele pode ser despertado pelos pensamentos positivos, que têm um papel fundamental na mudança de nossos estados mentais e, consequentemente, vibracionais, no qual ativa diversas leis universais, que podem ser usadas a nosso favor”, lembra Paulo Valzacchi. Ele ainda ressalta que o sucesso depende de duas coisas: crédito e atitude. “Quando se crê verdadeiramente e age conforme essa crença, tudo isso tem um impacto profundo em nossas vidas”, conclui.

Dê uma mãozinha para a sorte

Para atrair mais “sorte” na sua jornada, acompanhe as dicas da psicóloga clínica, especialista em Psicologia Positiva, Angelita Viana Corrêa Scardua.

● Reconheça que a vida é feita de altos e baixos e que não é possível ganhar sempre, mas saiba que toda oportunidade vivida é uma chance de aprendizagem.

● Entenda que toda escolha tem consequências e que mesmo o fato de não escolher já é uma decisão. Ao assumir a responsabilidade pelo que optamos, ganhamos autonomia para conduzir a própria vida.

● Desista da ideia de agradar a todo mundo. Além de impossível, só nos distancia do nosso real desejo.

● Aprenda a ouvir o próprio desejo e dispor-se a “pagar o preço” por ele, pois tudo na vida tem um preço. A questão é apenas por qual desejo estamos dispostos a “pagar”.

● Tenha clareza do que você quer, pois a capacidade de enxergar as oportunidades ou os mecanismos para criá-las, depende muito de para onde direcionamos o foco da nossa atenção.

● Conheça o funcionamento e os requisitos do lugar que você quer ocupar, e invista no desenvolvimento das habilidades e competências necessárias para exercê-lo.

● Lembre-se sempre que coragem não é a ausência do medo, mas a disposição para enfrentá-lo.

Imagem: “Flores Num Livro de Matemática” por Greg Huff, em photo.net

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