A Era dos Extremos

De baixo_Claude Rozier-Chabert

Especialistas falam sobre os linchamentos virtuais na web, explicam suas causas e analisam os possíveis impactos sobre suas vítimas

Por Tiago Zanoli – Jornal A Gazeta/ES (15/07/2012)

Figuras públicas estão constantemente expostas a todo tipo de ação e reação do público. Um comentário ou uma atitude quaisquer pode dar origem a uma série de críticas e ataques virulentos de desafetos – ou mesmo de fãs. Em maio, por exemplo, a apresentadora Xuxa participou do quadro “O que Vi da Vida”, do programa “Fantástico”, na Rede Globo. Na ocasião, ela revelou ter sofrido abuso sexual em sua infância e adolescência. A repercussão dessa entrevista dividiu as opiniões, e Xuxa foi elogiada por sua coragem, mas detonada por um grande número de pessoas que fez barulho nas redes sociais – muitos, aliás, foram gratuitamente ofensivos e agressivos. O ator e cantor bissexto Wagner Moura também foi bastante esculachado na web, após assumir os vocais da Legião Urbana, em um show tributo, no final de maio deste ano.

Naquele mesmo domingo, 20 de maio, em que Xuxa falou sobre sua intimidade em cadeia nacional, coincidentemente, o jornalista, escritor e tradutor Luciano Trigo publicou em seu blog “Máquina de Escrever”, no G1, um artigo intitulado “e-Massa e e-Poder”, no qual argumentava que “as redes sociais estão se tornando veículo para perigosos rituais de justiça sumária e linchamento virtual”. No texto, o jornalista afirmou que isso pode “ter impactos sérios na imagem e na vida de indivíduos e empresas”, bem como “determinar o sucesso ou o fracasso de obras artísticas e produtos comerciais”.

O episódio envolvendo a Rainha dos Baixinhos não foi citado, pois ainda não havia acontecido, mas Trigo apresentou diversos exemplos recentes e sérios. Um dos mais graves foi o ataque ao modelo Daniel Echaniz, participante do “BBB12” tachado de estuprador pela internet afora e, mais tarde, inocentado pela Justiça. O apelo público, porém, não o impediu de ser expulso do reality show. Entre outros casos, ele citou as críticas à atriz Carolina Dieckmann, após o vazamento de fotos íntimas suas, e também o “lichamento virtual” sofrido por Maria Bethânia, depois que a Lei Rouanet aprovou a captação de R$ 1,3 milhão para o projeto de um blog de poesias (a iniciativa, contudo, não era da cantora, que foi apenas convidada para interpretar).

A psicóloga e professora universitária Angelita Corrêa Scardua explica que esse tipo de reação do público tem origem na própria estrutura psicológica dos grupos sociais. “Nós, seres humanos, temos a tendência de buscar figuras que sejam modelo de liderança. Nesta época em que vivemos, a mídia exerce um papel de grande influência na vida de todos, e as figuras públicas são vistas como esse modelo de liderança. Nelas, projetamos nossos desejos, nossas ambições, nossos ideais, como se essas personalidades fossem a expressão da excelência da condição humana.”

Por outro lado, observa a psicóloga, essas figuras públicas transformam-se também em alvo de inveja. Com isso, ao mesmo tempo em que o público cultua tais personalidades, alimenta uma curiosidade em torno dos detalhes da vida privada dos famosos. “Isso passa um pouco pelo desejo inconsciente de vê-los falhar. É uma inveja do lugar que ocupam. Ou seja, se eu conseguir ver nessa pessoa algo que a destitui dessa aparente excelência, eu a trago para o meu nível. Esse desejo de ver o ídolo cair serve como um consolo”, explica.

De acordo com Angelita, a internet é um espaço altamente democrático, a tribuna livre onde todo mundo pode destilar todo tipo de veneno. “O mundo virtual potencializa o que fazemos no mundo concreto. Quando estamos em grupo, nossa capacidade de racionalização diminui, nosso lado animal, biológico, é muito mais atuante do que imaginamos. Colocamos de lado nossa individualidade e passamos a funcionar como um organismo coletivo. Vemos isso, por exemplo, nas torcidas organizadas. Muitos que estão ali são pessoas pacíficas, em suas vidas cotidianas, mas na saída dos estádios enfrentam-se com paus e pedras. No mundo virtual, isso é potencializado, e o grupo garante o anonimato como indivíduo, mesmo que você use o seu nome verdadeiro. Assim, nossa racionalidade é inibida e nos deixamos guiar pelas emoções.”

Impactos
O linchamento virtual pode ter diferentes impactos sobre as vidas das pessoas que são vítimas disso. Um dos efeitos é prático e afeta a vida profissional e econômica de quem é alvo. “No caso do modelo que participou do ‘Big Brother Brasil’ e foi chamado de estuprador, ele perde oportunidades profissionais, deixa de ser convidado para diversos trabalhos. Isso vale para qualquer celebridade, como aconteceu com o Ronaldo ‘Fenômeno’, após a polêmica com os travestis. Na época, ele perdeu alguns contratos de publicidade”, diz Angelita.

Em defesa da Rainha dos Baixinhos

Claudio Manoel, do “Casseta & Planeta” (na foto ao lado de Xuxa), é o diretor do quadro “O que Vi da Vida”, no “Fantástico”. Na revista “Alfa” de junho, ele escreveu um texto em defesa da Rainha dos Baixinhos, dissecando os ataques sofridos pela apresentadora na internet.  “Cada um tem o direito a sua opinião, a ser crítico, a questionar. Mas esculachar por simples preconceito, ou por ‘posições’ subideológicas semiletradas, não vai tornar ninguém mais bacana”, escreveu Claudio.

Essas manifestações de ódio também servem para apresentar um diagnóstico da sociedade, tornando público todo tipo de preconceito de parte deste ou daquele grupo. No caso da Xuxa, lembra a psicóloga, ficou evidente uma série de críticas sexistas. “No fim, essas situações ajudam a perceber preconceitos e estereótipos que estão latentes no grupo e que, normalmente, ficam ocultos. Mas ali, na tribuna livre, empolgadas e arrebatadas pelo ímpeto de se expressar, as pessoas acabam se revelando. É um raio-x que mostra como nossa sociedade funciona. Entre as críticas ao modelo do “BBB” acusado de estupro, havia declarações racistas. As reações do público seriam as mesmas se fosse o Diego Alemão, que todos adoravam?”, pergunta ela, referindo-se ao vencedor do “BBB7”.

Para a jornalista e publicitária Flávia Varela, que trabalha com mídias sociais e pesquisa sobre esse meio, essas celebridades podem ver suas imagens destruídas até de forma irreparável, podendo acabar relegadas ao ostracismo. Um ator que arranca suspiros das fãs, por exemplo, pode ter um histórico de violência contra mulheres em sua vida privada – há casos recentes como o de Dado Dolabella e do astro da série “Lost”, Matthew Fox.

Para ela, os ataques virtuais são uma forma moderna de expurgar a raiva em torno desta ou daquela celebridade. “Os ídolos são vistos, pela grande maioria, como sagrados, como deuses, e deuses não podem errar. Então, qualquer deslize vira motivo para desencadear um processo de transferência emocional negativa para aquele ídolo. É mais uma forma de canalizar as frustrações do dia a dia, por levar uma vida dura ou ter brigado com a esposa ou o marido.”

Na internet, de acordo com Flávia, as pessoas se sentem à vontade para reclamar, xingar e ofender, pois podem estar protegidas pelo anonimato. “Porém, quando atacam o outro, inconscientemente atacam a si mesmas. No caso da Carolina Dieckmann, quando as fotos vazaram, ela foi criticada por estar ‘feia’, sem maquiagem. Enfim, descobriu-se que aquele símbolo sexual, de beleza, de juventude, é igual a qualquer um de nós, com nossas imperfeições. Se o mundo do ídolo desaba, em quem as pessoas vão se espalhar? Em quem vão confiar? Os ídolos se tornam uma farsa.”

Angelita acrescenta que o impacto emocional sobre as personalidades públicas é também muito sério. Se uma pessoa comum, no dia a dia, não gosta de ser alvo de críticas, imagine o efeito de ser achincalhado por milhares de pessoas em todo o país. “Isso abala a confiança de qualquer um. Por mais seguro que você se sinta, isso vai levá-lo a se questionar sobre si mesmo, sobre sua capacidade de trabalho, seu valor como pessoa. Dependendo da proporção, isso pode gerar quadros depressivos ou de ansiedade.”

Ela lembra ainda que o grande medo psicológico de todo e qualquer ser humano é não ser amado. No caso das celebridades, elas tendem a alimentar a ilusão de que são amadas por todos e se desdobram para conservar esse “amor”. “Quando se tornam alvos de críticas públicas, é como se todo esse amor se esvaísse. Uma celebridade que passa por isso vai se sentir muito só, incompreendida, traída. O impacto vai depender do apoio que ela terá das pessoas próximas, aquelas que a amam de verdade.”

Famosos que foram alvo de ataques virtuais

Blog. O público atacou Maria Bethânia por causa do projeto de um blog de poesias que foi aprovado para captar R$ 1,3 milhão.

Fotos. A atriz Carolina Dieckmann teve sua intimidade exposta e criticada nas redes sociais, após fotos suas vazarem na internet.

Estupro. O modelo Daniel Echaniz foi tachado de estuprador durante sua participação no “BBB12”. Depois, foi inocentado pela Justiça.

Gay. Quando interpretou o Crô, em “Fina Estampa”, Marcelo Serrado disse que não deixaria sua filha ver um beijo gay na TV. Foi chamado de hipócrita.

Hino. Após errar a letra do Hino Nacional, Vanusa virou alvo de piadas na web. A cantora, após o episódio, teve suas crises depressivas agravadas.

Imagem: “De Baixo” por Claude Rozier-Chabert, em 1x.com

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