Música, Felicidade e Identidade Comum

Musica

No decorrer da história humana a música tem sido utilizada de diferentes formas. De veículo para a adoração divina a mais mundana das manifestações culturais com cunho comercial. Em todo caso, seja no religioso ou no profano, a música sempre teve como função última unir as pessoas. Parte da identidade de um povo, por exemplo, é expressa na música que ele produz. Ser de um determinado lugar ou etnia quase sempre foi sinônimo de ser apreciador de um determinado tipo de música. Hoje, com a globalização da Economia e a mundialização de padrões de consumo e de comportamento, essa relação direta entre origem cultural e geográfica e gosto musical não é tão simples. Não é porque alguém é brasileiro e negro que gostará de samba, mas no senso comum espera-se que goste. Mesmo assim, e apesar da miscigenação cultural que ocorre no mundo atual, a música ainda define “tribos”. Apreciadores de um mesmo estilo musical, aqui ou no Japão, tenderão a se vestir parecido, a apreciar atividades semelhantes, a idolatrar as mesmas celebridades, a usar vocabulário comum e por aí vai. Isso demonstra o poder aglutinador da música.

O poder que a música tem de agregar indivíduos sob uma mesma imagem identitária se dá, em parte, por duas razões: uma é que a música expressa valores, e as pessoas com visões de mundo parecidas tenderão a buscar a companhia umas das outras; a outra é que a música independe da linguagem falada para ser partilhada. A melodia, o ritmo e todos os elementos próprios da música transmitem uma mensagem que pode ser compreendida por pessoas de diferentes nacionalidades. Qualquer pessoa consegue reconhecer se uma música é alegre ou triste, agressiva ou apaziguadora, sexy ou romântica, etc., mesmo que não compreenda a letra (quando há uma). Ou seja, a música é uma linguagem universal e, por isso, supera as barreiras étnicas, geográficas, econômicas e culturais unindo pessoas.

Acontece que essa aproximação ocorre exatamente porque a música expressa valores. Logo, independentemente da origem de uma pessoa, ela se sentirá atraída por um determinado estilo musical porquê sentirá afinidade com a mensagem veiculada pela música. Sendo assim, o poder da música de estabelecer comunicação entre pessoas, mesmo de origens muito diferentes, revela o quanto ela é capaz de promover a aproximação por revelar pensamentos e sentimentos que nem sempre são expressos verbalmente. É por isso que no jogo da conquista, por exemplo, a música pode contribuir para que as pessoas envolvidas conheçam melhor um ao outro. Além disso, a música pode criar “clima” favorável para todo tipo de expressão emocional, seja de cunho erótico, intelectual ou afetivo. Um casal pode criar todo um universo próprio de referências a partir do repertório musical que acumulam. A existência desse repertório musical privativo contribui para uma maior sensação de intimidade, nutrindo vivências comuns e gerando memórias que constituem a história afetiva do casal. Num relacionamento, construir um território afetivo e intelectual privativo – com códigos, lembranças, fantasias e modos de comunicação que só o casal compartilha – ajuda a fomentar a intimidade, a confiança, o romance e o interesse de um pelo outro. E a música pode ser a fronteira que guarda esse território.

Nos estudos sobre felicidade uma coisa que sempre aparece é que os casais que compartilham interesses e valores comuns tendem a ser mais felizes do que aqueles que não o fazem. Quando falamos em gostos pessoais, e aí se inclui o gosto musical, estamos indiretamente falando de visões de mundo. Ou seja, o modo de viver de uma pessoa reflete-se naquilo que ela aprecia, seja o estilo de roupa ou de música, os roteiros de viagem que prefere ou as atividades de lazer que escolhe. Logo, psicologicamente falando, é difícil separar nossa personalidade daquilo que nos atrai, dá prazer e satisfação. Nesse sentido, e em certa medida, os gostos de uma pessoa falam de como ela vê a vida, do que ela valoriza, do que a encanta e emociona… E vice-versa! Há estudos que indicam isso em relação a quase tudo, incluindo música.

O psicólogo Adrian North, da Universidade de Edimburgo, realizou um estudo com mais de 36.000 pessoas e, curiosamente, descobriu que o perfil psicológico de fãs de Heavy Metal e de música clássica é muito parecido. Sendo uma fã desses dois estilos musicais não me surpreendo! Os achados de North mostram que tanto os fãs do Rock pesado quanto da música erudita tendem à introversão e a comportamentos obsessivos e sistemáticos, assim como apresentam criatividade acentuada. A princípio, isso pode soar estranho para quem não se empolga com os riffs da guitarra de Yngwie Malmsteen ou com as modulações e os fraseados de uma sonata ou de uma fuga, mas numa análise mais detalhada pode-se ver que os critérios de valor da música clássica são muito parecidos com os do heavy metal: virtuosismo, teatralidade, preciosismo, etc.

Dentre outras descobertas feitas por North, há dados que indicam que fãs de Country, por exemplo, costumam ser do tipo que trabalham duro e são amigáveis, enquanto os ouvintes de reggae são mais “preguiçosos”, muito embora apresentem autoestima alta… Ainda, segundo o psicólogo escocês, os fãs de indie music, por sua vez, são mais caracterizados por baixa autoestima e certa dose de agressividade. Ao passo que os apreciadores da música pop são os mais convencionais de todos e, assim como os fãs de Jazz, extrovertidos. É claro que tudo isso são generalizações, e quando falamos de indivíduos podem-se ter inúmeras combinações e variações. Mas o fato é que, num nível geral, o tipo de música que preferimos ouvir e tudo o mais que apreciamos tende a refletir aspectos essenciais do nosso caráter, ou seja, de nossas crenças, atitudes e valores. Dito isso, e lembrando a importância dos interesses e valores comuns para unir pessoas, seja um casal ou uma nação inteira, é válido afirmar que o compartilhamento do gosto musical pode sim contribuir para a felicidade individual e coletiva.

De fato, a união entre pessoas propiciada pela música se dá pela via das visões de mundo parecidas que, naturalmente, indicam interesses comuns. Por um lado, se uma pessoa é do tipo trabalhador, por exemplo, é mais fácil ela entender um parceiro ou um amigo, ou mesmo um grupo cultural, que dê grande atenção à vida profissional. Por outro, uma pessoa que é mais do tipo “deixa rolar”, pode ter dificuldade para se adaptar ou gostar de conviver com outras muito voltadas para o trabalho. Similarmente, uma pessoa mais convencional será resistente às excentricidades de alguém que seja muito criativo. É claro que no início de qualquer relacionamento entre pessoas as diferenças podem ser até atraentes e estimulantes, mas no longo prazo elas tendem a desgastar as relações. Isso ocorre porque ajustar estilos de vida muito distintos requer muita negociação e, em muitos casos, essa negociação sempre acaba com um lado cedendo muito mais do que o outro. Isso, obviamente, reflete-se no gosto musical. É muito mais fácil um fã de heavy metal suportar, anos a fio, um semelhante ouvindo música no último volume do que tolerar um apreciador de música pop se esbaldando alegremente com o primeiro lugar da Billboard!

2 comentários sobre “Música, Felicidade e Identidade Comum

  1. Nunca imaginei que fãs de Jazz fossem extrovertidos, pra mim eram da mesma laia dos fãs de música clássica e Heavy Metal, introvertidos e bem criativos.

  2. Excelente post, Angelita. Esse artigo traz boas e curiosas informações sobre o poder da música, porquê isso acontece e, mais interessante ainda, a parte que analisa o perfil psicológico das pessoas a partir do seu gosto musical!
    Vou replicar no meu blog O Bem Viver (http://obemviver.blog.br).
    E estou sempre dando uma olhada no seu blog.
    Sucesso sempre!

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