Recordar Para Ser Feliz

0_01

Por Vanessa Olivie – Revista Madame Brasil (04/12/2012) 

Suas lembranças exercem papel fundamental no presente e podem influenciar, mais do que imagina, seu estado de espírito. Manipulá-las ao bel prazer é impossível, mas você pode aprender a resigná-las, ou seja, atribuir novos significados a elas. Talvez esteja aí o caminho para a felicidade.

Laura estava em casa, organizando os armários de seu home of­fice, quando encontrou uma caixa com diversos álbuns de fotogra­fia. Pensou no quanto seria gratificante se perder nas lembranças boas trazidas naquele montante de fotos. Já sentada no chão, abriu o primeiro. Seus olhos se arregalaram e seus dedos passaram a virar as páginas, numa velocidade cada vez maior. Ao folhear todo o álbum, fez o mesmo com os outros sete. Muito assustada e confusa, levou o olhar para o quadro na parede ao lado, que antes exibia um dueto de belos sorrisos.

Correu para a sala, com os olhos desvairados a passar por todos os porta-retratos sobre a mesa de centro e aparador. Sentindo-se atordoada, foi para o quarto e ­ olhou o painel fotográfico. Laura começou a duvidar de sua sanidade, por mais que tivesse plena certeza do que estava vendo. Todas as imagens impressas nos papéis fotográficos haviam sumido. Era como se tivessem sido apagadas, restando, apenas, o angustiante branco do papel. Ela se lembrou de que ainda havia algumas fotos e vídeos gravados na memória do computador, mas, para sua decepção, não encontrou os arquivos. As imagens e vídeos também sumiram de seu celular. Suas memórias tinham se apagado para sempre.

Não, não se trata de nenhum fenômeno paranormal, astrológico ou astrofísico. Tampouco esta história é verídica. Laura não existe e nem suas supostas fotografias apagadas. É apenas um exemplo para ilustrar um acontecimento terrivelmente perturbador para qualquer um: a possibilidade de perdermos nossas memórias.

Você já pensou no que faria ou em como se sentiria se, de repente, todas as suas fotografias e vídeos de pessoas e momentos importantes da sua vida desaparecessem, assim como na história acima? Como seria se tivéssemos que depender apenas da nossa memória para jamais esquecer os bons momentos? Ou nos recordar de como éramos na infância, na adolescência, na juventude? Que cor tinham nossos cabelos principalmente, nós mulheres, que vivemos modificando o tom das madeixas)?  Que roupa usávamos no nosso aniversário de 8 anos? Ou, mais ainda, como era o sorriso de alguém muito querido, que há tempos se foi?

Por mais que nosso cérebro tenha 100 bilhões de neurônios e que sua capacidade e memorização seja praticamente infinita, a nossa memória tende a privilegiar  momentos que possuem um colorido especial: as emoções mais fortes, tanto positivas quanto negativas. O neurologista e doutor em ciências André Felício explica que as memórias vinculadas a um conteúdo emocional, geralmente, são mais fáceis de serem resgatadas, pois o cérebro as reconhece como relevantes em comparação àquelas tidas como corriqueiras. “Geralmente, o cérebro prioriza as lembranças com conteúdo negativo. Isso porque, do ponto de vista da evolução, o risco é mais importante do que o prazer, e o risco têm correlação direta com o aprendizado”.

É por isso que, durante uma viagem linda, se algo ruim acontecer (um acidente, um assalto, uma doença etc), o momento difícil ­ cará marcado em nossa memória, mais do que os dias de alegria, principalmente, se o evento negativo acontecer por último. Segundo a psicóloga Angelita Corrêa Scardua, mestre em Psicologia Social e especialista em Psicologia da Felicidade, a nossa memória tende a jogar todo o excesso de informação, preservando apenas os momentos ­finais e de maior intensidade emocional. “O importante é gerar condições para que o desfecho das experiências seja positivo”, pontua.

Driblando as memórias negativas

A jornalista Mariana Rossi, que integra a equipe da Editora A2, é um exemplo de quem soube driblar a memória negativa de uma experiência, produzindo muitas outras positivas. Logo que chegou a Buenos Aires, na Argentina, para curtir suas férias ao lado dos amigos, teve sua mochila (que continha dinheiro, documentos, celular, um livro raro e uma câmera fotográfica semiprofissional) furtada. No entanto, a frustração daquela primeira experiência não foi suficiente para aplainar a alegria dos próximos quatro dias. É claro que, no início, bateu aquela depressão, acompanhada de sentimentos amargos, como revolta, inconformismo e culpa. “Quando você começa a sentir que a coisa é real mesmo, aí bate uma tristeza profunda. Fiquei bem mal naquele dia, parecia até um luto”, conta. A sua dor maior era pela perda da câmera fotográfica, mais precisamente, pelas imagens gravadas em sua memória. “Senti muito pelas fotos que eu já havia feito. Não me conformava pelo fato de que nunca mais as veria novamente”.

Mas, no dia seguinte, Mariana acordou decidida a esquecer o ocorrido e a aproveitar ao máximo os outros dias da viagem. “Consegui parar de pensar no furto e focar somente nas coisas boas que estava vivendo. Dei-me conta de que tinha amigos de verdade ao meu lado, que me deram apoio. Entendi que era só uma questão de perspectiva e optei pelo ângulo positivo”. Esta é a palavra-chave: perspectiva. Tudo na vida depende de como olhamos para um fato, seja ele bom ou ruim. E, mais ainda, de como prosseguimos após um momento doloroso, já que temos dois caminhos: remoer o que já passou, nos colocando na pele de vítimas e, assim, produzindo, cada vez mais, memórias negativas que tornarão nossa vida triste. Ou procurar resolver a situação da melhor forma possível, deixando o passado para trás. Logo, temos a chance de gerar lembranças melhores, o que torna nosso presente muito mais feliz.

“Quando a situação é ruim, é importante buscarmos mecanismos que possam nos ajudar a superá-la. Sendo assim, o foco no momento presente se volta à construção de um futuro melhor. Isso nos dá a sensação de que não somos vítimas das circunstâncias e de que somos capazes de sair das ocasiões negativas, o que vai gerar memórias positivas sobre nós mesmos”, analisa a psicóloga Angelita Corrêa Scardua, que também é pioneira nos estudos de Psicologia da Felicidade no Brasil. Ela enfatiza, ainda, que quando conseguimos ter esse olhar, saímos no lucro, pois também poderemos extrair dos momentos críticos uma oportunidade de crescimento Mariana optou pelo ângulo positivo e, como consequência, hoje guarda uma lembrança feliz da viagem, além de valiosas lições: “Fiquei mais atenta e também aprendi a me desapegar das coisas materiais, pois tudo o que tenho de mais valioso ninguém no mundo pode roubar”, garante.

Peso das recordações

Algumas lembranças podem ter uma força tão gigantesca que servem de diretrizes para galgar passos importantes na vida. Mas esse grandioso impacto pode vir tanto para o bem quanto para o mal. E o que faz uma recordação nos influenciar dessa maneira é o quanto está associada a outros eventos similares. Angelita cita, como exemplo, uma desilusão amorosa. “A lembrança de ser rejeitada por alguém não necessariamente afetará nossa vida, mas se enfrentarmos várias rejeições ou se a rejeição vier de uma pessoa muito importante para nós, e durante um momento mais sensível, pode afetar”, explica.

Neste caso, o peso desta lembrança tem uma ligação direta aos próximos relacionamentos, que tendem a ser superficiais, pois há o medo de um novo envolvimento e, consequentemente, uma nova decepção. O mesmo acontece quando o centro das atenções é uma recordação boa. Angelita se lembra de uma paciente cuja memória positiva do passado representou o impulso necessário para ajudá-la a seguir em frente. Filha de uma mãe negligente e de um pai ausente, Aline (nome fictício) cresceu entre a pobreza e a falta de afeto. No entanto, em uma das casas onde trabalhou, teve um patrão motivador, que sempre elogiava sua letra e o fato de ser uma boa aluna na escola.

Esta é uma das poucas memórias positivas que ela guarda da infância, mas teve um papel definitivo na sua busca para superar a vida de privações. “A lembrança do reconhecimento positivo que o patrão fazia a ajudoua acreditar que poderia realizar algo para além da vida de empregada doméstica”. E foi assim, com o respaldo desta boa memória, que ela conseguiu realizar o sonho de ser uma bem-sucedida professora.

Questão de personalidade

A personalidade de cada um é um dado importante na soma dos níveis da nossa felicidade. Sabe por quê? A resposta está no modo como interpretamos nossas próprias memórias. Recentemente, pesquisadores da San Francisco State University se empenharam em descobrir como o grau de extroversão, neurose, consciência e amabilidade afeta a maneira como olhamos para o passado, o presente e o futuro. Eles concluíram que os extrovertidos são mais felizes, pois tendem a ter uma visão positiva das memórias, sem deixar que pensamentos negativos e grandes arrependimentos influenciem sua vida. Em contrapartida, os “neuróticos” costumam ter uma visão oposta do passado e, consequentemente, são menos felizes.

Para a psicóloga Angelita Scardua, os otimistas e resilientes (que têm capacidade de lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas) têm a tendência de encarar positivamente o passado porque costumam ser mais aptos a focar no momento presente e a reinterpretar as lembranças com base na sua trajetória. Os resilientes, ela aponta, têm a habilidade de resistir nos momentos difíceis, o que só aumenta sua força e confi­ança. Ao contrário deles, os pessimistas sentem mais dificuldade de lidar com mudanças e desafios, pois sempre esperam o pior de tudo. “Na média, eles estão constantemente remoendo o passado na busca por situações que confirmem suas descon­fianças em relação ao presente. Ou estão preocupados com o futuro por não se sentirem capazes de controlá-lo”. Ou seja, isso tudo os impede de usar, de forma mais efetiva, a experiência do agora para dar um novo significado ao que já passou.

Lembranças editadas

Você já pensou sobre a duração do presente? É pouquíssima e, segundo o já falecido psicólogo francês Paul Fraisse, dura exatamente 3 segundos. Ele chegou a essa conclusão depois de estudar a fundo o mecanismo da nossa memória. Conforme Fraisse, após esse tempo, todas as informações que absorvemos migra da nossa consciência para os sistemas de memória do cérebro. Com base nesta teoria, que hoje já é aceita por diversos pesquisadores, pode-se concluir que enxergamos nossa vida por meio de nossas lembranças. Será, então, que a felicidade mora no passado?

A psicóloga Angelita Scardua diz que a duração do presente é curta em termos meramente ­ fisiológicos, mas, se vista pela percepção consciente do tempo, ela dura, praticamente, a vida toda. Lembra da história da perspectiva? Pois é, o modo como vivemos o hoje é tão forte que ele pode modi­ficar o registro do que já foi vivido. “Eu não diria, portanto, que a felicidade está nas lembranças. Mas, sim, que está na interpretação que fazemos delas. A felicidade é a construção de uma vida, não dá para sentar nos louros do passado. A vida muda o tempo todo, oferece desa­fios emocionais, materiais e cognitivos que exigem que nós também mudemos”, pondera.

Acompanhando esse raciocínio, é possível, então, exercer algum controle sobre as memórias? Sim, mas não exatamente da maneira como queremos. Readaptar as lembranças é um processo automático, que acontece sem que se possa perceber. As engrenagens do cérebro são tão complexas a ponto de, naturalmente, reprogramarem o que já vivemos em função do que estamos vivenciando hoje. “Esse é um mecanismo cognitivo e adaptativo fundamental para não desistirmos das coisas”, analisa Angelita.

De fato, se lá na infância, por exemplo, lembrássemos dos tombos desagradáveis, por vezes doloridos, que levamos ao tentar andar pela primeira vez, talvez nunca tivéssemos andado. Mas o prazer de ­ car em pé sozinha funciona como uma anestesia na memória, que minimiza o impacto negativo da queda. “A organização da memória tende a priorizar a manutenção das experiências positivas que temos em detrimento das negativas. Se não fosse assim, não buscaríamos um novo relacionamento ou trabalho após uma experiência afetiva ou profissional frustrante, pois perderíamos a fé na possibilidade de viver algo melhor”.

A forma mais saudável de editar as recordações ruins é vivendo para criar novas experiências. No entanto, é fundamental a reflexão sobre o passado, a fim de compreender como e por que a experiência foi ruim, pontua Angelita. “Esse processo reflexivo e de autoconhecimento pode nos ajudar a definir melhor o que queremos ou não das situações, das pessoas e de nós mesmos, o que é essencial para que possamos fazer diferente”.

Angelita vai ainda mais longe, revelando um possível segredo da felicidade como alguém que descobre os truques de um grande mágico. Ela defende a capacidade de classi­ficar os eventos da vida, bons ou não, como passageiros. Neste sentido, aproveitaremos intensamente os bons momentos, por saber que eles não são eternos, e também aprenderemos a lidar melhor com os ruins, sem nos deixar afetar tanto, já que eles acabarão. Conclusão: a nossa felicidade é como um cupcake – feito de passado, com recheio de presente e cobertura de futuro. Bom apetite!

Dormir para recordar

Além de todos os benefícios já conhecidos, ter uma boa noite de sono também é primordial para impulsionar as memórias positivas. A descoberta partiu de um estudo publicado no site do jornal britânico Daily Mail. Cerca de 70 voluntários tiverem que olhar para imagens positivas, como foto de fi lhotes e fl ores. Depois, foram divididos em dois grupos – um que dormiria durante a noite e outro que permaneceria acordado.

Após 12 horas, os voluntários passaram por um teste de memória. Resultado: as lembranças positivas ficaram mais fortes na memória daqueles que haviam dormido. A conclusão dos pesquisadores da Universidade de Massachusetts (EUA) foi de que o sono aumenta nossa memória emocional positiva.

Segundo o neurologista André Felício, o sono é uma etapa fundamental para a consolidação da memória de curto prazo em longo prazo. “Mais do que isso, uma simples soneca ou cochilo já é importante para melhorar o desempenho das funções cognitivas”, garante.

Pílula do esquecimento

Há cinco anos, a secretária Fernanda Siqueira passou por um momento que afetou negativamente suas lembranças do emprego anterior. Ela, juntamente, com os colegas, foi rendida por assaltantes armados durante uma tarde, aparentemente, tranquila de trabalho. Após roubarem o que queriam, os bandidos foram embora sem causar ferimentos graves nem mortes. No entanto, a apavorante experiência resultou em uma recordação tão ruim que, se Fernanda pudesse, a apagaria da memória. O que nem ela nem a maioria sabem é que já existe uma droga com efeito semelhante ao tratamento pelo qual Jim Carrey e Kate Winslet passam no filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004): deletar um episódio da memória.

O neurocientista egípcio naturalizado americano Karim Nader, durante anos de estudo, compreendeu que o cérebro precisa sintetizar determinadas proteínas para impulsionar a conexão entre uma rede de neurônios a fim de arquivar uma informação. Ele, então, descobriu que ao bloquear essas proteínas, as memórias são, automaticamente, apagadas. Mas foi o neurologista Todd Sacktor, da Universidade Columbia, quem descobriu a fórmula para apagar uma memória específica: atingindo a proteína PKMzeta. No entanto, os cientistas afirmam que são necessários novos testes para entender qual é o real resultado dessa droga no cérebro, bem como seus possíveis efeitos colaterais.

Se você achou tudo isso incrível, vai se surpreender ainda mais com esta notícia: pesquisadores estão em busca de uma droga capaz de modificar as nossas memórias. E enquanto a pílula do esquecimento não chega às farmácias, fica uma pergunta: você tomaria?

Fábrica de lembranças boas

Para ativar suas memórias positivas e, como consequência, ser mais feliz, siga as dicas da psicóloga Angelita Corrêa Scardua:

DURMA EM PAZ: Nunca durma brigada com seu companheiro, pois a sensação ruim da briga afetará a lembrança do dia anterior e, provavelmente, comprometerá o bom humor do dia seguinte. “O ideal é que sempre busquemos solucionar as situações que nos incomodam”.

TRABALHE COM O QUE GOSTA: Se você não gosta do seu trabalho, mesmo que o salário seja ótimo, é como tomar doses diárias de um veneno que afetará a construção das memórias positivas. “Se vivemos uma rotina marcada por situações tediosas e frustrantes, nas quais não nos sentimos motivados ou envolvidos, estaremos gerando poucas lembranças positivas”.

ELEMENTOS NOVOS NA ROTINA: Experimente pratos diferentes durante o almoço, tente uma atividade física, faça um caminho diferente para o trabalho, use outras cores, passe mais tempo com pessoas de quem você gosta, aprenda algo novo, como dançar, cozinhar, tocar um instrumento ou outro idioma. “Pequenas alterações nos hábitos cotidianos podem gerar grande impacto emocional e criar condições para que emoções positivas ajudem a colorir a memória com lembranças felizes”.

FOQUE NO PRESENTE: Nunca viva um momento com a mente em outra direção. Por exemplo, se uma pessoa está numa festa pensando no relatório que entregará no dia seguinte no trabalho está desperdiçando uma boa chance de criar memórias positivas envolvendo relações sociais, diversão, paquera etc.

REGISTRE SEUS MOMENTOS: Crie registros para os momentos felizes, como fotografias ou vídeos, celebre suas conquistas e datas importantes, mantenha um diário, compartilhe coisas boas com os amigos e parentes etc. “Os registros de momentos felizes contribuem para nos mostrar que a vida pode ser boa, que por pior que seja o momento no qual nos encontramos, é possível viver outros melhores”.

TENHA METAS: Os objetivos são importantíssimos, pois nos ajudam a ver significados nas experiências não tão boas. Um estudante que deseja passar no vestibular terá um olhar mais positivo sobre as horas de estudo, após ter ingressado na faculdade. Ao passo que outro jovem que estuda apenas para agradar seus pais tenderá a se lembrar dos momentos de estudo apenas como a obrigação que lhe roubou horas de diversão.

Imagem: Por Rianete em 1x.com

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s