A Felicidade e a Curiosidade

Dentre as 24 Forças do Caráter propostas pela Psicologia Positiva, há seis que dizem respeito ao grupo das virtudes humanas associado ao Saber. Na visão de Martin Seligman, essas forças pessoais podem ser compreendidas como caminhos que nos conduzem à demonstração do saber e ao seu ferramental basilar o conhecimento. Este post discorre sobre a força pessoal Curiosidade.  As outras 5 forças do grupo saber são a Criatividade, o Gosto Pela Aprendizagem, o Critério, a Inteligência Emocional e a Perspectiva.

A pessoa curiosa tende a ser mais receptiva às experiências do mundo que a cerca e apresenta mais flexibilidade em relação a tudo o que é novo, diferente, incomum. Nesse aspecto, a curiosidade tende a minimizar o pré-conceito, seja este estético, intelectual, cultural, etc. Pessoas curiosas estão dispostas a explorar o desconhecido antes de julgá-lo. Assim, os curiosos não acomodam-se a incerteza ou a velhas idéias. Diante do inesperado e do “não sabido” os curiosos sentem-se estimulados a procurar, a desvendar, a conhecer… Como comportamento manifesto, a curiosidade pode ser dirigida a um objeto específico, como um interesse pela Astronomia, por exemplo. Ou pode ser de ordem genérica, caracterizando um forma de funcionamento pessoal voltado para a exploração de tudo o que é novo e desconhecido. Portanto, curiosidade e novidade costumam caminhar de mãos dadas.

Por que a curiosidade é importante em termos psicológicos?

Porque estar aberto para o novo nos ajuda a ampliar nosso campo perceptivo, aprimorando a nossa concepção da realidade. Ou seja, quando nos dispomos a conhecer, a explorar, a experimentar, criamos condições mentais que nos ajudam a avaliar as experiências de maneira diversificada. Esse exercício aumenta o nosso repertório de informações sobre o mundo, as coisas e sobre nós mesmos, o que nos ajuda a sermos mais tolerantes e menos limitados em termos de apreciação das experiências. Como a vivência de felicidade está diretamente associada à nossa capacidade de fruir com a experiência – ou seja, de conseguir aproveitar os momentos vividos integralmente – ser curioso pode favorecer uma maior apreciação da vida. Já que a curiosidade nos motiva a conhecer e a experimentar, o usufruto da vida se torna mais rico e, conseqüentemente, mais feliz.

Qualquer situação que nos retire da absorção passiva de informação, ou que exija mais do que pensamentos e ações automáticas, faz com que a curiosidade floresça. Nosso cérebro é ligeiramente “promíscuo”, ele gosta de novidades, ou de aprender novos modos de fazer velhas coisas. O desafio cognitivo e emocional gerado pela quebra da rotina estimula novas conexões ao nível neuronal, fortalecendo nossa capacidade de aprendizado. A estimulação dos sentidos desencadeada pelo novo promove no cérebro a liberação de neurotransmissores associados ao prazer como a dopamina, por exemplo. E a “aquisição” de algo novo, seja uma idéia ou uma habilidade, promove bem-estar. E assim, quando conseguimos associar prazer e bem-estar podemos contribuir para a nossa felicidade.

Existem atitudes que podem favorecer o desenvolvimento e o fortalecimento da curiosidade. Algumas sugestões:

– Procure mudar o caminho que você percorre todos os dias para ir ao trabalho, à escola, etc. Pelo menos uma vez por semana, alterne algumas ruas, faça um caminho mais longo ou mais curto. Se você costuma ir de carro, vá de ônibus, de carona, a pé. Aproveite para prestar atenção à paisagem, às pessoas. Provavelmente você (re)descobrirá muitas coisas no seu caminho.

– Experimente fazer algo que você nunca fez. Qualquer coisa vale: aprender a dançar, velejar, cantar, escalar, ir a um karaokê…Desde que você exercite uma habilidade que nunca foi usada, tudo vale!

– Aprenda uma nova língua, dedique-se a estudar um instrumento musical, faça artesanato, colecione algo… O que importa aqui é envolver-se com uma atividade que seja inédita para você, que te ofereça novos desafios cognitivos e desperte o seu interesse por situações e assuntos desconhecidos.

– Permita-se sentir novos sabores, novos aromas, novas texturas. Pense na diversidade de alimentos que existe no mundo e pergunte-se sobre o quanto você tem usufruído de tudo isso. Enriqueça seu paladar, procure todo dia incluir no seu cardápio um alimento que você não costuma comer. Faça isso pelo menos duas vezes por semana, vá aumentando progressivamente. Troque o seu perfume: se você não usa nenhum, experimente algum; se você usa vários, escolha um dia por semana para não usar nenhum. Compre uma peça de roupa numa cor que você jamais pensou usar, use-a. Varie as cores do seu vestuário.

– Visite lugares que você nunca visitou. Não precisa ir muito longe, tenho certeza de que na sua cidade há várias ruas, bairros e monumentos que você nunca visitou. Procure conhecer a história do lugar em que você vive, praticamente todos os lugares foram palco de algum evento interessante.

– Quando você for fazer alguma coisa cotidiana e ordinária como tomar banho, cozinhar ou ver televisão, procure observar como o seu corpo e a sua mente usufruem da experiência. Que sensações cada um desses momentos te evocam? Como o seu corpo está reagindo? Que sentimentos despontam? Que tipo de pensamento você está alimentando? Se você parar para fazer isso, descobrirá novas sensações, sentimentos e pensamentos; aprenderá novas formas de fazer o que sempre fez.

– Aprender, descobrir, explorar…são verbos familiares ao universo infantil. Crianças são naturalmente curiosas pois, para elas, o mundo todo é um grande espaço desconhecido a ser explorado. Na visão de uma criança, praticamente tudo é novidade. Nós, os adultos, tendemos a inibir essa vocação natural para a curiosidade. Como? Por exemplo, uma criança te faz uma daquelas clássicas perguntas infantis, do tipo: “Porque a lua não cai do céu?”. Você, na sua ignorância astronômica, diz simplesmente: “Sei lá!”. Ou pior, dá uma resposta qualquer. Ao invés de fazer isso, porque não admitimos nosso desconhecimento e não nos lançamos na aventura de explorar e conhecer? Por que não pegamos a criança que nos fez a pergunta e vamos juntos desvendar o “mistério” de sustentação da lua no céu? Um passeio ao Planetário da cidade, uma busca pela Internet, uma ida à Biblioteca pública, uma conversa com o professor de física…Muitos caminhos podem incentivar uma criança a ter gosto pelo conhecimento. E, mais importante, mostrar para a criança que a curiosidade – o desejo de saber – é saudável, que pode ser cultivada; que pode ser divertido conhecer, aprender, e que é possível e desejável tentar compreender o mundo que nos cerca. Além do que, com uma atitude positiva em relação à curiosidade da criança, nós também aprendemos!

– Incentivar a curiosidade infantil implica, também, respeitar o modo de funcionamento próprio da criança.  Logo, brinquedo é para brincar! Para muitas crianças, o brincar inclui quebrar o brinquedo, abrí-lo, analisá-lo, descobrir o que tem dentro, desvendar os mecanismos de funcionamento da engenhoca…Isso é bom e saudável! Ao investigar o brinquedo, esmiuçá-lo, a criança exercita o seu interesse pelo funcionamento das coisas, busca respostas, não se conforma  a uma postura passiva  diante do  incógnito. Então porque alguns adultos insistem em exigir das crianças que não “estraguem” os brinquedos? Porque alguns adultos compram brinquedos não para a satisfação e prazer das crianças mas para alimentar a própria vaidade. Assim, esses adultos gostam de exibir os brinquedos impecáveis em prateleiras, nichos e outras derivações do vocabulário decor. E as crinças, a quem os brinquedos deveriam servir? Aprendem que devem se conformar com as respostas e os modelos prontos, que a inventividade e a curiosidade são ruins, que devemos aceitar as coisas como elas nos são dadas, sem contestar, sem procurar saber o porquê! Coibir a curiosidade infantil é uma boa estratégia para criar adultos passivos, sem iniciativa, sem autoconfiança…infelizes!

– Não seja passivo e nem estimule a passividade! Exercite o seu cérebro, alimentando-o com estímulos constantes que te permitam conhecer, desvendar, explorar, aprender, descobrir…use esses verbos, conjugue-os cotidianamente. Pense: quantas vezes no seu dia-a-dia você tem utilizado essas palavras? Se muito pouco, está na hora de começar a preparar a sua mente, e conseqüentemente o seu corpo, para experiências mais significativas que favoreçam a sua curiosidade.

Lembre-se: ao favorecer a curiosidade você amplia o seu campo perceptivo, potencializando as experiências e enriquecendo a sua capacidade de expressão. Ser feliz é, em grande parte, o aprendizado de como fruir com a vida. Ser curioso nos ajuda a descobrir os meios para fazê-lo.

Imagem: “O Gato atrás da cortina do chuveiro” por Louise LeGresley, em 1x.com

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